Arquivo da categoria: Vitor Ramil

Pampa Pai, Pampa Mãe

Cruzando o horizonte, sob um céu azul,
Na solidão, ao frio do sul do Sul,
En la llanura aún no transformada,
En la llanura luminosa y ondulada,
Viu-se o gaúcho, el gaucho, pastoreando
Nos verdes campos de relevo brando,
Tão relevantes e atacados como são
As matas e florestas hoje na nação.

O mal começa na chegada a essa plaga
Dessa praga que a invade e se propaga,
Monocultura que aos poucos desaloja
Um cultivo ou outro que não seja soja,
Disseminando agrotóxicos letais
Que contaminam solo, rio, lençol e mais:
Alimentos, água, plantas, animais,
Pastagens, olivais e parreirais.

Ó pampa pai, ó pampa mãe,
Do ser que és o que haverá de ser?
Ó pampa pai, ó pampa mãe,
Teus majestosos campos à mercê
De interesses vãos não hão de se perder.

Com tristes governantes entreguistas
E agronegociantes tão negacionistas,
Leis que protegem o ambiente se alteram.
Licenças para destruí-lo se aceleram.
Lagoa, rio e mar são assoreados.
Mata ciliar, banhados, soterrados.
Quem viu um rio virar um mar na cheia
Já vê vegetação virar areia.

Enquanto o gado pasta em harmonia
Com tua natureza, em sinergia
Com ervas-mates, quero-queros, emas
Tudo o que vive em teu ecosistema,
A soja te corroi e te vitima:
Vetor local da alteração global do clima —
Fator do trágico, terrível fato
Da enchente de 2024.

Ó pampa pai, ó pampa mãe,
Do ser que és o que haverá de ser?
Ó pampa pai, ó pampa mãe,
Teus majestosos campos à mercê
De interesses vãos não hão de se perder.

A soja afronta a tua resiliência,
La soja enfrenta nuestra resistencia,
Empobrecendo a terra, enriquecendo alguns,
Uns loucos por uns lucros incomuns,
Sem ver, na sua lógica perversa,
A tua biodiversidade tão diversa.
Nem ter nas tuas cem gramíneas a visão
De uma amazônia sob os pés ao rés do chão.

“Nosso negócio”, um desses homens diz,
“É que sustenta a economia do país”.
Que economia insustentável, essa!
À qual a grana, mais que a grama, é que interessa.
Os atos agressores desse grupo,
Como um feminicídio ou um estupro,
Ferem a Terra-mãe desprotegida,
Hieren la pampa y así hieren la vida.

Ó pampa pai, ó pampa mãe,
Do ser que és o que haverá de ser?
Ó pampa pai, ó pampa mãe,
Teus majestosos campos à mercê
De interesses vãos não hão de se perder.

Mirando no horizonte mais destruição,
Nós temos muita pressa em tua proteção!

*

Cisma

Seu sorriso é como um sol de pura luz;
Abre um céu de mil azuis,
Me acende e me seduz.

Mas seu coração tão frio, tão lunar,
Misterioso como o mar,
Não me faz senão cismar.

Bela dama que não sei se sabe amar,
Se é amável ou é má,
Sei que veio me abalar –

Por debaixo desse gelo se deduz
O seu facho que reluz
Sutilmente a olhos nus

Só quero ter você,
Ah como eu quero esquecer você.
Distante de você,
Só quero estar diante de você.

Em que praia agora o sol se reproduz
Em sua pele que reluz
Como ouro, a anos-luz?

Em que espaço agora espalha-se ao passar
Sua doce voz no ar,
Tão profunda como o mar?

Só quero ter você,
Ah como eu quero esquecer você.
Distante de você,
Só quero estar diante de você.