O Cerrado Sacrificado

O que será do cerrado?
O que será da caixa dágua do Brasil?
Dessa savana mais diversa do planeta
Dessa floresta subterrânea e invertida
Dessas raízes fundas e lençóis freáticos
Do ser tão grande de veredas e chapadas
Dos Guimarães, dos Veadeiros e das Mesas
Do Parque do Xingu, da Serra da Canastra
Do Jalapão, do Urucuia-Bambuí
De tanta vida envolvida o que será?
Sem a devida proteção, com a pressão
Num padrão desenfreado?

O que será do cerrado?
Se a seca pega fogo e acende o incêndio vil,
Se o ruralista brucutu se locupleta
Com a devastação da flora convertida
Em vasto pasto e plantação monotemática;
Se a mata já pela metade se degrada;
Se o agro tech e pop agride a natureza;
Se o mar sem fim de soja pelo chão se alastra,
E se a nascente morre, e some o buriti,
O tamanduá-bandeira e o lobo-guará?
Será que já marcaram o cerrado então
Para ser sacrificado?

O que vai ser do cerrado
Vai depender
De o deixarmos ser
O cerrado

O que vai ser do cerrado
Vai depender dos feitos e malfeitos mil
Da ação do ser humano macho que decreta
Um crescimento com subtração de vida
E aumento de calor, poluição climática
Um tipo de progresso verde na fachada
De uma noção no fundo pobre de riqueza
À custa de destruição e um grande rastro
Num pique de desmate que num frenesi
Tememos que transmute um ótimo hábitat
Num ermo ao termo de um processo em expansão
Avançado e atrasado

O que vai ser do cerrado
Vai depender
De o deixarmos ser
O cerrado