Querem licença para perfurar Mais um bloco de petróleo, No mar profundo onde vai dar o rio-mar. Pode dar um baita imbróglio…: E se no mar vazar e derramar Por azar um rio de óleo? Bilhões de vidas por um fio vão rolar. Vão molhar os nossos olhos.
Eu digo: Não mais poços de petróleo! Poços de petróleo mais não!
Corais e manguezais não se repõem, Animais não se refazem. Os povos da floresta não destroem, Preservar é o que fazem. Projetos de “progresso” se impõem, Ecossistemas jazem. Empresas petrolíferas dispõem, Equilíbrios se desfazem.
Eu digo: Não mais poços de petróleo! Poços de petróleo mais não!
É sobre amar os filhos e os netos, É sobre sobreviver À predação do mundo com seus arquitetos Que não viverão pra ver Seus atuais programas obsoletos Porem vidas a perder, Tal qual ocorre já com pobres e com pretos Nesses tempos a correr.
Eu digo: Não mais poços de petróleo! Poços de petróleo mais não!
Ainda há tempo de evitar mais tempos loucos, Mas é pouco, e no momento É mesmo urgente bloquear os blocos, Investir no sol, no vento, E não num crescimento oco, Que provoca aquecimento, Enquanto a Terra vai torrando pouco a pouco, De evento em evento.
O nobre cientista que projeta Um clima hostil, indócil, Os seres vivos, do humano ao micróbio, Todos clamam, feito sócios: Oh petrolíferas que queimam o planeta E lucram com esse negócio, Basta de um amanhã indigno e ignóbil! E de combustível fóssil!
Eu digo: Não mais poços de petróleo! Poços de petróleo mais não!
Aqui ´stamos na avenida, Pelas ruas, pela vida, Marchando com o cortejo Que flui horizontalmente, Manifestando o desejo De uma cidade includente E uma nação cidadã tra- Duzido numa canção, Numa sentença, num mantra, Num grito ou numa oração…
… Por todo jovem negro que é caçado Pela polícia na periferia; Por todo pobre criminalizado Só por ser pobre, por pobrefobia; Por todo povo índio que é expulso Da sua terra por um ruralista; Pela mulher que é vítima do impulso Covarde e violento de um machista;
Por todo irmão do Senegal, de Angola E lá do Congo aqui refugiado; Pelo menor de idade sem escola, A se formar no crime condenado; Por todo professor da rede pública Mal-pago e maltratado pelo Estado; Pelo mendigo roto em cada súplica; Por todo casal gay discriminado.
E proclamamos que não Se exclua ninguém senão A exclusão.
Aqui ´stamos nós de volta, Sob o signo da revolta, Por uma vida mais digna E por um mundo mais justo, Com quem já não se resigna E se opõe sem nenhum susto A uma classe dominante Hostil à população, Numa ação dignificante Que nasce da indignação…
… Por todo homem algemado ao poste, Tal qual seu ancestral posto no tronco; E o jovem que protesta até que o prostre O tiro besta de um PM bronco; Por todo morador de rua, sem saída, Tratado como lixo sob a ponte; Por toda a vida que foi destruída Em Mariana ou no Xingu, por Belo Monte;
Por toda vítima de cada enchente, De cada seca dura e duradoura; Por todo escravo ou seu equivalente; Pela criança que labuta na lavoura; Por todo pai ou mãe de santo atacada Por quem exclui quem crê num outro deus; Por toda mãe guerreira, abandonada, Que cria sem o pai os filhos seus.
E proclamamos que não se exclua ninguém Senão a Exclusão.
Eis aqui a face escrota De um modelo que se esgota. Policiais não defendem; Políticos não contentam; Uns nos agridem ou prendem; Outros não nos representam. E aquele que não é títere, E é rebelde coração, Vai no Face, no zapp e Twitter e Combina um ato ou ação…
… Por todo defensor da natureza E todo ambientalista ameaçado; E cada vítima de bullying indefesa; E cada transexual crucificado; E cada puta, cada travesti; E cada louco, e cada craqueiro; E cada imigrante do Haiti; E cada quilombola e beiradeiro;
Pelo trabalhador sem moradia, Pelo sem-terra e pelo sem-trabalho; Pelos que passam séculos ao dia Em conduções que cansam pra caralho; Pela empregada que batalha, e como, Tal como no Sudeste o nordestino; E a órfã sem pais hetero nem homo, E a morta num aborto clandestino.
Impelidos pelos ventos Dos acontecimentos, Louvamos os mais diversos Movimentos libertários Numa cascata de versos Sociais e solidários Duma canção de protesto Qual “Canção de Redenção”, Uma canção-manifesto, Canção “Manifestação”…
… Por todo ser humano ou animal Tratado com desumanimaldade; Por todo ser da mata ou vegetal Que já foi abatido ou inda há-de; Por toda pobre mãe de um inocente Executado em noite de chacina; Por todo preso preso injustamente, Ou onde preso e preso se assassina;
Pelo ativista de direitos perseguido E o policial fodido igual quem ele algema; Pelo neguinho da favela inibido De frequentar a praia de Ipanema; E pelo pobre que na dor padece De amor, de solidão ou de doença; E as presas da opressão de toda espécie, E todo aquele em quem ninguém mais pensa…
E proclamamos que não se exclua ninguém Nem nada senão a Exclusão.
Dando à vida e à alma grande Um sentido que as expande, Cantamos em consonância Com os que sofrem ofensa, Violência, intolerância, Racismo, indiferença; As Cláudias e Marielles, Rafaeis e Amarildos Da imensa legião De excluídos do Brasil, do S- Ul ao norte da nação.
E proclamamos que não se exclua Ninguém senão a Exclusão.