Arquivo da categoria: César Lacerda

O Que Está Queimando o Cerrado?

O que está queimando o cerrado por dentro?

O que está serrando o cerrado dês do centro?

E devorando essa floresta subterrânea

Essa diversidade-vida, esses lençóis

Numa voracidade tão veloz

De homens loucos, broncos, ocos

Que salta aos olhos e aperta o peito

Que avança contra e desrespeita os direitos 

Da grande mãe a natureza, 

Com certeza

Essa mulher que nos alenta e alimenta

De vida e beleza

Que Economia É Essa?

Que economia é essa que tá minando, 

Liquidando a fonte da vida no cerrado?

Que tá poluindo o ar, a água, a terra, 

As sementes e as gentes dos gerais?

Que não garante o direito à vida 

De quem garante a vida no cerrado?

O quilombola, o indígena, as comunidades tradicionais!

Que riqueza é essa de um mercado 

Que parece ter marcado 

O cerrado pra morrer? 

Quem gosta, cuida, diz o ditado.

Quem gosta da vida, cuida do bem viver.

O Que Está Rolando com o Cerrado?

O que está rolando com o cerrado, que não devia?

O que está atacando o cerrado à nossa revelia?

O que está ameaçando o cerrado como a gente não queria?

O que está secando o cerrado, o nosso filtro,

A nossa grande caixa d’ água?

Pra mais nenhuma nascente morrer,

Pra todo descendente poder nascer,

Deixemos o cerrado,

Deixemos o cerrado ser…

O cerrado. 

E assim deixado novamente solto e livre,

O que agoniza agora no cerrado

Regenera e revive.

O Cerrado Sacrificado

O que será do cerrado?
O que será da caixa dágua do Brasil?
Dessa savana mais diversa do planeta
Dessa floresta subterrânea e invertida
Dessas raízes fundas e lençóis freáticos
Do ser tão grande de veredas e chapadas
Dos Guimarães, dos Veadeiros e das Mesas
Do Parque do Xingu, da Serra da Canastra
Do Jalapão, do Urucuia-Bambuí
De tanta vida envolvida o que será?
Sem a devida proteção, com a pressão
Num padrão desenfreado?

O que será do cerrado?
Se a seca pega fogo e acende o incêndio vil,
Se o ruralista brucutu se locupleta
Com a devastação da flora convertida
Em vasto pasto e plantação monotemática;
Se a mata já pela metade se degrada;
Se o agro tech e pop agride a natureza;
Se o mar sem fim de soja pelo chão se alastra,
E se a nascente morre, e some o buriti,
O tamanduá-bandeira e o lobo-guará?
Será que já marcaram o cerrado então
Para ser sacrificado?

O que vai ser do cerrado
Vai depender
De o deixarmos ser
O cerrado

O que vai ser do cerrado
Vai depender dos feitos e malfeitos mil
Da ação do ser humano macho que decreta
Um crescimento com subtração de vida
E aumento de calor, poluição climática
Um tipo de progresso verde na fachada
De uma noção no fundo pobre de riqueza
À custa de destruição e um grande rastro
Num pique de desmate que num frenesi
Tememos que transmute um ótimo hábitat
Num ermo ao termo de um processo em expansão
Avançado e atrasado

O que vai ser do cerrado
Vai depender
De o deixarmos ser
O cerrado

O Cerrado Ameaçado

O que será do cerrado?
O coração, a caixa d’água do Brasil
Tá cada vez mais seca do que já se viu.
A mais diversa das savanas do planeta,
De tantas plantas e animais, mais incompleta.
Nossa floresta mais antiga e anciã,
Ameaçada de não ter mais amanhã.
Façamos algo, rápido, façamos já!
Pelo bioma que aos demais tanto se dá,
Por todo filho, todo neto, por amor!
Por todo santo inseto polinizador!
Por tudo quanto é sagrado!

O que será do cerrado
Na mão de homens tão ingratos quanto insanos?
Gerado há mais de sessenta milhões de anos,
Não há de ser em poucas décadas encerrado,
Nem tratorado nem queimado nem serrado,
Pela riqueza que o cerrado em si encerra,
Pelo pequi, a flor, o ipê, o céu, a serra,
Pela caverna, a cachoeira e o mirante!
Pelo capim-dourado lindo, radiante,
Que nos alegra a melancólica visão
De um mau futuro envolto agora em cerração
Finalmente des-cerrado…

O que vai ser do cerrado
Vai depender
De o deixarmos ser
O cerrado.

O que vai ser do cerrado
Vai depender de muda na legislação,
Ou na derruba não vai ter alteração.
Pois o desmate que é legal, legal não é.
Permite que desmatem muito, não dá pé.
Oh não deixemos que o “agro-tudo” da boiada
Degrade e mude quase tudo em quase nada!
Pela nascente que ainda não morreu
E o descendente que ainda não nasceu,
Por toda ação que regenera e que revive,
Por toda a fauna, toda a flora, inclusive
Por todo grão, todo gado!

O que vai ser do cerrado
Vai depender
De o deixarmos ser
O cerrado.