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Visão da Terra


de “Gaiola”, de Tetê Espíndola
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Aqui chegamos enfim
A um ponto sem regresso
Ao começo do fim
De um longo e lento processo
Que se apressa a cada ano
Como um progresso insano
Que marcha pro retrocesso

Estranhos dias vivemos
Dias de eventos extremos
E de excessos em excesso
Mas se com tudo que vemos
Os olhos viram do avesso
Outros eventos veremos
Outros, extremos, virão
Prepare seu coração
Que isso é só o começo

Aqui estamos porém
Num evento diferente
Onde a gente se entretém
Um ao outro, frente a frente
Deixando um pouco ao fundo
O ambiente do mundo
Por esse aqui, entre a gente

Assim nesse clima quente
No espaço e tempo presente
Meu canto eu lanço, não meço
Minha rima eu arremesso
Pra que nada fique intacto
E tudo sinta o impacto
Da ação de cada canção
Preparem-se, irmã, irmão
Que isso é só o começo

Cururu


de “Gaiola”, de Tetê Espíndola
1986_Tete_Espinola_Gaiola_1024

Ouça
Uma vez o meu irmão virou uma onça
Onça
De passo leve no escuro
Passo
Que nem de sapo-cururu

Eh, eh!
Meu irmão que nem meu tio iauaretê
Isso
Foi um feitiço, eu lhe juro
Até
Fiquei um tanto jururu

De repente, onde o corpo de um homem
Patas, pintas, porte e força de uma onça

Teria sido imagem imaginária
Ou era tudo verdade pura veraz?
Teria sido miragem visionária
Ou era ele aquela fera feroz?

Onça?
Não, o meu irmão não passa de uma moça
Mansa
Que nem um sapo numa poça
Puro
Que nem a flor de um cipó-

-Cururu.

Na Chapada


de “Gaiola”, de Tetê Espíndola
1986_Tete_Espinola_Gaiola_1024

Há um chuvisco na Chapada
Em toda a mata um cochicho em cê-agá
Chuá-chuá na queda d´água
Eu me espicho e fico quieta
Nada me falta

O véu de noiva de água virgem
Me elevou, envolveu
A sua ducha me deu vertigem
Arrepio, rodopio, em mim
Seu jorro não tem mais fim

E nesse êxtase me deixo
Não sei quem sou
Estou no meio do arco-íris
E saboreio elixires de amarílis

Na cachoeira-enxurrada
O véu da chuva desceu
No vento nuvem
Do céu desaba
Chapinhante, espumante champanhe
Chapada dos Guimarães

Essa Tarde

Essa tarde no alarde do seu lusco-fusco
É a tela mais bela na luz do crepúsculo
Tantas nuvens reluzem num grande lençol
Desmanchando e manchando o azul dos espaços
A terra emudeceu
Diante das cores no céu

O que vemos agora é mesmo um milagre
É a glória fugaz e capaz de uma lágrima
De beleza o olho vermelho do sol
Incendeia tua pele, cabelos e pelos
O céu, a terra, o chão
A nós e à nossa paixão

Pássaros na garganta


de “Pássaros na Garganta”, de Tetê Espíndola

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No céu da minha garganta
Eu tenho ao cantar
Pássaros que quando cantam
Não posso conter
Solto o que se levanta
Do meu ser
E vou ao sol no vôo
Enquanto sôo

Mas quando num céu tão cinza
Não vejo passar
Os pássaros que extinguem
Da terra e do ar
Passo o que existe em mim
A doer
Me dou tão só ao som
Com dó e dom

E o que sinto vai contra
Quem varre as matas e arremata a terra-mãe
E me indigna a onda
De insanos atos de insensatos que não amaina

Ânsia de que a vida seja mais cheia de vida
Pelas alamedas, pelas avenidas
Em aroma cor e som –
Árvores e ares, pássaros e parques
Para todos e por todos
Preservados em cada coração

Mas quando num grito raro
Se apossa de mim
O espírito desses pássaros
Que não tem fim
Espalho pelo espaço
O que não há
Com amor e com arte
Garganta e ar

Cuiabá


de “Pássaros na Garganta”, de Tetê Espíndola

1982_Tete_Espinola_Passaros_na_garganta_1024

Vaia de arara passa pelos ares
Daqui pra ali
Fica no olhar a flutuar o leque
Do buriti

Se abre sobre a cidade verde
O céu de anil
No coração da América a terra de ócio
De sol e rio

Cuiabá
De onde se ouviu
Som de índio cantando à beira do rio

Cuiabá
De onde se vê
Cuia à beça, cabaça de cuietê

Cuiabá
Dos pacus
Dos furrundus
Dos cajus
Do João
“São” Sebastião
Da cabocla de pele queimada
De Leveger
Dos leques de palha
Talhas de São Gonçalo

Ah! Essa gente
Esse calor
Quero pra sempre
Com muito amor

Amor e Guavira


de “Pássaros na Garganta”, de Tetê Espíndola

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No cerrado onde o mato é grosso e a coisa é fina
Entre um cacho e um trago um moço abraça uma menina
O namoro é debaixo de uma árvore da flora
Onde ambos lambuzamos nossa cara de amora

Nesse ambiente exuberante e fruto do amor
A guavira água vira em nossa boca, ai que sabor
Língua a língua se fala a linguagem de quem beija-flor
Flor da pele que me impele assim
Ao mais louco amor
Que se faz naturalmente enfim
Seja onde for