Arquivo da categoria: Nara Gil

Grande Alma

Como se fosse um santo errante, um pobre hindu,
A pé, de trem, de tanga branca e peito nu,
Só apoiado numa vara de bambu,
Cruzou a Índia e como um pai ou um guru
Doou-se ao povo que trazia em sua palma:

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

O radical profeta da não violência,
Da não passiva, da pacífca resistência,
Obediente a si, à voz da consciência,
Levou seu povo da civil desobediência
À independência no final de um longo trauma;

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

E encarnou, do mais profundo do seu ser,
“Ser a mudança que no mundo se quer ver”,
E com a massa e como a massa foi viver,
Pra ser com ela um, por ela combater
E a conhecer como da sua mão a palma:

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Talvez não tenha havido espírito mais digno,
Nem mais impávido, mais nobre, mais benigno,
Nem outro símbolo mais límpido, outro signo
Na luta pela liberdade e contra a igno-
Mínia que a uns desonra e que a uns desalma:

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Não quis riqueza, propriedade, nada, neres,
Porém lutou, contra um sistema de poderes,
Pelos direitos para pobres e mulheres,
Pelo respeito à vida de todos os seres –
De cada bicho, cada nicho, cada palma;

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Servindo ao próxmo e ao propósto de igualdade,
Serviu de espelho de e para a humanidade,
Usando a força da palavra e da verdade
E da não cooperação que ainda há de
Banir a instituição colonial má.

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Predecessor do mártir Martin Luther King,
Pregou o amor e a união num grande ringue,
E entre fãs como Albert Einstein se distingue
O fã de Henry Thoreau e Franklin, Benjamin, gui-
-A na África de gente irmã de alma.

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

E foi rebelde e foi xis vezes pra prisão;
E foi vegano e foi um iogue da ação;
E fez jejum, comício, greve e oração;
E fez-se ouvir sobre o clamor da multidão
Com uma fala que era mansa, doce e calma.

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

E conheceu o preconceito racial,
E “bem viveu” a vida simples, natural,
E se tornou celebridade mundial,
Mas declinou de posição oficial,
E almejou bem mais do que levar a palma.

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Mas quem foi esse que pregou que se lutasse
Não apegado ao que da luta resultasse,
Que pela causa se morresse, não matasse,
E ao agressor se oferecesse a outra face?
Foi um político ou um santo em corpo e alma?

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Mestre da paz, da fé, do afeto, namastê!
Vê quanto ódio e violência hoje, vê!
Faz teu espírito pairar sobre esse aiyê!
Aqui no chão a te evocar, nosso afoxé
Filhos de Gandhy toca e canta e bate palma:

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

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