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Experiência

2002_Chico_Cesar_Respeitem_meus_cabelos__brancos_1024

de “Respeitem meus Cabelos Brancos”, de Chico César

Era uma luz, um clarão
Era uma luz, um clarãoum insight num blecaute.
Éramos nós sem ação,
Éramos nós sem ação,como quem vai a nocaute.
Era uma revelação
Era uma revelaçãoe era também um segredo;
Era sem explicação,
Era sem explicação,sem palavras e sem medo.

Era uma contemplação
Era uma contemplaçãocomo com lente que aumenta;
Era o espaço em expansão
Era o espaço em expansãoe o tempo em câmara lenta.
Era uma tal comunhão
Era uma tal comunhãocom o um e tudo à solta;
Era uma outra visão
Era uma outra visãodas coisas à nossa volta.

E as coisas eram as coisas:
E as coisas eram as coisas:a folha, a flor e o grão,
O sol no azul e depois as
O sol no azul e depois asestrelas no preto vão.
E as coisas eram as coisas
E as coisas eram as coisascom intensificação,
Que as coisas eram as coisas
Que as coisas eram as coisasporém em ampliação.

Era como se as víssemos,
Era como se as víssemos,entrando nelas então,
Com sentidos agudíssimos
Com sentidos agudíssimosdesvelando seu desvão,
Indo por entre, por dentro,
Indo por entre, por dentro,aprendendo a apreensão
De tudo bem dês do centro,
De tudo bem dês do centro,do fundo, do coração.

Era qual uma lição
Era qual uma liçãodel viejo brujo don Juan;
Uma complexa questão
Uma complexa questãosem nexo qual um koan;
Um signo sem tradução
Um signo sem traduçãono plano léxico-semântico;
Enigma, contradição
Enigma, contradiçãono nível de um campo quântico.

Era qual uma visão
Era qual uma visãode um milagre microscópico,
Do infinito num botão,
Do infinito num botão,e em ritmo caleidoscópico
Ciclos de aniquilação
Ciclos de aniquilaçãoe criação sucessiva,
Átomos em mutação,
Átomos em mutação,cósmica dança de Shiva.

E as coisas ao nosso ver
E as coisas ao nosso verdavam no fundo a impressão
De ser de ser e não-ser
De ser de ser e não-sera sua composição;
Como a onda tão etérea
Como a onda tão etéreae a partícula não tão
Num ponto tal da matéria
Num ponto tal da matériatanto ‘tão quanto não ‘tão.

Até que ponto resistem
Até que ponto resistema lógica e a razão,
Já que nas coisas existem
Já que nas coisas existemcoisas que existem e não?
O que dizer do indizível,
O que dizer do indizível,se é preciso precisão,
Pra quem crê no que é incrível
Pra quem crê no que é incrívelnão devanear em vão?

Era uma vez num verão,
Era uma vez num verão,num dia claro de luz,
Há muito tempo, um tempão,
Há muito tempo, um tempão,ao som das ondas azuis.

E as coisas aquela vez
E as coisas aquela vezeram qual foram e são,
Só que tínhamos os pés
Só que tínhamos os pésum tanto fora do chão.

Antes Que Amanheça

Passa da uma, tudo emudeceu.
A lua é um CD de luz no céu
E aqui o meu apê é um deserto.
Agora cada um está na sua.
Você sumiu, você que é de lua,
E eu a queria tanto aqui por perto.

Meu bem, meu doce bem, minha senhora,
Eu poderia declarar agora
Meu grande amor, minha paixão ardente.
Em minha mente insone, só seu nome
Ecoa, só não soa o telefone;
E a sua ausência se faz mais presente.

Passa das duas na cidade nua;
Ao longe carros rugem para a lua
E alguma coisa fica mais distante.
Eu sinto a sua falta no meu quarto;
Será que você volta antes das quatro?
É tudo que eu queria nesse instante.

Quando Eu Fecho Os Olhos

Aí você surgiu na minha frente,
E eu vi o espaço e o tempo em suspensão.
Senti no ar a força diferente
De um momento eterno desde então.

E aqui dentro de mim você demora;
Já tornou-se parte mesmo do meu ser.
E agora, em qualquer parte, a qualquer hora,
Quando eu fecho os olhos, vejo só você.

E cada um de nós é um a sós,
E uma só pessoa somos nós,
Unos num canto, numa voz.

O amor une os amantes em um ímã,
E num enigma claro se traduz;
Extremos se atraem, se aproximam
E se completam como sombra e luz.

E assim viemos, nos assimilando,
Nos assemelhando, a nos absorver.
E agora, não tem onde, não tem quando:
Quando eu fecho os olhos, vejo só você.

E cada um de nós é um a sós,
E uma só pessoa somos nós,
Unos num canto, numa voz.

Quando Eu Fecho Os Olhos

2002_Gal_Bossa_tropical_1024

de “Bossa Tropical”, de Gal Costa

Aí você surgiu na minha frente,
E eu vi o espaço e o tempo em suspensão.
Senti no ar a força diferente
De um momento eterno desde então.

E aqui dentro de mim você demora;
Já tornou-se parte mesmo do meu ser.
E agora, em qualquer parte, a qualquer hora,
Quando eu fecho os olhos, vejo só você.

E cada um de nós é um a sós,
E uma só pessoa somos nós,
Unos num canto, numa voz.

O amor une os amantes em um ímã,
E num enigma claro se traduz;
Extremos se atraem, se aproximam
E se completam como sombra e luz.

E assim viemos, nos assimilando,
Nos assemelhando, a nos absorver.
E agora, não tem onde, não tem quando:
Quando eu fecho os olhos, vejo só você.

E cada um de nós é um a sós,
E uma só pessoa somos nós,
Unos num canto, numa voz.

Quadro Negro


de “Falange Canibal”, de Lenine

No sub-imundo mundo sub-humano
Aos montes, sob as pontes, sob o sol
Sem ar, sem horizonte, no infortúnio
Sem luz no fim do túnel, sem farol
Sem-terra se transformam em sem-teto
Pivetes logo se tornam pixotes
Meninas, mini-xotas, mini-putas, de pequeninas tetas nos decotes

Quem vai pagar a conta? Quem vai lavar a cruz?
O último a sair do breu, acende a luz

No topo da pirâmide, tirânica
Estúpida, tapada minoria
Cultiva viva como a uma flor
A vespa vesga da mesquinharia
Na civilização eis a barbárie
É a penúria que se pronuncia
Com sua boca oca, sua cárie
Ou sua raiva e sua revelia

Quem vai pagar a conta? Quem vai lavar a cruz?
O último a sair do breu, acende a luz

O que prometeu não cumpriu
O fogo apagou, a luz extinguiu

Vem, Amor

Paula_Lima_E_isso_ai_1024

de “É Isso Aí”, de Paula Lima

Lembro de cada noite fria
Da insônia insana que eu sofria
Lembro de tantas fantasias
Nas noites longas e nos dias sem fim

E das canções em que eu me via
Dos filmes em que eu me perdia
Até te encontrar sozinho
E me achar no teu caminho enfim

Agora vem pro meu abraço
E me leve em tuas asas aonde for
Me faz sentir em pleno espaço
E esquecer daquelas noites sem amor

Vem, amor
Vem, amor
Vem, amor

Ceia de Natal

2002_Beto_Lee_Todo_mundo_e_igual_1024

de “Todo Mundo é Igual”, de Beto Lee

Não faz cu-doce, doçura
Não me diga que tá mal
Com ressaca de pileque
Ou cólica menstrual
Baby, cê não imagina
Como tá duro o meu pau
Tá furando a minha calça
O porra-louca total

Eu tô num puta pique
Me diga que tá legal
Eu quero sugar seu mel
Eu quero lamber seu sal

Quero ser bem recebido
Como se eu fosse o tal
De braços e pernas abertas
Cerca de 90 graus
Pára tudo e se prepara
Prum memorável oral
Numa tarde de trepadas
E carinhos no final

Eu tô num puta pique
Me diga que tá legal
Eu quero sugar seu mel
Eu quero lamber seu sal

Meu doce, minha delícia
Minha ceia de Natal
Meu jantar e meu manjar
Carne do meu Carnaval
Quero chegar pela frente
Ou então por trás e – crau!
Te prometo mil lambidas
Então, gatinha, que tal?

Transformação

Estou no alto de um monte da Mantiqueira em Mairiporã
Almoçando arroz integral, alga, agrião, nabo, abóbora e doce de maçã
O que é fácil hoje será difícil amanhã
A morte é o fruto da vida, disse Omar Khayyam
Estou no alto de um monte da Mantiqueira em Mairiporã

Tudo está relativamente bem
Canta um sabiá, a voz ecoa, voa, volta, vai e vem
Saúde vale mais que ouro, euro, dólar, uon, yuan, yen
Pra ter saúde tem que ficar doente, porém
Tudo está relativamente bem

Uma revolução se processa dentro de mim
Sei que a doença, a fome, a miséria e a guerra nunca terão fim
Nada é inteiramente yang, nem inteiramente yin
Tenho que dizer muitos nãos para dizer um sim
Uma revolução se processa dentro de mim

Meu mestre me falou que o bom é mau e o mau é bom
E que foi o maior orgasmo o da mulher do samurai em “Rashomon”
Uma palavra só detona mais que um megaton
O que não pode um mantra, um mantra com seu som?
Meu mestre me falou que o bom é mau e o mau é bom

Estou à beira do mar, lugar comum
Me refazendo todo, fazendo jejum
Sei que não há só deus, há deusa, e deus não há só um
E o um dá dois, o dois dá três, o três dá tudo e tudo ad-infinitum
Estou à beira do mar, lugar comum

Estou no alto de um monte da Mantiqueira em Mairiporã

Ecos do “Ão”

de “Falange Canibal”, de Lenine

Rebenta na Febem: rebelião.
Um vem com um refém e um facão.
A mãe aflita grita logo: “Não!”
E gruda as mãos na grade do portão.
Aqui no caos total do cu do mundo cão,
Tal a pobreza, tal a podridão,
Que assim nosso destino e direção
São um enigma, uma interrogação.

Ecos do “ão”.

E se nos cabe apenas decepção,
Colapso, lapso, rapto, corrupção?
E mais desgraça, mais degradação?
Concentração, má distribuição?
Então a nossa contribuição
Não é senão canção, consolação?
Não haverá então mais solução?
Não, não, não, não, não.

Ecos do “ão”,
Ecos do “ão”.

Pra transcender a densa dimensão
Da mágoa imensa, e tão-somente então
Passar além da dor, da condição
De inferno-e-céu, nossa contradição,
Nós temos que fazer com precisão
Entre projeto e sonho a distinção,
Para sonhar enfim sem ilusão
O sonho luminoso da razão.

Ecos do “ão”.

E se nos cabe só humilhação,
Impossibilidade de ascensão,
Um sentimento de desilusão
E fantasias de compensação?
E é só ruína tudo em construção?
E a vasta selva, só devastação?
Não haverá então mais salvação?
Não, não, não, não, não.

Ecos do “ão”,
Ecos do “ão”.

Porque não somos só intuição,
Nem só pé de chinelo, pé no chão.
Nós temos violência e perversão,
Mas temos o talento e a invenção,
Desejos de beleza em profusão
E ideias na cabeçacoração;
A singeleza e a sofisticação,
O axé e a bossa, o tchã e o tomjoão. (*)

Ecos do “ão”.

Mas se nós temos planos, e eles são
De nos tornarmos plenos cidadãos, (**)
Por que não pô-los logo em ação?
Tal seja agora a inauguração
Da nova nossa civilização,
Tão singular igual o nosso “ão”.
E sejam belos, livres, luminosos,
Os nossos sonhos de nação.

Ecos do “ão”,
Ecos do “ão”.

—————————————————————-
Variantes:

(*) O choro, a bossa, o samba e o violão.
(**) O fim da fome e da difamação,

To Be Tupi

1999_Lenine_Na_Pressao_1024

de “Na Pressão”, de Lenine

Eu sou feito de restos de estrelas,
Como o corvo, o carvalho e o carvão.
As sementes nasceram das cinzas
De uma delas depois da explosão.

Sou o índio da estrela veloz e brilhante,
O que é forte como o jabuti;
O de antes, de agora em diante,
E o distante galáxias daqui.

Canibal tropical, qual o pau
Que dá nome à nação, renasci,
Natural, analógico e digital,
Libertado astronauta tupi.

Eu sou feito do resto de estrelas
Daquelas primeiras, depois da explosão,
Sou semente nascendo das cinzas,
Sou o corvo, o carvalho, o carvão.

O meu nome é tupi, gaikuru;
O meu nome é Peri de Ceci.
Eu sou neto de Caramuru,
Sou Galdino, Juruna e Raoni.

E no cosmos de onde eu vim,
Com a imagem do caos
Me projeto futuro sem fim
Pelo espaço num tour sideral.

Minhas roupas estampam em cores
A beleza do caos atual,
As misérias e mil esplendores
Do planeta da aldeia global. (*)

O meu nome é tupi, gaikuru;
O meu nome é Peri de Ceci.
Eu sou neto de Caramuru,
Sou Galdino, Juruna e Raoni.

_____ __________________________________
Variante:
(*) Do planeta de Neandertal.

A Lorelai (The Lorelai)


de “Cole Porter & George Gershwin – Canções Versões”, de Carlos Rennó

2010_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_10242000_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_1024

Era uma vez uma figura
Que era só beleza pura;
Ares divinais,
Olhares imorais…

Tarada pelos marinheiros,
Pescadores, baleeiros,
No rio Reno os atrai;
Seu nome, Lorelai.
Ela causa um auê,
E assim é que eu quero ser.

Eu quero ser como a moça que canta
Pra todo barco que vem e que vai;
Dá conta do recado e como encanta:
A Lorelai.

Com um estilo de amar diferente,
Com muito “ei”, muito “ui”, muito “ai”;
Garanto ser tão louca e tão quente
Quanto a Lorelai.

Sou sensual – ah, ah;
Eu não posso mais me reprimir.
Sensacional – ah, ah;
A minha marca em teu pescoço eu posso imprimir.

Quando alguém pede, ela bate, ela chuta;
Com ela todo rapaz se distrai.
Eu quero ser igual àquela puta –
A Lorelai.

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Back in the days of knights in armor
There once lived a lovely charmer;
Swimming in the Rhine
Her figure was divine.

She had a yen for all the sailors:
Fishermen and gobs and whalers.
She had a most immoral eye;
They called her Lorelei.
She created quite a stir –
And I want to be like her.

I want to be like that gal on the river,
Who sang her songs to the ships passing by;
She had the goods and how she could deliver:
The Lorelei!

She used to love in a strange kind of fashion,
With lots of hey, ho-de-ho, hi-de-hi!
And I can guarantee I´m full of passion
Like the Lorelei.

I´m treacherous – ja, ja!
Oh, I just can´t hold myself in check.
I´m lecherous – ja, ja!
I want to bite my initials on a sailor´s neck.

Each affair had a kick and a wallop,
For what they craved she could always supply.
I want to be just like that other trollop –
The Lorelei.

Música de George Gershwin e letra de Ira Gershwin, 1933

Quem tome conta de mim (Someone to watch over me)


de “Cole Porter & George Gershwin – Canções Versões”, de Carlos Rennó

2010_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_10242000_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_1024

Dizem que o amor
É cego, porém,
Seja onde for,
Quem procura, tem.
Eu procuro alguém que à minha mente sempre vem.

Não perdi a fé,
Mas ainda não vi
O meu grande affair
Que eu não esqueci –
Penso nele onde eu ande, aqui e ali.

Eu vou gostar de juntar seu sobrenome ao meu.
Quem vai cuidar dessa ovelha que se perdeu?

Tem um certo alguém de quem sou a fim;
Que seja sim-
-Plesmente enfim
Quem tome conta de mim.

Ovelhinha ao léu sem lar, sem ninguém,
Farei tão bem
A esse alguém
Que tome conta de mim.

Ainda que não muita gente
O ache atraente,
A ele darei o meu sim.

Eu só peço que se apresse o rapaz,
Que chegue mais,
Que falta faz
Quem tome conta de mim.

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There´s a saying old
Says that love is blind.
Still, we´re often told
“Seek and ye shall find”.
So I´m going to seek a certain lad I´ve had in mind.

Looking ev´rywhere,
Haven´t found him yet;
He´s the big affair
I cannot forget –
Only man I ever think of with regret.

I´d like to add his initial to my monogram.
Tell me, where is the shepherd for this lost lamb?

There´s a somebody I´m longing to see;
I hope that he
Turns out to be
Someone who´ll watch over me.

I´m a little lamb who´s lost in the wood;
I know I could
Always be good
To one who´ll watch over me.

Although he may not be the man some
Girls think of as handsome,
To my heart he´ll carry the key.

Won´t you tell him, please, to put on some speed,
Follow my lead?
Oh, how I need
Someone to watch over me.

Música de George Gershwin e letra de Ira Gershwin, 1926

Oh, Dama, Tem Dó (Oh, Lady, Be Good)


de “Cole Porter & George Gershwin – Canções Versões”, de Carlos Rennó

2010_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_10242000_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_1024

Ouve os meus amargos ais;
São tristes mas são reais:
Eu me apronto pra sair,
Mas não tenho aonde ir.

Quero achar moça charmosa,
E não ser tão só;
Florescer com uma rosa
Assim como tu, e tão-só.

Ó doce amada dama, tem dó,
Ó dama, tem dó de mim.
Ninguém me entende ao meu redor;
Ó dama, tem dó de mim.

Ó tem piedade;
Estou tão só nesta cidade,
Que nem um neném perdido, sem um xodó,
Ó dama, tem dó de mim.

___________________________________________

Listen to my tale of woe,
It´s terribly sad, but true:
All dressed up, no place to go,
Each ev´ning I´m awf´ly blue.

I must win some winsome miss;
Can´t go on like this.
I could blossom out, I know,
With somebody just like you. So –

Oh, sweet and lovely lady, be good.
Oh, lady, be good to me!
I am so awf´ly misunderstood,
So, lady, be good to me.

Oh, please have some pity –
I´m all alone in this big city.

I tell you I´m just a lonesome babe in the wood,
So, lady, be good to me.

Música de George Gershwin e letra de Ira Gershwin, 1924

Fascinante Ritmo (Fascinating Rhythm)


de “Cole Porter & George Gershwin – Canções Versões”, de Carlos Rennó

2010_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_10242000_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_1024

Tem um louco ritmo, um ritmo, um ritmo,
Um tique-taque em mim,
Na minha cuca
Já quase maluca
Com seu batuque sem fim.

Vem sem aviso,
Assim, de improviso,
E pega bem no meu pé.
Um dia eu chego nele,
Espero só que ele
Me ouça quando eu lhe disser:

Fascinante Ritmo,
Você me agitou,
Fascinante Ritmo,
Ó que moleque!
Andam perguntando
Por que é que eu estou
Sempre chacoalhando
Qual calhambeque.

Dês de manhã ao me levantar,
Danço, danço,
Não me canso,
Até de noite sem trabalhar.

Eu antes
Nem ´tava ligando,
Mas ´tá fazendo mal;
Eu me acabo quando
Você começa.

Saia, caia fora,
Agora, afinal,
Vamos, vá embora –
Mas vá depressa!

Quero voltar a ser que nem há um tempo atrás,
Fascinante Ritmo, não encha, me deixe em paz!

____________________________________________________

Got a little rhythm, a rhythm, a rhythm
That pit-a-pats through my brain;
So darn persistent,
The day isn´t distant
When it’´ll drive me insane.

Comes in the morning
Without any warning,
And hangs around me all day.
I´ll have to sneak up to it
Someday, and speak up to it.
I hope it listens when I say:

Fascinating Rhythm,
You´ve got me on the go!
Fascinating Rhythm,
I´m all a-quiver.

What a mess you´re making!
The neighbors want to know
Why I´m always shaking
Just like a fliver.

Each morning I get up with the sun –
Start a-hopping,
Never stopping –
To find at night no work has been done.

I know that
Once it didn´t matter –
But now you´re doing wrong;
When you start to patter
I’m so unhappy.

Won´t you take a day off?
Decide to run along
Somewhere far away off –
And make it snappy!

Oh, how I long to be the man I used to be!
Fascinating Rhythm,
Oh, won’t you stop picking on me?

Música de George Gershwin e letra de Ira Gershwin, 1924

Abraçável Você


de “Cole Porter & George Gershwin – Canções Versões”, de Carlos Rennó

2010_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_10242000_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_1024

Me abrace,
Doce abraçável você.
Me abrace,
Incomparável você.

Só de vê-la o coração degela em mim;
O cigano só você revela em mim.

Não vejo
Senão encanto em você;
Desejo
Meus braços tanto em você.

Não seja má, menina,
Dê um abraço, dê um abraço, dê!
Doce abraçável você.

Me abrace,
Doce abraçável você.
Me abrace,
Incomparável você.

Em seus braços tudo é muito ardente, meu bem,
É tão bom mas não muito decente, meu bem.

No entanto,
Glorifiquemos o amor.
Garanto
Levá-la a extremos no amor.

Não seja má, menina,
Dê um abraço, dê um abraço, dê!
Doce abraçável você.

_______________________________________________

Embrace me,
My sweet embraceable you.
Embrace me,
You irreplaceable you.

Just one look at you – my heart grew tipsy in me;
You and you alone bring out the gypsy in me.

I love all
The many charms about you;
Above all
I want my arms about you.

Don’t be a naughty baby,
Come to papa – come to papa – do!
My sweet embraceable you.

Embrace me,
My sweet embraceable you.
Embrace me,
You irreplaceable you.

In your arms I find love so delectable, dear,
I’m afraid it isn’t quite respectable, dear.

But hang it – Come on, let’s glorify love!
Ding dang it! You´ll shout “Encore!” if I love.

Don’t be a naughty papa,
Come to baby – come to baby – do!
My sweet embraceable you.

Música de George Gershwin e letra de Ira Gershwin, 1930

Blablablá (Blah, Blah, Blah)


de “Cole Porter & George Gershwin – Canções Versões”, de Carlos Rennó

2010_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_10242000_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_1024

Eu fiz só pra você
Uma canção que é
Tão bonitinha;
A técnica aprendi
Nas músicas que ouvi
Lá na telinha.
As rimas todas das canções eu estudei;
E eis a coisinha linda que eu criei:

Blablablá, canção;
Blablablá, luar;
Blablablá, paixão;
Blablablá, no ar.

Tralalalá, tralalalalá, seu olhar em mim;
Tralalalá, tralalalalá, tudo, tudo enfim.

Blablablá, o céu;
Blablablá, a flor;
Blablablá, o mel;
Blablablá, o amor.

Tralalalá, tralalalalá, casa de sapê;
Blablablablablá, eu e você.

__________________________________________________

I´ve written you a song,
A beautiful routine;
(I hope you like it.)
My technique can´t be wrong:
I learned it from the screen.
(I hope you like it.)
I studied all the rhymes that all the lovers sing;
Then just for you I wrote this little thing.

Blah, blah, blah, blah, moon,
Blah, blah, blah, above;
Blah, blah, blah, blah, croon,
Blah, blah, blah, blah, love.

Tra la la la, merry month of May;
Tra la la la, ‘neath the clouds of gray.

Blah, blah, blah, your hair,
Blah, blah, blah, your eyes;
Blah, blah, blah, blah, care,
Blah, blah, blah, blah, skies.

Tra la la la, tra la la la, cottage for two –
Blah, blah, blah, blah, blah, darling with you!

Música de George Gershwin e letra de Ira Gershwin, 1928

Um Dia de Garoa (A Foggy Day)


de “Cole Porter & George Gershwin – Canções Versões”, de Carlos Rennó

2010_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_10242000_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_1024

Eu era estranho na cidade,
Sem ninguém que eu pudesse rever.
Pensei com auto-piedade:
“Que fazer? Que fazer? Que fazer?”
O panorama era deprê.
Mas passeando naquela garoa, ali,
Meu dia de sorte maior então vivi.

Num dia de garoa fria,
Sampa me deu melancolia.
O céu tão cinza causou alarme,
Mesmo o Masp perdeu seu charme.

“Isso vai longe”, pensava eu,
Quando um milagre aconteceu.
Pois de repente eu vi você –
E em São Paulo da garoa o sol brilhava
Pra valer!

_________________________________

I was a stranger in the city.
Out of town were the people I knew.
I had that felling of self-pity:
“What to do? What to do? What to do?”
The outlook was decidedly blue.
But as I walked through the foggy streets alone,
It turned out to be the luckiest day I’ve known.

A foggy day in London Town
Had me low and had me down.
I viewed the morning with alarm.
The British Museum had lost its charm.

How long, I wondered, could this thing last?
But the age of miracles hadn’t passed,
For, suddenly, I saw you there –
And through foggy London Town the sun was shining
Ev’rywhere.

Música de George Gershwin e letra de Ira Gershwin, 1937

Façamos, Vamos Amar (Let’s Do It, Let’s Fall in Love)

2010_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_10242000_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_1024

Os cidadãos, no Japão, fazem,
Lá na China um bilhão fazem,
Façamos, vamos amar.
Os espanhóis, os lapões fazem,
Lituanos e letões fazem,
Façamos, vamos amar.
Os alemães, em Berlim, fazem,
E também lá em Bonn;
Em Bombaim, fazem:
Os hindus acham bom.
Nisseis, nikkeis e sanseis fazem;
Lá em San Francisco muitos gays fazem;
Façamos, vamos amar.

Os rouxinóis, nos saraus, fazem,
Picantes picapaus fazem, (*)
Façamos, vamos amar.
Uirapurus, no Pará, fazem,
Tico-ticos no fubá fazem, (**)
Façamos, vamos amar.
Chinfrins galinhas a fim fazem,
E jamais dizem não;
Corujas – sim – fazem,
Sábias como elas são.
Muitos perus, todos nus, fazem,
Gaviões, pavões e urubus fazem, (***)
Façamos, vamos amar.

Dourados no Solimões fazem;
Camarões em Camarões fazem;
Façamos, vamos amar.
Piranhas, só por fazer, fazem,
Namorados, por prazer, fazem,
Façamos, vamos amar.
Peixes elétricos bem fazem,
Entre beijos e choques;
Cações também fazem,
Sem falar nos hadoques…
Salmões no sal, em geral, fazem,
Bacalhaus no mar em Portugal, fazem,
Façamos, vamos amar.

Libélulas, em bambus, fazem,
Centopéias sem tabus fazem,
Façamos, vamos amar.
Os louva-deuses, com fé, fazem,
Dizem que bichos-de-pé fazem,
Façamos, vamos amar.
As taturanas também fazem
Com ardor incomum;
Grilos, meu bem, fazem,
E sem grilo nenhum…
Com seus ferrões, os zangões fazem,
Pulgas em calcinhas e calções fazem, (****)
Façamos, vamos amar.

Tamanduás e tatus fazem;
Corajosos cangurus fazem;
Façamos, vamos amar.
Coelhos só, e tão-só, fazem;
Macaquinhos num cipó fazem;
Façamos, vamos amar.
Gatinhas com seus gatões fazem,
Dando gritos de “ais”;
Os garanhões fazem –
Esses fazem demais…
Leões ao léu, sob o céu, fazem;
Ursos lambuzando-se no mel fazem;
Façamos, vamos amar.

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Variantes:
(*) Os rouxinóis, nos saraus, fazem,
Picantes picapaus fazem,
(**) Os sabiás, onde for, fazem,
Beija-flores numa flor fazem,
(***) Penguins no cio, lá no frio, fazem,
Mil casais de pombos por um fio fazem,
(****) Pulgas ensinadas e pulgões fazem,

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Let’s Do It, Let’s Fall in Love

(Cole Porter)

And that’s why Chinks do it, Japs do it,
Up in Lapland, little Lapps do it,
Let’s do it, let’s fall in love.
In Spain, the best upper sets do it,
Lithuanians and Letts do it,
Let’s do it, let’s fall in love.
The Dutch in Old Amsterdam do it,
Not to mention the Finns;
Folks in Siam do it,
Think of Siamese twins.
Some Argentines, without means, do it,
People say, in Boston, even beans do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

The nightingales, in the dark, do it,
Larks, k-razy for a lark, do it,
Let’s do it, let’s fall in love.
Canaries, caged in the house, do it,
When they’re out of season, grouse do it,
Let’s do it, let’s fall in love.
The most sedated barnyard fowls do it,
When a chanticleer cries;
High-browed old owls do it,
They’re supposed to be wise.
Penguins in flocks, on the rocks, do it,
Even little cuckoos, in their clocks, do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

Romantic sponges, they say, do it,
Oysters, down in Oyster Bay, do it,
Let’s do it, let’s fall in love.
Cold Cape Cod clams, ‘gainst their wish, do it,
Even lazy jellyfish do it,
Let’s do it, let’s fall in love.
Electric eels, I might add, do it,
Though it shocks ‘em, I know;
Why ask if shad do it?
Waiter, bring me shad roe. *
In shallow shoals, English soles do it,
Goldfish, in the privacy of bowls, do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

The dragonflies, in the reeds, do it,
Sentimental centipedes do it,
Let’s do it, let’s fall in love.
Mosquitoes, heaven forbid, do it,
So does ev’ry katydid, do it,
Let’s do it, let’s fall in love.
The most refined lady bugs do it,
When a gentleman calls;
Moths in your rugs do it,
What’s the use of moth balls?
Locusts in trees do it, bees do it,
Even overeducated fleas do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

The chimpanzees, in the zoos, do it,
Some courageous kangaroos do it,
Let’s do it, let’s fall in love.
I’m sure giraffes, on the sly, do it,
Heavy hippopotami do it,
Let’s do it, let’s fall in love.
Old sloths who hang down from twigs do it,
Though the effort is great;
Sweet guinea pig do it,
Buy a couple and wait.
The world admits bears in pits do it,
Even pekineses in the Ritz do it,
Let’s do it, let’s fall in love.

_____________________________
Variantes:
*
Young whelks and winkles, in pubs, do it,
Little sponges, in their tubs, do it,
Let´s do it, let´s fall in love.
Cold salmon, quite ´gainst their wish, do it,
Even lazy jellyfish do it,
Let´s do it, let´s fall in love.
The most select schools of cod do it,
Though it shocks ´em, I fear,
Sturgeon, thank God, do it,
Have some caviar, dear.

Versão 1991/1999/2012

Que De-Lindo (It’s De-Lovely)


de “Cole Porter & George Gershwin – Canções Versões”, de Carlos Rennó

2010_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_10242000_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_1024

A noite é clara, e se você
Está querendo dar um rolê,
Que deleite, que delícia, que de-lindo!

Eu sei o que você, meu bem,
Está sentindo, pois eu também,
Que deleite, que delícia, que de-lindo!

Hoje o lance é rolar
Num relance um romance no ar;
Ouça a voz da natureza, que diz pra nós:
“Soltem seus nós.”

Então, quando eu beijar você,
Me diga assim, minha zabelê:
“Que deleite, que delícia,
Que delírio, que delíquio,
Que dilema, que delito, que dilúvio,
Que de-lindo!”

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The night is young, the skies are clear,
So if you want to go walking, dear,
It’s delightful, it’s delicious, it’s de-lovely!

I understand the reason why
You’re sentimental, ‘cause so am I,
It’s delightful, it’s delicious, it’s de-lovely!

You can tell at a glance
What a swell night this is for romance;
You can hear dear Mother Nature murmuring low:
“Let yourself go.”

So please be sweet, my chickadee,
And when I kiss you, just say to me:
“It’s delightful, it’s delicious,
It’s delectable, it’s delirious,
It’s dilemma, it’s delimit, it’s deluxe,
It’s de-lovely!”

Música e letra de Cole Porter, 1936

Eu Só Me Ligo Em Você (I Get a Kick Out of You)


de “Cole Porter & George Gershwin – Canções Versões”, de Carlos Rennó

2010_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_10242000_Carlos_Renno_Cole_Porter_George_Gerschwin_1024

Meu caso é tão triste, e é quase fatal
Que tudo me cause só um descaso total.
E se pra gandaia eu saio então,
Contra o tédio lutando em vão,
Eu não perco meu ar blasé,
A não ser ao virar e ver,
Tão bela, você…

Champagne me deixa normal;
Barato, nem com birita, meu bem.
Então só me diga por que
É que eu só me ligo em você.

Alguns se ligam num sal.
Que porre, oh, eu não posso com pó;
Coca só me provoca deprê.
É que eu só me ligo em você.

Me ligo, sim,
Quando a vejo em minha frente a qualquer hora.
Me ligo, sim;
Mesmo assim você – é óbvio que – não me adora.

Nenhum barato é total.
Saltar ao léu de asa-delta no céu
É o que eu nunca penso em fazer.
É que eu só me ligo em você.

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My story is much too sad to be told,
But practically ev’rything leaves me totally cold.
The only exception I know is the case
When I’m out on a quiet spree,
Fighting vainly the old ennui,
And I suddenly turn and see
Your fabulous face.

I get no kick from champagne.
Mere alcohol doesn’t thrill me at all,
So tell me why should it be true
That I get a kick ut of you?

Some get a kick from cocaine.
I’m sure that if I took even one sniff
That would bore me terrific’ly too.
Yet I get a kick out of you.

I get a kick ev’ry time I see
You’re standing there before me.
I get a kick, though it’s clear to me
You obviously don’t adore me.

I get no kick in a plane.
Flying too high with some guy in the sky
Is my idea of nothing to do,
Yet I get a kick out of you.

Música e letra de Cole Porter, 1934