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À Meia-Noite dos Tambores Silenciosos

de “Carbono”, de Lenine

2015_Lenine_Carbono

O baque do maracatu estanca no ar;
Das lâmpadas apaga-se a luz branca no ar;
Na sombra onde som-
-Em cor e som,
Somos um,
Ao rés
Do chão, aos pés
De Olorum.

Um lume no negrume vaga dentro de nós;
Um choro insonoro alaga o centro de nós;
Com fé ou não no axé,
No São José,
Todos são
Um nó,
E tudo é só
Comoção.

Ó Largo do Terço,
Quão largo, profundo,
Bendito o teu rito que eu verso.

Em mantras, cantos brandos já ecoam no ar;
Em bando, pombas brancas já revoam no ar;
No chão, na vibração
De nossas mãos,
Somos um,
Irmãos
Na evocação
Dos eguns.

Ó Largo do Terço,
Quão largo, profundo,
Bendito o teu rito que eu verso.

Quede Água?

de “Carbono”, de Lenine

2015_Lenine_Carbono

A seca avança em Minas, Rio, São Paulo.
O Nordeste é aqui, agora.
No tráfego parado onde me enjaulo,
Vejo o tempo que evapora.
Meu automóvel novo mal se move,
Enquanto no duro barro
Do chão rachado da represa onde não chove,
Surgem carcaças de carro.

Os rios voadores da Hileia
Mal deságuam por aqui,
E seca pouco a pouco em cada veia
O Aquífero Guarani.
Assim, do São Francisco a San Francisco,
Um quadro aterra a terra:
Por água, por um córrego, um chuvisco,
Nações entrarão em guerra.
 
Quede água? Quede água?
 
Agora o clima muda tão depressa,
Que cada ação é tardia,
Que dá paralisia na cabeça,
Que é mais do que se previa.
Algo que parecia tão distante
Periga agora tá perto;
Flora que verdejava radiante
Desata a virar deserto.

O lucro a curto prazo, o corte raso,
O agrotóxiconegócio;
A grana a qualquer preço, o petrogaso-
Carbocombustível fóssil.
O esgoto de carbono a céu aberto
Na atmosfera, no alto;
O rio enterrado e encoberto
Por cimento e por asfalto.
 
Quede água? Quede água?
 
Quando em razão de toda a ação “humana”
E de tanta desrazão,
A selva não for salva e se tornar savana;
E o mangue, um lixão;
Quando minguar o Pantanal, e entra em pane a
Mata Atlântica, tão rara;
E o mar tomar toda cidade litorânea,
E o sertão virar Saara;

E todo grande rio virar areia,
Sem verão virar outono;
E a água for commodity alheia,
Com seu ônus e seu dono;
E a tragédia da seca, da escassez,
Cair sobre todos nós,
Mas sobretudo sobre os pobres, outra vez
Sem terra, teto, nem voz…
 
Quede água? Quede água?
  
Agora é encararmos o destino
E salvarmos o que resta;
É aprendermos com o nordestino,
Que pra seca se adestra;
E termos como guias os indígenas,
E determos o desmate,
E não agirmos que nem alienígenas
No nosso próprio habitat.

Que bem maior que o homem é a Terra,
A Terra e o seu arredor,
Que encerra a vida, que na Terra não se encerra,
A vida, a coisa maior,
Que não existe onde não existe água,
Mas que há onde há arte,
Que nos alaga e nos alegra, quando a mágoa
A alma nos parte,

Para criarmos alegria pra viver o
Que houver pra vivermos,
Sem esperanças, mas sem desespero,
No futuro que tivermos.
 
Quede água? Quede água?

Envergo, Mas Não Quebro

de “Chão”, de Lenine
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Se por acaso eu pareço
Que agora já não padeço
De um mau pedaço na vida,
Saiba que minha alegria,
Como é normal, todavia,
Com a dor é dividida.

Eu sofro igual todo mundo,
Eu somente não me afundo
Em um sofrimento infindo;
Eu posso até ir ao fundo
De um poço de dor profundo,
Mas volto depois sorrindo.

Em tempos de tempestades,
Diversas adversidades,
Eu me equilibro e requebro;
É que eu sou tal qual a vara
Bamba de bambu-taquara:
Eu envergo, mas não quebro.

Não é só felicidade
Que tem fim, na realidade
A tristeza também tem.
Tudo acaba se inicia,
Temporal e calmaria,
Noite e dia, vai e vem.

E quando é má a maré,
E quando já não dá pé,
Não me revolto ou me queixo,
E tal qual um barco solto,
Salvo do alto-mar revolto,
Volto firme pro meu eixo.

E em noite assim como esta,
Eu cantando numa festa,
Ergo meu copo e celebro
Os bons momentos da vida –
E nos maus tempos da vida
Eu envergo, mas não quebro.

Isso É Só o Começo


2011_Lenine_Chao-2_1024

Aqui chegamos enfim
A um ponto sem regresso
Ao começo do fim
De um longo e lento processo
Que se apressa a cada ano
Como um progresso insano
Que marcha pro retrocesso

Estranhos dias vivemos
Dias de eventos extremos
E de excessos em excesso
Mas se com tudo que vemos
Os olhos viram do avesso
Outros eventos veremos
Outros, extremos, virão
Prepare seu coração
Que isso é só o começo

Aqui estamos porém
Num evento diferente
Onde a gente se entretém
Um ao outro, frente a frente
Deixando um pouco ao fundo
O ambiente do mundo
Por esse aqui, entre a gente

Assim nesse clima quente
No espaço e tempo presente
Meu canto eu lanço, não meço
Minha rima eu arremesso
Pra que nada fique intacto
E tudo sinta o impacto
Da ação de cada canção
Preparem-se, irmã, irmão
Que isso é só o começo

É Fogo


de “Labiata”, de Lenine

2008_Lenine_Labiata_1024

Éramos uma pá de “apocalípticos”,
De meros “hippies”, com um “falso” alarme…
Economistas, médicos, políticos
Apenas nos tratavam com escárnio.

Nossas visões se revelaram válidas,
E eles se calaram – mas é tarde.
As noites ’tão ficando meio cálidas…
E um mato grosso em chamas longe arde:

O verde em cinzas se converte logo, logo…

É fogo! É fogo!

Éramos “uns poetas loucos, místicos”…
Éramos tudo o que não era são;
Agora são – com dados estatísticos –
Os cientistas que nos dão razão.

De que valeu, em suma, a suma lógica
Do máximo consumo de hoje em dia,
Duma bárbara marcha tecnológica
E da fé cega na tecnologia?

Há só um sentimento que é de dó e de malogro…

É fogo… é fogo…

Doce morada bela, rica e única,
Dilapidada – só – como se fôsseis
A mina da fortuna econômica,
A fonte eterna de energias fósseis,

O que será, com mais alguns graus Celsius,
De um rio, uma baía ou um recife,
Ou um ilhéu ao léu clamando aos céus, se os
Mares subirem muito, em Tenerife?

E dos sem-água o que será de cada súplica, de cada rogo?

É fogo… é fogo…

Enquanto a emissão de gás carbônico
Sobe na América do Norte e na China,
No coração da selva amazônica
Desmatam uma Holanda: uma chacina!

Ó assassinos bárbaros frenéticos!
Ó gente má, ignara, vil, ignóbil!
Ó cínicos com máscara de céticos!
Ó antiéticos da ExxonMobil!

O estrago vai ser pago pela gente pobre toda;

É foda! É foda…

Em tanta parte, do Ártico à Antártida,
Deixamos nossa marca no planeta:
Aliviemos já a pior parte da
Tragédia anunciada com trombeta.

Mais que bilhões de vidas, é a vida em jogo.

É fogo.

Quadro Negro


de “Pulsar”, de Regina Machado


de “Falange Canibal”, de Lenine

No sub-imundo mundo sub-humano
Aos montes, sob as pontes, sob o sol
Sem ar, sem horizonte, no infortúnio
Sem luz no fim do túnel, sem farol
Sem-terra se transformam em sem-teto
Pivetes logo se tornam pixotes
Meninas, mini-xotas, mini-putas, de pequeninas tetas nos decotes

Quem vai pagar a conta? Quem vai lavar a cruz?
O último a sair do breu, acende a luz

No topo da pirâmide, tirânica
Estúpida, tapada minoria
Cultiva viva como a uma flor
A vespa vesga da mesquinharia
Na civilização eis a barbárie
É a penúria que se pronuncia
Com sua boca oca, sua cárie
Ou sua raiva e sua revelia

Quem vai pagar a conta? Quem vai lavar a cruz?
O último a sair do breu, acende a luz

O que prometeu não cumpriu
O fogo apagou, a luz extinguiu

Todas Elas Juntas Num Só Ser

de “In Cité: Ao Vivo”, de Lenine
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de “Ensaio de Cores – Ao Vivo”, de Ana Carolina
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Não canto mais Bebete nem Domingas
Nem Xica nem Tereza, de Ben Jor;
Nem Drão nem Flora, do baiano Gil;
Nem Ana nem Luiza, do maior;
Já não homenageio Januária,
Joana, Ana, Bárbara, de Chico;
Nem Yoko, a nipônica de Lennon;
Nem a cabocla, de Tinoco e de Tonico;

Nem a tigresa, nem a vera gata,
Nem a branquinha, de Caetano;
Nem mesmo a linda flor de Luiz Gonzaga,
Rosinha, do sertão pernambucano;
Nem Risoflora, a flor de Chico Science –
Nenhuma continua nos meus planos.
Nem Kátia Flávia, a flor de Fausto Fawcett;
Nem Anna Júlia, de Camelo, dos Hermanos.

Só você,
Hoje eu canto só você;
Só você,
Que eu quero porque quero, por querer.

Não canto de Melô pérola negra;
De Brown e Herbert, uma brasileira;
De Ari, nem a baiana nem Maria,
Nem a Iaiá também, nem a faceira;
De Dorival, nem Dora nem Marina
Nem a morena de Itapoã;
De Vina, a garota de Ipanema;
Nem Iracema, de Adoniran.

De Jackson do Pandeiro, nem Cremilda;
De Michael Jackson, nem a Billie Jean;
De Jimi Hendrix, nem a doce Angel;
Nem Ângela nem Lígia, de Jobim;
Nem Lia, Lily Braun nem Beatriz,
Das doze deusas de Edu e Chico;
Até das trinta Leilas de Donato
E da Layla de Clapton eu abdico.

Só você,
Canto e toco só você;
Só você,
Que nem você ninguém mais pode haver.

Nem a namoradinha de um amigo
E nem a amada amante de Roberto;
E nem Michelle-ma-belle, do beatle Paul;
Nem Isabel – Bebel – de João Gilberto;
E nem B.B., la femme de Serge Gainsbourg;
Nem, de Totó, na malafemmena;
Nem a Iaiá de Zeca Pagodinho;
Nem a mulata mulatinha de Lalá;

E nem a carioca de Vinicius
E nem a tropicana de Alceu
E nem a escurinha de Geraldo
E nem a pastorinha de Noel
E nem a namorada de Carlinhos
E nem a superstar do Tremendão
E nem a malaguenha de Lecuona
E nem a popozuda do Tigrão

Só você,
Elejo e elogio só você,
Só você,
Que nem você não há nem quem nem quê.

De Haroldo Lobo com Wilson Batista,
De Mário Lago e Ataulfo Alves,
Não canto nem Emília nem Amélia:
Nenhuma tem meus vivas! e meus salves!
Nem Polly do nirvana Kurt Cobain
E nem Roxanne, de Sting, do Police;
E nem a mina do mamona Dinho
E nem as mina – pá! – do mano Xis!

Loira de Hervê e loira do É O Tchan,
Lôra de Gabriel, o Pensador;
Laura de Mercer, Laura de Braguinha
(L´aura de Arnaut Daniel, o trovador?);
Ana do Rei e Ana de Djavan,
Ana do outro rei, o do baião:
Nenhuma delas hoje cantarei:
Só outra reina no meu coração.

Só você,
Rainha aqui é só você,
Só você,
A musa dentre as musas de A a Z.

Se um dia me surgisse uma moça
Dessas que, com seus dotes e seus dons,
Inspiram parte dos compositores
Na arte das palavras e dos sons,
Tal como Madelleine, de Jacques Brel,
Ou como Madalena, de Martinho,
Ou Mabellene e a sixteen de Chuck Berry,
E a manequim do tímido Paulinho;

Ou como, de Caymmi, a moça pRosa
E a musa inspiradora Doralice;
Se me surgisse uma moça dessas,
Confesso que eu talvez não resistisse;
Mas, veja bem, meu bem, minha querida:
Isso seria só por uma vez,
Uma vez só em toda a minha vida!
Ou talvez duas… mas não mais que três…

Só você…
Mais que tudo é só você;
Só você…
As coisas mais queridas você é:

Você pra mim é o sol da minha noite;
É como a rosa, luz de Pixinguinha;
É como a estrela pura aparecida,
A estrela a refulgir, do Poetinha;
Você, ó flor, é como a nuvem calma
No céu da alma de Luiz Vieira;
Você é como a luz do sol da vida
De Stevie Wonder, ó minha parceira.

Você é para mim e o meu amor,
Crescendo como mato em campos vastos,
Mais que a gatinha para Erasmo Carlos;
Mais que a cigana pra Ronaldo Bastos;
Mais que a divina dama pra Cartola;
Que a domna pra De Ventadorn, Bernart;
Que a honey baby para Waly Salomão
E a funny valentine pra Lorenz Hart.

Só você,
Mais que tudo e todas, só você;
Só você,
Que é todas elas juntas num só ser.

Vivo


de “In Cité: Ao Vivo”, de Lenine
2004_Lenine_Cite_1024

Precário, provisório, perecível,
Falível, transitório, transitivo,
Efêmero, fugaz e passageiro:

Eis aqui um vivo.

Impuro, imperfeito, impermanente,
Incerto, incompleto, inconstante,
Instável, variável, defectivo:

Eis aqui um vivo.

E apesar
Do tráfico, do tráfego equívoco,
Do tóxico do trânsito nocivo;
Da droga do indigesto digestivo;
De o câncer vir do cerne do ser vivo;
Da mente, o mal do ente coletivo;
Do sangue, o mal do soropositivo;
E apesar dessas e outras,
O vivo afirma, firme, afirmativo:

“O que mais vale a pena é estar vivo!”

Não feito, não perfeito, não completo,
Não satisfeito nunca, não contente,
Não acabado, não definitivo:

Eis aqui um vivo.

Eis-me aqui.

Ecos do “Ão”


de “Falange Canibal”, de Lenine

Rebenta na Febem: rebelião.
Um vem com um refém e um facão.
A mãe aflita grita logo: “Não!”
E gruda as mãos na grade do portão.
Aqui no caos total do cu do mundo cão,
Tal a pobreza, tal a podridão,
Que assim nosso destino e direção
São um enigma, uma interrogação.

Ecos do “ão”.

E se nos cabe apenas decepção,
Colapso, lapso, rapto, corrupção?
E mais desgraça, mais degradação?
Concentração, má distribuição?
Então a nossa contribuição
Não é senão canção, consolação?
Não haverá então mais solução?
Não, não, não, não, não.

Ecos do “ão”,
Ecos do “ão”.

Pra transcender a densa dimensão
Da mágoa imensa, e tão-somente então
Passar além da dor, da condição
De inferno-e-céu, nossa contradição,
Nós temos que fazer com precisão
Entre projeto e sonho a distinção,
Para sonhar enfim sem ilusão
O sonho luminoso da razão.

Ecos do “ão”.

E se nos cabe só humilhação,
Impossibilidade de ascensão,
Um sentimento de desilusão
E fantasias de compensação?
E é só ruína tudo em construção?
E a vasta selva, só devastação?
Não haverá então mais salvação?
Não, não, não, não, não.

Ecos do “ão”,
Ecos do “ão”.

Porque não somos só intuição,
Nem só pé de chinelo, pé no chão.
Nós temos violência e perversão,
Mas temos o talento e a invenção,
Desejos de beleza em profusão
E ideias na cabeçacoração;
A singeleza e a sofisticação,
O axé e a bossa, o tchã e o tomjoão. (*)

Ecos do “ão”.

Mas se nós temos planos, e eles são
De nos tornarmos plenos cidadãos, (**)
Por que não pô-los logo em ação?
Tal seja agora a inauguração
Da nova nossa civilização,
Tão singular igual o nosso “ão”.
E sejam belos, livres, luminosos,
Os nossos sonhos de nação.

Ecos do “ão”,
Ecos do “ão”.

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Variantes:

(*) O choro, a bossa, o samba e o violão.
(**) O fim da fome e da difamação,

To Be Tupi

Eu sou feito de restos de estrelas,
Como o corvo, o carvalho e o carvão.
As sementes nasceram das cinzas
De uma delas depois da explosão.

Sou o índio da estrela veloz e brilhante,
O que é forte como o jabuti;
O de antes, de agora em diante,
E o distante galáxias daqui.

Canibal tropical, qual o pau
Que dá nome à nação, renasci,
Natural, analógico e digital,
Libertado astronauta tupi.

Eu sou feito do resto de estrelas
Daquelas primeiras, depois da explosão,
Sou semente nascendo das cinzas,
Sou o corvo, o carvalho, o carvão.

O meu nome é tupi, gaikuru;
O meu nome é Peri de Ceci.
Eu sou neto de Caramuru,
Sou Galdino, Juruna e Raoni.

E no cosmos de onde eu vim,
Com a imagem do caos
Me projeto futuro sem fim
Pelo espaço num tour sideral.

Minhas roupas estampam em cores
A beleza do caos atual,
As misérias e mil esplendores
Do planeta da aldeia global. (*)

O meu nome é tupi, gaikuru;
O meu nome é Peri de Ceci.
Eu sou neto de Caramuru,
Sou Galdino, Juruna e Raoni.

_____ __________________________________
Variante:
(*) Do planeta de Neandertal.