Arquivo da categoria: Roberta Estrela Dalva

Grande Alma

Como se fosse um santo errante, um pobre hindu,
A pé, de trem, de tanga branca e peito nu,
Só apoiado numa vara de bambu,
Cruzou a Índia e como um pai ou um guru
Doou-se ao povo que trazia em sua palma:

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

O radical profeta da não violência,
Da não passiva, da pacífca resistência,
Obediente a si, à voz da consciência,
Levou seu povo da civil desobediência
À independência no final de um longo trauma;

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

E encarnou, do mais profundo do seu ser,
“Ser a mudança que no mundo se quer ver”,
E com a massa e como a massa foi viver,
Pra ser com ela um, por ela combater
E a conhecer como da sua mão a palma:

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Talvez não tenha havido espírito mais digno,
Nem mais impávido, mais nobre, mais benigno,
Nem outro símbolo mais límpido, outro signo
Na luta pela liberdade e contra a igno-
Mínia que a uns desonra e que a uns desalma:

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Não quis riqueza, propriedade, nada, neres,
Porém lutou, contra um sistema de poderes,
Pelos direitos para pobres e mulheres,
Pelo respeito à vida de todos os seres –
De cada bicho, cada nicho, cada palma;

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Servindo ao próxmo e ao propósto de igualdade,
Serviu de espelho de e para a humanidade,
Usando a força da palavra e da verdade
E da não cooperação que ainda há de
Banir a instituição colonial má.

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Predecessor do mártir Martin Luther King,
Pregou o amor e a união num grande ringue,
E entre fãs como Albert Einstein se distingue
O fã de Henry Thoreau e Franklin, Benjamin, gui-
-A na África de gente irmã de alma.

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

E foi rebelde e foi xis vezes pra prisão;
E foi vegano e foi um iogue da ação;
E fez jejum, comício, greve e oração;
E fez-se ouvir sobre o clamor da multidão
Com uma fala que era mansa, doce e calma.

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

E conheceu o preconceito racial,
E “bem viveu” a vida simples, natural,
E se tornou celebridade mundial,
Mas declinou de posição oficial,
E almejou bem mais do que levar a palma.

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Mas quem foi esse que pregou que se lutasse
Não apegado ao que da luta resultasse,
Que pela causa se morresse, não matasse,
E ao agressor se oferecesse a outra face?
Foi um político ou um santo em corpo e alma?

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Mestre da paz, da fé, do afeto, namastê!
Vê quanto ódio e violência hoje, vê!
Faz teu espírito pairar sobre esse aiyê!
Aqui no chão a te evocar, nosso afoxé
Filhos de Gandhy toca e canta e bate palma:

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

*

Manifestação

Manifeste-se em um só coro, um só coração : https://www.manifestacao.org

Aqui ´stamos na avenida,
Pelas ruas, pela vida,
Marchando com o cortejo
Que flui horizontalmente,
Manifestando o desejo
De uma cidade includente
E uma nação cidadã tra-
Duzido numa canção,
Numa sentença, num mantra,
Num grito ou numa oração…

… Por todo jovem negro que é caçado
Pela polícia na periferia;
Por todo pobre criminalizado
Só por ser pobre, por pobrefobia;
Por todo povo índio que é expulso
Da sua terra por um ruralista;
Pela mulher que é vítima do impulso
Covarde e violento de um machista;

Por todo irmão do Senegal, de Angola
E lá do Congo aqui refugiado;
Pelo menor de idade sem escola,
A se formar no crime condenado;
Por todo professor da rede pública
Mal-pago e maltratado pelo Estado;
Pelo mendigo roto em cada súplica;
Por todo casal gay discriminado.

E proclamamos que não
Se exclua ninguém senão
A exclusão.

Aqui ´stamos nós de volta,
Sob o signo da revolta,
Por uma vida mais digna
E por um mundo mais justo,
Com quem já não se resigna
E se opõe sem nenhum susto
A uma classe dominante
Hostil à população,
Numa ação dignificante
Que nasce da indignação…

… Por todo homem algemado ao poste,
Tal qual seu ancestral posto no tronco;
E o jovem que protesta até que o prostre
O tiro besta de um PM bronco;
Por todo morador de rua, sem saída,
Tratado como lixo sob a ponte;
Por toda a vida que foi destruída
Em Mariana ou no Xingu, por Belo Monte;

Por toda vítima de cada enchente,
De cada seca dura e duradoura;
Por todo escravo ou seu equivalente;
Pela criança que labuta na lavoura;
Por todo pai ou mãe de santo atacada
Por quem exclui quem crê num outro deus;
Por toda mãe guerreira, abandonada,
Que cria sem o pai os filhos seus.

E proclamamos que não se exclua ninguém
Senão a Exclusão.

Eis aqui a face escrota
De um modelo que se esgota.
Policiais não defendem;
Políticos não contentam;
Uns nos agridem ou prendem;
Outros não nos representam.
E aquele que não é títere,
E é rebelde coração,
Vai no Face, no zapp e Twitter e
Combina um ato ou ação…

… Por todo defensor da natureza
E todo ambientalista ameaçado;
E cada vítima de bullying indefesa;
E cada transexual crucificado;
E cada puta, cada travesti;
E cada louco, e cada craqueiro;
E cada imigrante do Haiti;
E cada quilombola e beiradeiro;

Pelo trabalhador sem moradia,
Pelo sem-terra e pelo sem-trabalho;
Pelos que passam séculos ao dia
Em conduções que cansam pra caralho;
Pela empregada que batalha, e como,
Tal como no Sudeste o nordestino;
E a órfã sem pais hetero nem homo,
E a morta num aborto clandestino.

Impelidos pelos ventos
Dos acontecimentos,
Louvamos os mais diversos
Movimentos libertários
Numa cascata de versos
Sociais e solidários
Duma canção de protesto
Qual “Canção de Redenção”,
Uma canção-manifesto,
Canção “Manifestação”…

… Por todo ser humano ou animal
Tratado com desumanimaldade;
Por todo ser da mata ou vegetal
Que já foi abatido ou inda há-de;
Por toda pobre mãe de um inocente
Executado em noite de chacina;
Por todo preso preso injustamente,
Ou onde preso e preso se assassina;

Pelo ativista de direitos perseguido
E o policial fodido igual quem ele algema;
Pelo neguinho da favela inibido
De frequentar a praia de Ipanema;
E pelo pobre que na dor padece
De amor, de solidão ou de doença;
E as presas da opressão de toda espécie,
E todo aquele em quem ninguém mais pensa…

E proclamamos que não se exclua ninguém
Nem nada senão a Exclusão.

Dando à vida e à alma grande
Um sentido que as expande,
Cantamos em consonância
Com os que sofrem ofensa,
Violência, intolerância,
Racismo, indiferença;
As Cláudias e Marielles,
Rafaeis e Amarildos
Da imensa legião
De excluídos do Brasil, do S-
Ul ao norte da nação.

E proclamamos que não se exclua
Ninguém senão a Exclusão.

*