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Pássaros na garganta

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de “Pássaros na Garganta”, de Tetê Espíndola

No céu da minha garganta
Eu tenho ao cantar
Pássaros que quando cantam
Não posso conter
Solto o que se levanta
Do meu ser
E vou ao sol no vôo
Enquanto sôo

Mas quando num céu tão cinza
Não vejo passar
Os pássaros que extinguem
Da terra e do ar
Passo o que existe em mim
A doer
Me dou tão só ao som
Com dó e dom

E o que sinto vai contra
Quem varre as matas e arremata a terra-mãe
E me indigna a onda
De insanos atos de insensatos que não amaina

Ânsia de que a vida seja mais cheia de vida
Pelas alamedas, pelas avenidas
Em aroma cor e som –
Árvores e ares, pássaros e parques
Para todos e por todos
Preservados em cada coração

Mas quando num grito raro
Se apossa de mim
O espírito desses pássaros
Que não tem fim
Espalho pelo espaço
O que não há
Com amor e com arte
Garganta e ar

Cuiabá

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de “Pássaros na Garganta”, de Tetê Espíndola

Vaia de arara passa pelos ares
Daqui pra ali
Fica no olhar a flutuar o leque
Do buriti

Se abre sobre a cidade verde
O céu de anil
No coração da América a terra de ócio
De sol e rio

Cuiabá
De onde se ouviu
Som de índio cantando à beira do rio

Cuiabá
De onde se vê
Cuia à beça, cabaça de cuietê

Cuiabá
Dos pacus
Dos furrundus
Dos cajus
Do João
“São” Sebastião
Da cabocla de pele queimada
De Leveger
Dos leques de palha
Talhas de São Gonçalo

Ah! Essa gente
Esse calor
Quero pra sempre
Com muito amor

Olhos de Jacaré

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de “Pássaros na Garganta”, de Tetê Espíndola

Que imprevistos pontos de luz eram aqueles,
Que lembravam estrelas
No abismo infindo e sem fundo,
E que deslumbraram
Já no vislumbre
Meu olhar profundo?

Não, eu não estava na estrada do oeste desta vez,
Vendo o terrestre astral da cidade,
Na eletricidade em seus inúmeros lumes.
Na madrugada eu estava no Pantanal.
Sim, por que não?
Eu tava lá na beira-vazante;
Aqui nos movimentos-voôs nômades da mente.
Lá na fantasmal nitidez dos muitos
Pontos brilhantes.
No espelho d água de aguapés
Eram olhos de jacarés.

Jacaré jacaré jacaré
Jacaré jacaré jacaré jacaré
Jacaré jacaré
Jacarés

Amor e Guavira


de “Pássaros na Garganta”, de Tetê Espíndola

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No cerrado onde o mato é grosso e a coisa é fina
Entre um cacho e um trago um moço abraça uma menina
O namoro é debaixo de uma árvore da flora
Onde ambos lambuzamos nossa cara de amora

Nesse ambiente exuberante e fruto do amor
A guavira água vira em nossa boca, ai que sabor
Língua a língua se fala a linguagem de quem beija-flor
Flor da pele que me impele assim
Ao mais louco amor
Que se faz naturalmente enfim
Seja onde for

Melro (Blackbird)

Melro no escuro a cantarolar

Abra essas asas pra voar

Todo o tempo

Você aguardava esse momento pra subir

Melro no escuro a cantarolar

Abra esses olhos pra enxergar

Todo o tempo

Você aguardava esse momento pra se abrir

Melro… Voe!

Melro… Voe!

Dentro da luz no azul da noite

*

Brackbird

(John Lennon e Paul Mccartney)

Blackbird singing in the dead of night

Take these broken wings and learn to fly

All your life

You were only waiting for this moment to arise

Blackbird singing in the dead of night

Take these sunken eyes and learn to see

All your life

You were only waiting for this moment to be free

Blackbird, fly

Blackbird, fly

Into the light of the dark black night

Blackbird, fly

Blackbird, fly

Into the light of the dark black night

Blackbird singing in the dead of night

Take these broken wings and learn to fly

All your life

You were only waiting for this moment to arise

You were only waiting for this moment to arise

You were only waiting for this moment to arise

(Composta em 1968)

Pássaro Sobre O Cerrado

Pássaro sobre o cerrado

Sua vida suave sabe o canto

E o corte sem saber

Do veneno que pode com o vento

Minar seu alimento

Ser que voa pelo ar com sol

Acima de qualquer mal

Lembrando apenas

Viver vale a pena

Um pássaro encerrado eu sinto

Alça voo consigo

Pássaro sobre o cerrado

Sua desaparição não tem nada a ver

A não ser como agora

Para o sul na lonjura azul

Alça voo consigo

Pássaro sobre o cerrado

Sua desaparição não tem nada a ver

A não ser como agora

Para o sul na lonjura azul

Caucaia

Caucaia do Alto tomara

Sua cara reserva

Não caia por terra

E os aviões aportem

Noutro cais de asfalto

Caucaia do alto tomara

Sua cara reserva

Não caia por terra

E os aviões aportem

Noutro cais de asfalto

Cipós, pica-paus e serrapilheira

Represa, floresta, beleza nativa

É preciso ver que isso tudo

A duras penas dança, gira e gera vida

Apenas pura

Caucaia do alto tomara

Sua rara mancha derradeira

Na região não caia na mão

Das empreiteiras

Cipós, pica-paus e serrapilheira

Represa, floresta, beleza nativa

Pode parecer brincadeira

Mas isso tudo é tão bom

Como também é o avião

Na Catarata

Eu sou um bicho pequeno aqui na rocha

Eu tenho a terra e não penso em doma-la

A roça grande é um mundo de raiz

Gerando sangue, muito verde por aqui

Tudo de bom

Tá parado no musgo

Tá mexendo nas folhas

Volando com las maripossas ai, ai!

E no som da catarata

Laraiá laraiá laiá, laraiá laiá, laraiá laiá

Eu sou um bicho grudado aqui na rocha

De carrapicho de monte nas botas

Eu tenho o braço estendido para mata

Olhando as coisas sem saber de nada

Tudo de bom tá parado no musgo

Tá mexendo nas folhas

Volando com las mariposas ai, ai!

E no som da catarata

laraiá laraiá laiá, laraiá laiá, laraiá laiá