O que será do cerrado, O filtro do Brasil, da América profunda? Da planta que retém a chuva do ambiente Se a água já pelas raízes não afunda Em um lençol do qual aflora na nascente De água pura e cristalina de um aquífero Desse bioma de água doce tão prolífero, O pai do Prata, Tocantins e São Francisco*, O receptor e distribuidor de vida, De vida líquida, correndo grave risco De vida que o agro tóxico liquida, Como um ciclo enterrado.
O que será do cerrado? Pois há cerrado em pé pois há quem tem o pé No chão de um povo dos gerais, tradicional, De um quilombola, de um indígena que é Encurralado ou invadido no final Pelo grileiro, o garimpeiro, o fazendeiro, Pelo empresário, pelo latifundiário, O madeireiro, o incendiário, o sementeiro Da violência aflita do conflito agrário, Por uma usina, rodovia ou ferrovia Cortando o verde como numa cirurgia Sob as ordens do mercado.
O que vai ser do cerrado Vai depender De o deixarmos ser O cerrado
O que vai ser do cerrado Vai depender duma adoção de paradigma De modo produtivo sem o mau estigma Do molde predatório de commodities De exportação, de estilo colonial e mono, Que deixa o córrego e o rio por um triz E que libera mil estoques de carbono, Proibitivos agrotóxicos que tornam Cem entes vivos em doentes ou em mortos, E n transgênicas sementes que transtornam A planta, a erva, a árvore de troncos tortos, Arrancada sem cuidado.
O que vai ser do cerrado Vai depender De o deixarmos ser O cerrado
Não canto mais Bebete nem Domingas
Nem Xica nem Tereza, de Ben Jor;
Nem Drão nem Flora, do baiano Gil;
Nem Ana nem Luiza, do maior;
Já não homenageio Januária,
Joana, Ana, Bárbara, de Chico;
Nem Yoko, a nipônica de Lennon;
Nem a cabocla, de Tinoco e de Tonico;
Nem a tigresa, nem a vera gata,
Nem a camaleoa, de Caetano;
Nem mesmo a linda flor de Luiz Gonzaga,
Rosinha, do sertão pernambucano;
Nem Risoflora, a flor de Chico Science –
Nenhuma continua nos meus planos.
Nem Kátia Flávia, a flor de Fausto Fawcett;
Nem Anna Júlia, de Camelo, dos Hermanos.
Só você,
Hoje eu canto só você;
Só você,
Que eu quero porque quero por querer.
Não canto de Melô pérola negra;
De Brown e Herbert, uma brasileira;
De Ari, nem a baiana nem Maria,
Nem a Iaiá também, nem a faceira;
De Dorival, nem Dora nem Marina
Nem a morena de Itapoã;
De Vina, a garota de Ipanema;
Nem Iracema, de Adoniran.
De Jackson do Pandeiro, nem Cremilda;
De Michael Jackson, nem a Billie Jean;
De Jimi Hendrix, nem a doce Angel;
Nem Ângela nem Lígia, de Jobim;
Nem Lia, Lily Braun nem Beatriz,
Das doze deusas de Edu e Chico;
Até das trinta Leilas de Donato
E da Layla de Clapton eu abdico.
Só você,
Canto e toco só você;
Só você,
Que nem você ninguém mais pode haver.
Nem a namoradinha de um amigo
E nem a amada amante de Roberto;
E nem Michelle-ma-belle, do beatle Paul;
Nem Isabel – Bebel – de João Gilberto;
E nem B.B., la femme de Serge Gainsbourg;
Nem, de Totó, na malafemmena;
Nem a Iaiá de Zeca Pagodinho;
Nem a mulata mulatinha de Lalá;
E nem a carioca de Vinicius
E nem a tropicana de Vicente e Alceu
E nem a escurinha de Geraldo
E nem a pastorinha de Noel
E nem a namorada de Carlinhos
E nem a superstar do Tremendão
E nem a malaguenha de Lecuona
E nem a popozuda do Tigrão
Só você,
Hoje elejo e elogio só você,
Só você,
Que nem você não há nem quem nem quê.
De Haroldo Lobo com Wilson Batista,
De Mário Lago e Ataulfo Alves,
Não canto nem Emília nem Amélia:
Nenhuma tem meus vivas! nem meus salves!
Nem Polly do nirvana Kurt Cobain
E nem Roxanne, de Sting, do Police;
E nem a mina do mamona Dinho
E nem as mina – pá! – do mano Xis!
Loira de Hervê e loira do É O Tchan,
Lôra de Gabriel, o Pensador;
Laura de Mercer, Laura de Braguinha
(L´aura de Daniel, o trovador?);
Ana do Rei e Ana de Djavan,
Ana do outro rei, o do baião:
Nenhuma delas hoje cantarei:
Só outra reina no meu coração.
Só você,
Rainha aqui é só você,
Só você,
A musa dentre as musas de A a Z.
Se um dia me surgisse uma moça
Dessas que, com seus dotes e seus dons,
Inspiram parte dos compositores
Na arte das palavras e dos sons,
Tal como Madelleine, de Jacques Brel,
Ou como Madalena, de Martinho,
Ou como Madalena, de Ivan Lins,
E a manequim do tímido Paulinho;
Ou como, de Caymmi, a moça pRosa
E a musa inspiradora Doralice;
Se me surgisse uma moça dessas,
Confesso que eu talvez não resistisse;
Mas, veja bem, meu bem, minha querida:
Isso seria só por uma vez,
Uma vez só em toda a minha vida!
Ou talvez duas… mas não mais que três…
Só você…
Tô brincando com você;
Só você…
As coisas mais queridas você é:
Você pra mim é o sol da minha noite;
É como a rosa, luz de Pixinguinha;
É como a estrela pura aparecida,
A estrela a refulgir, do Poetinha;
Você, ó flor, é como a nuvem calma
No céu da alma de Luiz Vieira;
Você é como a luz do sol da vida
De Stevie Wonder, ó minha parceira.
Você é para mim e o meu amor,
Crescendo como mato em campos vastos,
Mais que a gatinha para Erasmo Carlos;
Mais que a cigana pra Ronaldo Bastos;
Mais que a divina dama pra Cartola;
Que a domna pra De Ventadorn, Bernart;
Que a honey baby para Waly Salomão
E a funny valentine pra Lorenz Hart.
Só você,
Mais que tudo e todas, só você;
Só você,
Que é todas elas juntas num só ser.
Aqui ´stamos na avenida, Pelas ruas, pela vida, Marchando com o cortejo Que flui horizontalmente, Manifestando o desejo De uma cidade includente E uma nação cidadã tra- Duzido numa canção, Numa sentença, num mantra, Num grito ou numa oração…
… Por todo jovem negro que é caçado Pela polícia na periferia; Por todo pobre criminalizado Só por ser pobre, por pobrefobia; Por todo povo índio que é expulso Da sua terra por um ruralista; Pela mulher que é vítima do impulso Covarde e violento de um machista;
Por todo irmão do Senegal, de Angola E lá do Congo aqui refugiado; Pelo menor de idade sem escola, A se formar no crime condenado; Por todo professor da rede pública Mal-pago e maltratado pelo Estado; Pelo mendigo roto em cada súplica; Por todo casal gay discriminado.
E proclamamos que não Se exclua ninguém senão A exclusão.
Aqui ´stamos nós de volta, Sob o signo da revolta, Por uma vida mais digna E por um mundo mais justo, Com quem já não se resigna E se opõe sem nenhum susto A uma classe dominante Hostil à população, Numa ação dignificante Que nasce da indignação…
… Por todo homem algemado ao poste, Tal qual seu ancestral posto no tronco; E o jovem que protesta até que o prostre O tiro besta de um PM bronco; Por todo morador de rua, sem saída, Tratado como lixo sob a ponte; Por toda a vida que foi destruída Em Mariana ou no Xingu, por Belo Monte;
Por toda vítima de cada enchente, De cada seca dura e duradoura; Por todo escravo ou seu equivalente; Pela criança que labuta na lavoura; Por todo pai ou mãe de santo atacada Por quem exclui quem crê num outro deus; Por toda mãe guerreira, abandonada, Que cria sem o pai os filhos seus.
E proclamamos que não se exclua ninguém Senão a Exclusão.
Eis aqui a face escrota De um modelo que se esgota. Policiais não defendem; Políticos não contentam; Uns nos agridem ou prendem; Outros não nos representam. E aquele que não é títere, E é rebelde coração, Vai no Face, no zapp e Twitter e Combina um ato ou ação…
… Por todo defensor da natureza E todo ambientalista ameaçado; E cada vítima de bullying indefesa; E cada transexual crucificado; E cada puta, cada travesti; E cada louco, e cada craqueiro; E cada imigrante do Haiti; E cada quilombola e beiradeiro;
Pelo trabalhador sem moradia, Pelo sem-terra e pelo sem-trabalho; Pelos que passam séculos ao dia Em conduções que cansam pra caralho; Pela empregada que batalha, e como, Tal como no Sudeste o nordestino; E a órfã sem pais hetero nem homo, E a morta num aborto clandestino.
Impelidos pelos ventos Dos acontecimentos, Louvamos os mais diversos Movimentos libertários Numa cascata de versos Sociais e solidários Duma canção de protesto Qual “Canção de Redenção”, Uma canção-manifesto, Canção “Manifestação”…
… Por todo ser humano ou animal Tratado com desumanimaldade; Por todo ser da mata ou vegetal Que já foi abatido ou inda há-de; Por toda pobre mãe de um inocente Executado em noite de chacina; Por todo preso preso injustamente, Ou onde preso e preso se assassina;
Pelo ativista de direitos perseguido E o policial fodido igual quem ele algema; Pelo neguinho da favela inibido De frequentar a praia de Ipanema; E pelo pobre que na dor padece De amor, de solidão ou de doença; E as presas da opressão de toda espécie, E todo aquele em quem ninguém mais pensa…
E proclamamos que não se exclua ninguém Nem nada senão a Exclusão.
Dando à vida e à alma grande Um sentido que as expande, Cantamos em consonância Com os que sofrem ofensa, Violência, intolerância, Racismo, indiferença; As Cláudias e Marielles, Rafaeis e Amarildos Da imensa legião De excluídos do Brasil, do S- Ul ao norte da nação.
E proclamamos que não se exclua Ninguém senão a Exclusão.