Um agouro paira aqui na caatinga.
Tudo sente o mau sinal de algum impacto.
Como nunca antes, lá do céu não pinga
Cá no chão, em nós, no pássaro, no cacto.
Tá na luz, no meu cantar, no ar ardente,
Tá na terra que resseca até no brejo.
Mais que todos seres, sente o ser vivente.
Mais que todo ser humano, o sertanejo.
Caatinga, caatinga,
Por mais que seus matos hoje se consomem,
Que a danada ação do homem
Não a extinga,
Não a extinga, não.
O desmando do sistema demandando
Muita água, lenha, gesso, boi, carvão,
O desmate desmedido descambando
Em deserto por dinheiro: perdição…
Exaspera ver a áspera beleza
Reduzida a uma riqueza que é finita.
Emudece ver que, triste, a natureza,
No que muda, silenciosamente grita
Caatinga, caatinga,
Por mais que seus matos hoje se consomem,
Que a danada ação do homem não a extinga,
Não a extinga, não.
Quando fortes trovoadas não reboam
Nos sertões ruidosamente que nem antes,
Aflições em nossos corações ecoam,
De pensarmos em futuros retirantes.
Meu temor é de que jovens que virão
Não verão a mutação da caatinga,
Quando chove e tudo explode em verde novo,
E ao olhar do povo alegre a vida vinga.
Caatinga, caatinga,
Por mais que seus matos hoje se consomem,
Que a danada ação do homem
Não a extinga,
Não a extinga, não.