Todos os posts de Carlos Rennó

O Que É Esse Tal de Amor (What Is This Thing Called Love)

O que é esse tal de amor?
Gozado, o tal de amor.
Ao seu mistério quem dá fim?
Por que me faz de bobo assim?

Num dia azul, você me surgiu;
Meu coração, pegou e partiu.
Por isso eu peço aos céus: “Me diz, meu Senhor,
O que é esse tal de amor?”

*

What Is This Thing Called Love

What is this thing called love?
This funny thing called love?
Just who can solve its mystery?
Why should it make a fool of me?

I saw you there one wonderful day;
You took my heart and threw it away.
That’s why I ask the Lord, in Heaven above:
“What is this thing called love?”

Ah, Não Me Diga! (Well, Did You Evah!)

Quando num festão de classe alta
Alguém dá-lhe notícia má,
Não mostre que algo o sobressalta,
Nem comece a lamentar.

Por exemplo, conte-me algo horrível,
Grave, triste, e eu aí
Mostro como é que um rapaz de alto nível
Deve agir.

– Tá sabendo da enchente
Lá no Sul, ontem, de repente?
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!
– Pobre Blanco, em pleno lanche,
Foi levado na avalanche!
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!

Que ares, que ilha!
Que maravilha!
É tudo! É top!
É agro! É pop!
Que queijo, opa!
Que peixe, que sopa!
Que massa, que mesa!
– Um momento, por fineza:

Tio João não lembrou de abrir
Seu paraquedas até cair…
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!
– Tia Suzi diz que o neto
É moreno, mas ele é preto…
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!

– Um asteroide vem aí;
Com a Terra vai colidir.
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!
–Você viu que a vó Lulina
Em vez de mel tomou cloroquina?
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!

Que daiquiris!
Que vinho! Bis!
Champanhe francês!
Borgonha, xerez!
Conhaque? Sim!
Que uísque, tim-tim!
Que gim, que cerveja!
– Fique sóbrio só, e veja:

Professor comeu a esposa
E desistiu da leguminosa.
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!
– No arrastão que lá rolou
Roubaram Stela no bar do Astor.
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!

– Ed, que nunca se mostra,
Apareceu num viveiro de ostra.
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!
– Lila Lee calhou de estar
Onde o raio caiu, que azar!
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!

É foda, é fino,
É tão divino.
É vip, é bom,
Vinicius e Tom!
Que diz-que-diz!
Que moço, que miss!
Que chiste, que ambiente!
– Mas aqui só entre a gente:

Seu Messias, sem noção,
Foi pro mei´ da aglomeração.
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!
– Em seu Porsche, o pobre Eloi
Durmiu na ponte Rio-Niterói.
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!

– Tá sabendo que a Garcez
Tomou dez e pirou de vez?
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!
– Capitão Jair, demente,
Só tem minhoca na sua mente.
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!

É show, é chique,
É Fashion Week!
É Shangri-la!
É só classe A!
Que trajes! Cliques!
Que joias, que apliques!
Que humor, que glamour!
– Esta é de matar, chuchu:

Já não vemos a Manu;
Caiu nas águas do Iguaçu.
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!
– Sabe do tenente Cid?
Tá entubado, pegou Covid.
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!

– Você viu que nesse clã
Sou um homem sem nenhum fã?
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!
– Você viu o jovem Jô?
Foi traído por seu amor.
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!

Que granfo, que infra!
Que grifes, que chinfra!
Que graça, oh!
É um luxo só!
Champanhe francês!
Tão bom pro freguês!
E a banda, demais!
– Não se abale, meu rapaz…

A Amazônia nesse mês
Arde em chamas mais uma vez!
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!
– Você viu? Vai ser o caos,
Quando a Terra aquecer dois graus.
– Ah, não me diga!
Ah, que festa classe A!

*

Well, Did You Evah!

When you´re out in smart society
And you suddenly get bad news,
You mustn´t show anxiety
And proceed to sing the blues.

For example, tell me something sad,
Something awful, something grave,
And I´ll show you how a Racquet Club lad
Would behave.

– Have you heard the coast of Maine
Just got hit by a hurricane?
– Well, did you evah!
What a swell party this is.
– Have you heard that poor, dear Blanche
Got run down by an avalanche!
– Well, did you evah!
What a swell party this is.

It´s great, it´s grand.
It´s Wonderland!
It´s top, it´s first;
It´s DuPont, it´s Hearst!
What soup, what fish.
That meat, what a dish!
What salad, what cheese!
– Pardon me one moment, please:

Have you heard that Uncle Newt
Forgot to open his parachute?
– Well, did you evah!
What a swell party this is.
– Old Aunt Susie just came back
With her child and the child is black.
– Well, did you evah!
What a swell party this is.

– Have you heard it’s in the stars
Next July we collide with Mars.
– Well, did you evah!
What a swell party this is.
– Have you heard that Grandma Doyle
Thought the Flit was her mineral oil?
– Well, did you evah!
What a swell party this is.

What daiquiris!
What sherry! Please!
What Burgundy!
What great Pommery!
What brandy, wow!
What whiskey, here’s how!
What gin and what beer!
– Will you sober up, my dear?

Have you heard Professor Munch
Ate his wife and divorced his lunch?
– Well, did you evah!
What a swell party this is.
– Have you heard that Mimsie Starr
She got pinched in the Astor bar?
– Well, did you evah!
What a swell party this is.

– Have you heard that poor old Ted
Just turned up in an oyster bed?
– Well, did you evah!
What a swell party this is.
– Lily Lane has lousy luck,
She was there when the light´ning struck.
– Well, did you evah!
What a swell party this is.

It´s fun, it´s fine,
It´s too divine.
It´s smooth, it´s smart.
It´s Rodgers, it´s Hart!
What debs, what stags!
What gossip, what gags!
What feathers, what fuss!
– Just between the two of us:

Reggie´s rather scatterbrained,
He dove in when the pool was drained.
– Well, did you evah!
What a swell party this is.
– Mrs. Smith in her new Hup
Crossed the bridge when the bridge was up.
– Well, did you evah!
What a swell party this is.

– Have you heard that Mrs. Cass
Had three beers and then ate the glass?
– Well, did you evah!
What a swell party this is.
– Have you heard that Captain Craig
Breeds termites in his wooden leg?
– Well, did you evah!
What a swell party this is.

It´s fun, it´s fresh,
It´s post-Depresh.
It´s Shangri-la.
It´s “Harper´s Bazaar”!
What clothes, what chic!
What pearls, they´re the peak!
What glamour, what cheer!
– This will simply slay you, dear:

Kitty isn´t paying calls,
She slipped over Niagara Falls.
– Well, did you evah!
What a swell party this is.
– Have you heard that Mayor Hague
Just came down with bubonic plague?
– Well, did you evah!
What a swell party this is.

– Have you heard among this clan
I am called “The Forgotten Man”?
– Well, did you evah!
What a swell party this is.
– Have you heard the story of
Dexter boy being gypped by love?
– Well, did you evah!
What a swell party this is.

What frails, what frocks!
What furs, what rocks!
What gaiety!
It’s all too exquis!
That French champagne!
So good for the brain!
That band, it’s the end!
– Kindly don’t fall down, my friend.

Have you heard that Mrs. Cass
Had three beers and then ate the glass?
– Well, did you evah!
What a swell party this is.
– Have you heard it’s in the stars
Next July we collide with Mars.
– Well, did you evah!
What a swell party this is.

Olhe a Etiqueta (It Ain´t Etiquette)

Essa Gloria Kalil,
Que já tem um perfil
Finérrimo,
Por um alto cachê
Fez um livro que é
Chiquérrimo.
E esse seu abecê
Da etiqueta, você,
Só de vê-lo, viu,
Vai poder coabitar
Com os chiques que há
No Brasil.

Por exemplo, os Guimarães.

Se você vê do lado a Gisele Bündchen,
Não congele nem se derreta;
Peça um só autógrafo, não uns vinte, hem…
Olhe a etiqueta.
Se um amigo lhe empresta algum DVD,
Uma nota ou uma caneta,
Não esqueça que deve lhe devolver;
Olhe a etiqueta.
Se num rosto se notam alguns retoques,
E nenhuma emoção o afeta;
Não pergunte se a dona botou Botox…
Não é fino,
Não é chique;
Olhe a etiqueta.

Numa festa de finos e figurões,
Dirigindo-se ao toalete,
Não infeste a parede com palavrões;
It ain´t etiquette.
Quando à mesa, não fale de depressão,
De dureza nem de dieta,
De doença, nem faça doutrinação;
Olhe a etiqueta.
Se uma moça, de doces tão ávida,
Aumentou sua silhueta,
Não pergunte se a moça tá grávida…
Não é fino,
Não é chique;
Olhe a etiqueta.

Quando alguém lhe revela que é – OK,
Não lhe diga, que nem careta:
“Eu não ligo, até tenho um amigo gay…”
Olhe a etiqueta.
Se o convite impõe traje clássico,
Não convém ir de camiseta;
Mas se quer transgredir, ponha um básico –
E olhe a etiqueta.
Se um aluno da PUC se amarra em seu look
E o agarra pela jaqueta,
Nem por isso o chame de filho da PUC;
Não é fino,
Não é chique;
Olhe a etiqueta.

*

It Ain´t Etiquette

Missus Emily Post,
Who they tell me is most
Reliable,
For a helluva sum
Wrote a book that´s become
My Bi-able.
And if only you look
At that Etiquette book
Of dear Emily´s,
You can co-habitate
With America´s great
Families.

Now, for instante, Snooks,

If you meet J.P. Morgan while playing golf,
With the Long Island banking set,
Don´t greet him by tearing your girdle off;
It ain´t etiquette.
When invited to hear from an op´ra box
Rigoletto´s divine quartet,
Don´t bother your neighbors by throwing rocks.
It ain´t etiquette.
When your´re asked up to dine by some mean old minks
And a meat ball is all you get,
Never say to your hostess: “This dinner stinks”;
It ain´t smart,
It ain´t chic,
It ain´t etiquette.

On arriving in one of those White House Balls,
While you´re touching up your toilette,
Don´t write smutty jokes on the bathroom walls;
It ain´t etiquette.
When the Chinese Ambassador´s wife unfurls
After three drinks of anisette,
Don´t ask if it´s true about Chinese girls;
It ain´t etiquette.
If you thought you were gypped at the fair last year
And that Grover is just all wet,
Don´t suggest that he does with the Perisphere;
It ain´t smart,
It ain´t chic,
It ain´t etiquette.

If a very proud mother asks you what you think
Of her baby in the bassinette,
Don´t tell her he looks like the missing link;
It ain´t etiquette.
You you´re asked up to tea at Miss Flinch´s school
By some little Violet,
Don´t pinch poor Miss Flinch in the vestibule;
It ain´t etiquette.
If you´re swimming at Newport with some old leech
And he wrestles you while you´re wet,
Don´t call him a sono f a Bailey´s Beach;
It ain´t smart,
It ain´t chic,
It ain´t etiquette.

Ser Milionário, Quem Não Quer? (Who Wants to Be a Millionaire?)

— Quem tem tesão
Em ter um trilhão?
— Quem quer pra já
Muitos bens herdar?
— Quem quer levar
A vida fácil dos
Que se inundam de luxos necessários?

— Ser milionário, quem não quer?
— Eu não.
— Ter empregados de libré?
— Eu não.
— Casa na praia pra passar o verão?
— Que praia, verão!?
Detesto! Eu não.
— Quem quer se encher de caviar?
— Eu não.
— Carro caríssimo importar?
— Eu não.
— Piscina em mármore (que chiquê!)?
— Eu não,
Que tudo
Que eu quero é você.

— Ser milionário, quem não quer?
— Eu não.
— Quem quer ter ouro de colher?
— Eu não.
— Uma jornada num gigante iate?
— Se eu quero um iate?
Oh que disparate!
— Quem quer nadar num bom champanhe?
— Eu não.
— Quem quer um jato que o apanhe?
— Eu não.
— Ter um aeroporto privê?
— Eu não,
Que tudo
Que eu quero é você.

— Ser milionário, quem não quer?
— Eu não.
— Pra fazer tudo que aprouver?
— Eu não.
— Quem quer andar de carro e ter um chofer?
— Em ter um chofer
Nem sonho sequer!
— Na ópera num camarote…
(— Eu não.)
— Dormir ouvindo um Pavarotti?
— Eu não.
— Ter joias e relógios Cartier?
— Eu não,
Que tudo
Que eu quero é você.


Variantes:
(*) — Piscina em mármore São Tomé?

*

Who Wants to Be a Millionaire?

— Who has an itch
To be filthy rich?
— Who gives a hoot
For a lot of loot?
— Who longs to live
A life of perfect ease
And be swamped by necessary luxuries?

— Who wants to be a millionaire?
— I don’t.
— Have flashyflunkeys ev’rywhere?
— I don’t.
— Who wants the bother of a country estate?
— A country estate
Is something I’d hate!
— Who wants to tire of caviar?
— I don’t.
— Who wants a fancyforeign car?
— I don’t.
— Who wants a marble swimming pool too?
— I don’t.
And I don’t,
‘Cause all I want is you.

— Who wants to be a millionaire?
— I don’t.
— Who wants uranium to spare?
— I don’t.
— Who wants to journey on a gigantic yatch?
— Do I want a yatch?
Oh, how I do not!
— Who wants to wallow in champagne?
— I don’t.
— Who wants a supersonic plane?
— I don’t.
— Who wants a private landing field too?
— I don’t.
And I don’t,
´Cause all I want is you.

— Who wants to be a millionaire?
— I don’t.
— And go to ev ‘ry swell affair?
— I don’t.
— Who wants to ride behind a liv’ried chauffeur?
— A liv’ried chauffeur?
Do I want? No, sir!
— Who wants an op’ra box, I’ll bet?
— I don’t.
— And sleep through Wagner at the Met?
— I don’t.
— Who wants to corner Cartier’s too?
— I don’t.
And I don’t,
‘Cause all I want is you.

Fiel a Você à Minha Moda (Always True To You In My Fashion)

É uma flor o rei do aço;
Mil presentes com um laço
O ricaço
rei do aço
já me deu;
Mas eu sou fiel a você à minha moda;
Sim, eu sou fiel a você de um modo meu.

Ao Fasano, um ano faz,
Vou com o chefão do gás;
Ao rapaz
não falta gás
lá no hotel;
Mas eu sou fiel a você à minha moda;
Sim, eu sou fiel a você de um modo meu.

Coronel Ubiracy
Me mandou um cheiro aqui;
Sendo um cheiro que
Rende um Cherokee,
Valeu!
Mas eu sou fiel a você à minha moda;
Sempre sou fiel a você de um modo meu.

Deputado federal
Quer me ver na Capital;
Se pra tal
há capital,
pra lá vou eu;
Mas eu sou fiel a você à minha moda;
Sim, eu sou fiel a você de um modo meu.

Tem um craque em destaque
Que também é bom de saque;
Quando o craque
vem pro ataque,
aí… fodeu;
Mas eu sou fiel a você à minha moda,
Sim, eu sou fiel a você de um modo meu.

Um pastor da Universal
Diz que tem poder verbal;
Mais que verbo, o tal
Uma verba tal
Me deu!
Mas eu sou fiel a você à minha moda;
Sempre sou fiel a você de um modo meu.

Ontem vim a conhecer
Um banqueiro de SP;
“De SP”
diz que o prazer
foi todo seu;
Mas eu sou fiel a você à minha moda;
Sim, eu sou fiel a você de um modo meu.

Rei da soja e outro grão,
Me frequenta o Henricão;
Grana e grão,
o Henricão
tem a granel;
Mas eu sou fiel a você à minha moda,
Sim, eu sou fiel a você de um modo meu.

Jovem rico, sexy, chique,
Quer levar-me à Fashion Week;
Me mantendo chique
E mantendo o pique,
OK!
But I’m always true to you, darling, in my fashion;
Yes I’m always true to you, darling, in my way.

A julgar por um juiz,
São supremos meus quadris;
Por um bis,
esse juiz
me enriqueceu;
Mas eu sou fiel a você à minha moda;
Sim, eu sou fiel a você de um modo meu.

O Seu Jorge quer fazer
Por meu quarto uma turnê;
Se a turnê
rende um apê,
o quarto é seu;
Mas eu sou fiel a você à minha moda;
Sim, eu sou fiel a você de um modo meu.

Um publicitário bem-
-Sucedido me sustém;
Me concede bens,
Seu Mercedes-Benz
E o céu!
Mas eu sou fiel a você à minha moda;
Sempre sou fiel a você de um modo meu.

*
Variante:
(*) Cauã Raymond

Variante de estrofe:

É uma jóia um marajá;
Para eu parecer seu par,
Ele já
me deu colar,
pulseira, anel…
Mas eu sou fiel a você à minha moda;
Sim, eu sou fiel a você de um modo meu.

*

Always True To You In My Fashion

If a custom-tailored vet
Asks me out for something wet,
When the vet
begins to pet,
I cry “Hooray!”
But I’m always true to you, darlin’, in my fashion,
Yes, I’m always true to you, darlin’, in my way.


I enjoy a tender pass
By the boss of Boston, Mass.,
Though his pass
is middle-class
and notta Backa Bay.
But I’m always true to you, darlin’, in my fashion,
Yes, I’m always true to you, darlin’, in my way.

There’s a madman known as Mack
Who is planning to attack,
If his mad attack
Means a Cadillac,
Okay!
But I’m always true to you, darlin’, in my fashion,
Yes, I’m always true to you, darlin’, in my way.


I’ve been asked to have a meal
By a big tycoon in steel,
If the meal
includes a deal,
accept I may.
But I’m always true to you, darlin’, in my fashion,
Yes, I’m always true to you, darlin’, in my way.


I could never curl my lip
To a dazzlin’ diamond clip,
Though the clip
meant “let ‘er rip”,
I’d not say “Nay!”
But I’m always true to you, darlin’, in my fashion,
Yes, I’m always true to you, darlin’, in my way.


There’s an oil man known as Tex
Who is keen to give me checks.
And his checks, I fear,
Means that sex is here
To stay.
But I’m always true to you, darlin’, in my fashion,
Yes, I’m always true to you, darlin’, in my way.


There’s a wealthy Hindu priest
Who’s a wolf, to say the least,
When the priest
goes too far east,
I also stray.
But I’m always true to you, darlin’, in my fashion,
Yes, I’m always true to you, darlin’, in my way.


There’s a lush from Portland, Ore.,
Who is rich, but sich a bore,
When the bore
falls on the floor,
I let him lay
But I’m always true to you, darlin’, in my fashion,
Yes, I’m always true to you, darlin’, in my way.


Mister Harris, plutocrat,
Wants to give my cheek a pat,
If the Harris pat
Means a Paris hat,
Bébé, Oo-la-la!
Mais je suis toujours fidèle, darlin’, in my fashion,
Oui, je suis toujours fidèle, darlin’ in my way.


From Ohio Mister Thorn
Calls me up from night ‘til morn,
Mister Thorn
once cornered corn
and that ain’t hay.
But I’m always true to you, darlin’, in my fashion,
Yes, I’m always true to you, darlin’, in my way.


From Milwaukee Mister Fritz
Often moves me to the Ritz,
Mister Fritz
is full of Schlitz
and full of play.
But I’m always true to you, darlin’, in my fashion,
Yes, I’m always true to you, darlin’, in my way.


Mister Gable, I mean Clark,
Wants me on his boat to park,
If the Gable boat
Means a sable coat,
Anchors aweigh!
But I’m always true to you, darlin’, in my fashion,
Yes, I’m always true to you, darlin’, in my way.

Vendo Amor (Love For Sale)

Quando o som na rua vazia é
Do pesado passo, o pesado pé
De um bonito PM só,
Abro o brechó.

Quando a lua já com o olhar varreu
Cada rua ao léu da cidade ao léu
E um sorriso amarelo dá,
Vou trabalhar.

Vendo amor,
Desejável, jovem amor.
Fresco, novo e não passado,
Levemente só manchado… –
Vendo amor.

Vem comprar…
Quem do meu produto vai provar?
Preparado pra pagar
Pra no paraíso dar?
Vendo amor.

O poeta canta o amor
De um modo infantil.
Eu conheço tanto o amor,
E de tipos mil.

Pra quem quer frisson no amor,
Sofri pra ser bom no amor;
Claro, escuro –
Todos, só não puro.

Vendo amor,
Desejável, jovem amor.
Se o negócio te agrada,
Vem comigo e sobe a escada.
Vendo amor.

Pra quem quer frisson no amor,
Sofri pra ser bom no amor;
Claro, escuro –
Mas amor no duro.

Vendo amor,
Desejável, jovem amor.
Se o negócio te agrada,
Vem comigo e sobe a escada.
Vendo amor.

VENDO AMOR!

*

Love For Sale

When the only sound in the empty street
Is the heavy tread of the heavy feet
That belong to a lonesome cop,
I open shop.


When the moon so long has been gazing down
On the wayward ways of this wayward town,
That her smile becomes a smirk,
I go to work.


Love for sale,
Appetising young love for sale.
Love that’s fresh and still unspoiled,
Love that’s only slightly soiled,
Love for sale.


Who will buy?
Who would like to sample my supply?
Who’s prepared to pay the price
For a trip to paradise?
Love for sale.


Let the poets pipe of love
In their childish way,
I know every type of love
Better far than they.


If you want the thrill of love,
I’ve been through the mill of love;
Old love, new love,
Every love but true love.


Love for sale,
Appetising young love for sale.

If you want to buy my wares.
Follow me and climb the stairs
Love for sale.


Love for sale!

Sou Um Gigolô (I´m A Gigolo)

Saibam todos que eu sou
Um famoso gigolô.
De lavanda, meu caráter tem uma gota só.
Como eu sou meio sem sexo,
Vocês vão me ver anexo
A uma viúva por dinheiro só, nunca por xodó.

Num daqueles bares notórios,
Esticando meus suspensórios,
Puxo as damas mais ilusórias do pedaço.
Mas confesso que afinal
Eu às vezes fico mal
E pergunto a mim como é que eu faço o que faço.

Uma flor que floreia no inverno
E que afunda na neve é o que eu sou.
Um bebê que ao invés
De mãe, tem o jazz.
Sou um gigolô.

De manhã, no final da labuta,
Pro meu quarto incensado eu vou;
Pego o espelho e o gim,
E olho pra mim –
Sou um gigolô.

No Natal sem flor,
Louras sem cor
Dão-me ações de falso quilate.
Sou tão-só um cão
De estimação
De quem só lembra o alfaiate.

Vendo o trato que a dama dispensa
Ao marido, fiel provedor,
Ninguém pode estranhar
Por graças eu dar
Por ser gigolô.

*

I´m A Gigolo

I should like you all to know,
I’m a famous gigolo.
And of lavender, my nature’s got just a dash in it.
As I’m slightly undersexed,
You will always find me next
To some dowager who’s wealthy rather than passionate.


Go to one of those night club places
And you’ll find me stretching my braces,
Pushing ladies with lifted faces ‘round the floor.
But I must confess to you
There are moments when I’m blue,
And I ask myself whatever I do it for.


I’m a flower that blooms in the winter,
Sinking deeper and deeper in snow.
I’m a baby who has
No mother but jazz,
I’m a gigolo.


Ev’ry morning, when labor is over,
To my sweet-scented lodgings I go,
Take a glass from the shelf
And look at myself,
I’m a gigolo.


I get stocks and bonds
From faded blondes
Ev’ry twenty-fifth of December.
Still I’m just a pet
That men forget
And only tailors remember.


Yet when I see the way all the ladies
Treat their husbands who put up the dough,
You cannot think me odd
If then I thank God
I’m a gigolo.

Calor do Cão (It’s Too Darn Hot)

Calor do cão.
Calor do cão.
Quero comer com meu broto de noite;
Comparecer pro meu broto de noite.
Quero comer com meu broto de noite;
Comparecer pro meu broto de noite.
Mas vou dever pro meu broto de noite
Num calor do cão.

Calor do cão.
Calor do cão.
Quero curtir com meu broto de noite
E transgredir com meu broto de noite.
Quero curtir com meu broto de noite
E transgredir com meu broto de noite.
Mas vou dormir sem meu broto de noite
Num calor do cão.

Calor do cão.
Calor do cão.
Quero parar pro meu broto de noite,
Poder pirar com meu broto de noite.
Quero parar pro meu broto de noite,
Poder pirar com meu broto de noite.
Mas vou brochar com meu broto de noite,
Num calor do cão.

De acordo com pesquisa no ar,
Todo simples homem vai
Preferir seu par no amor procurar
Quando a temperatura cai.
Mas quando o termômetro sobe, pá!,
E o tempo é um calorão,
Seu Adão pra
Eva não tá,
Tá não,
Num, num, num calor do cão,
Calor do cão!
Calor do cão!

Calor do cão.
Calor do cão.
Quero cruzar com meu broto de noite,
Barbarizar com meu broto de noite.
Quero cruzar com meu broto de noite,
Barbarizar com meu broto de noite.
Mas não bisar com meu broto de noite
Num calor do cão.

Calor do cão.
Calor do cão.
Quero um local com meu broto de noite;
Me dar, total, pro meu broto de noite.
Quero um local com meu broto de noite;
Me dar, total, pro meu broto de noite.
Mas vou dar tchau pro meu broto de noite
Num calor do cão.

Calor do cão.
Calor do cão.
Quero um xodó com meu broto de noite,
Borogodó com meu broto de noite.
Quero um xodó com meu broto de noite,
Borogodó com meu broto de noite.
Mas, brother, tó o meu broto de noite,
Num calor do cão.

De acordo com pesquisa no ar,
Todo simples homem vai
Preferir seu par no amor procurar
Quando a temperatura cai.
Mas quando o termômetro sobe, pá!,
E o tempo é um calorão,
O seu Gama à
Sua dama, (*)
Um PM, à
Alma-gêmea,
Um juiz,
À sua flor-de-lis, (**)
Diz não,
Num, num, num calor do cão,
Calor do cão,
Calor do cão!


Variantes:
(*) João-ninguém
Pro seu bem,
(**) Seu Manuel
Pro seu pão-de-mel

*

It’s Too Darn Hot

It’s too darn hot.
It’s too darn hot.
I’d like to sup with my baby tonight
And play the pup with my baby tonight. (*)
I’d like to sup with my baby tonight
And play the pup with my baby tonight,
But I ain’t up to my baby tonight,
‘Cause it’s too darn hot.


It’s too darn hot.
It’s too darn hot.
I’d like to fool with my baby tonight,
Break ev´ry rule with my baby tonight.
I’d like to fool with my baby tonight,
Break ev´ry rule with my baby tonight,
But, pillow, you´ll be my baby tonight
‘Cause it’s too darn hot.


It’s too darn hot.
It’s too darn hot.
I’d like to stop for my baby tonight
And blow my top with my baby tonight.
I’d like to stop for my baby tonight
And blow my top with my baby tonight,
But I´d be a flop with my baby tonight,
‘Cause it’s too darn hot.


According to the Kinsey report
Every average man you know
Much prefers to play his favorite sport (**)
When the temperature is low.
But when the thermometer goes ´way up
And the weather is sizzling hot,
Mister Adam,
For his madam, (***)
Is not,
‘Cause it’s too, too, too darn hot,
It’s too darn hot,
It’s too darn hot!


It’s too darn hot.
It’s too darn hot.
I’d like to meet with my baby tonight,
Get off my feet with my baby tonight.
I’d like to meet with my baby tonight,
Get off my feet with my baby tonight,
But no repeat with my baby tonight,
‘Cause it’s too darn hot.


It’s too darn hot.
It’s too darn hot.
I’d like to call on my baby tonight
And give my all to my baby tonight.
I’d like to call on my baby tonight
And give my all to my baby tonight,
But I can´t play ball with my baby tonight,
‘Cause it’s too darn hot.


It’s too darn hot.
It’s too darn hot.
I’d like to coo with my baby tonight
And pitch some woo with my baby tonight.
I’d like to coo with my baby tonight
And pitch some woo with my baby tonight,
But, brother, you bite my baby tonight,
‘Cause it’s too darn hot.


According to the Kinsey report
Every average man you know
Much prefers to play his favorite sport,
When the temperature is low.
But when the thermometer goes ´way up
And the weather is sizzling hot,
Mister Gob
For his squab,
A marine
For his queen,
A GI
For his cutie-pie
Is not,
‘Cause it’s too, too, too darn hot,
It’s too darn hot,
It’s too darn hot!


Variantes:
(*) Refill the cup with my baby, tonight
(**) Much prefers his lovey dovey to court
(***) Mister Pants
For romance

Experimente (Experiment)


Experimente –
Tome esse mote pra você.
Experimente –
E logo à luz você vai ter.

Maçã que tá no topo do pé
Tão longe do chão não se eleva;
Então pegue o exemplo de Eva:
Experimente.

Curioso, sim!
Que alguns amigos digam não.
Furioso, sim,
Reprove cada repressão.

Aplique dia a dia esse plá,
E o tempo alegria e prazer lhe trará
Eternamente.
Experimente –
E verá.

*

Experiment

Experiment,
Make it your motto day and night.
Experiment,
And it will lead you to the light.


The apple on the top of the tree
Is never too high to achieve,
So take an example from Eve:
Experiment.


Be curious,
Though interfering friends may frown;
Get furious
At each attempt to hold you down.


If this advice you always employ,
The future can offer you infinite joy
And merriment.
Experiment,
And you’ll see.

Grande Alma

Como se fosse um santo errante, um pobre hindu,
A pé, de trem, de tanga branca e peito nu,
Só apoiado numa vara de bambu,
Cruzou a Índia e como um pai ou um guru
Doou-se ao povo que trazia em sua palma:

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

O radical profeta da não violência,
Da não passiva, da pacífca resistência,
Obediente a si, à voz da consciência,
Levou seu povo da civil desobediência
À independência no final de um longo trauma;

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

E encarnou, do mais profundo do seu ser,
“Ser a mudança que no mundo se quer ver”,
E com a massa e como a massa foi viver,
Pra ser com ela um, por ela combater
E a conhecer como da sua mão a palma:

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Talvez não tenha havido espírito mais digno,
Nem mais impávido, mais nobre, mais benigno,
Nem outro símbolo mais límpido, outro signo
Na luta pela liberdade e contra a igno-
Mínia que a uns desonra e que a uns desalma:

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Não quis riqueza, propriedade, nada, neres,
Porém lutou, contra um sistema de poderes,
Pelos direitos para pobres e mulheres,
Pelo respeito à vida de todos os seres –
De cada bicho, cada nicho, cada palma;

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Servindo ao próxmo e ao propósto de igualdade,
Serviu de espelho de e para a humanidade,
Usando a força da palavra e da verdade
E da não cooperação que ainda há de
Banir a instituição colonial má.

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Predecessor do mártir Martin Luther King,
Pregou o amor e a união num grande ringue,
E entre fãs como Albert Einstein se distingue
O fã de Henry Thoreau e Franklin, Benjamin, gui-
-A na África de gente irmã de alma.

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

E foi rebelde e foi xis vezes pra prisão;
E foi vegano e foi um iogue da ação;
E fez jejum, comício, greve e oração;
E fez-se ouvir sobre o clamor da multidão
Com uma fala que era mansa, doce e calma.

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

E conheceu o preconceito racial,
E “bem viveu” a vida simples, natural,
E se tornou celebridade mundial,
Mas declinou de posição oficial,
E almejou bem mais do que levar a palma.

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Mas quem foi esse que pregou que se lutasse
Não apegado ao que da luta resultasse,
Que pela causa se morresse, não matasse,
E ao agressor se oferecesse a outra face?
Foi um político ou um santo em corpo e alma?

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

Mestre da paz, da fé, do afeto, namastê!
Vê quanto ódio e violência hoje, vê!
Faz teu espírito pairar sobre esse aiyê!
Aqui no chão a te evocar, nosso afoxé
Filhos de Gandhy toca e canta e bate palma:

Grande Mahatma Gandhi, ó grande alma!

*

Cole Porter – Canções, Versões – Que De-lindo

“Cole Porter – Canções, Versões – Que De-lindo” (Contracorrente, 2025; edição original da Paulicéia, 1991) – Livro de Carlos Rennó, contendo textos e versões para o português de sua autoria, a partir de canções do compositor. Com textos de Augusto de Campos, Caetano Veloso e Cláudio Leal Ferreira. Nova edição ampliada, com mais textos e versões.

Incrível

No dia em que te vi,
Eu tive uma sensação indescritível.
Eu vi mas nem assim eu cri
No que vi.
Foi mesmo incrível,
Fora do comum.
Foi como se Oxossi achasse Oxum
E já se apaixonasse.

Oh se Oxossi achasse Oxum
E já se apaixonasse…

Agora te rever
E ter a mesma sensação indescritível
De ver e ainda assim não crer,
Pode crer,
É mais incrível,
Fora do comum.
É como se Oxossi achasse Oxum
E já se apaixonasse.

Oh se Oxossi achasse Oxum
E já se apaixonasse…

Composta em 2010.

Dois Movimentos para a Caatinga

“Dois Movimentos Para a Caatinga” (2025) – Projeto de Carlos Rennó e Chico César dedicado à valorização e defesa do bioma Caatinga. Reúne as canções “Uma Defesa da Caatinga” e “Outra Defesa da Caatinga”, com interpretações de Xangai, Juliana Linhares e o Quinteto da Paraíba, e produção musical de César Lacerda.

1- Uma Defesa da Caatinga

Autores:  Carlos Rennó e Chico César.

Voz: Chico César e Xangai

Instrumentos: Quinteto da Paraíba

2- Segunda defesa da caatinga

Autores:  Carlos Rennó, Chico César e César Lacerda

Voz: Chico César e Juliana Linhares

Instrumentos: Quinteto da Paraíba

Outra Defesa da Caatinga

Uma perda tá no ar da caatinga,
E quem sente, dessa perda se ressente.
Sente o rio e a nascente que nem pinga,
O mandacaru, o carcará e a gente.

Tá no olho em que rebrilha a pedra enorme,
Que reflete o sol, o sol mais inclemente.
Tá na voz que clama contra, inconforme,
Com o que torna o clima cada vez mais quente.

Caatinga, caatinga,
Por mais destruída, por mais degradada,
Que a humana ação danada
Não a extinga,
Não a extinga, não.

Da visão da terra desertificando
À de nós da terra desertando, ui!
O desmatamento que vai aumentando
E a diversidade que só diminui…

Muito triste ver seu uso até o fim,
Tanto abuso, tanta perda, tanto dano.
Revoltante ver a caatinga assim,
Esquecida e relegada a sexto plano.

Caatinga, caatinga,
Por mais destruída, por mais degradada,
Que a humana ação danada não a extinga,
Não a extinga, não.

O semiárido se convertendo em árido
Nos converte à luta pela ação vital
Da restauração e a lei que o ampare
Do poder devastador do capital.

Meu clamor é por que a água nunca míngüe
No subsolo do lençol da caatinga;
Que, por toda a fauna-flora que a distingue,
Finalmente o poder público a distinga.

Caatinga, caatinga,
Por mais destruída, por mais degradada,
Que a humana ação danada
Não a extinga,
Não a extinga, não.

Uma Defesa da Caatinga

Um agouro paira aqui na caatinga.
Tudo sente o mau sinal de algum impacto.
Como nunca antes, lá do céu não pinga
Cá no chão, em nós, no pássaro, no cacto.

Tá na luz, no meu cantar, no ar ardente,
Tá na terra que resseca até no brejo.
Mais que todos seres, sente o ser vivente.
Mais que todo ser humano, o sertanejo.

Caatinga, caatinga,
Por mais que seus matos hoje se consomem,
Que a danada ação do homem
Não a extinga,
Não a extinga, não.

O desmando do sistema demandando
Muita água, lenha, gesso, boi, carvão,
O desmate desmedido descambando
Em deserto por dinheiro: perdição…

Exaspera ver a áspera beleza
Reduzida a uma riqueza que é finita.
Emudece ver que, triste, a natureza,
No que muda, silenciosamente grita

Caatinga, caatinga,
Por mais que seus matos hoje se consomem,
Que a danada ação do homem não a extinga,
Não a extinga, não.

Quando fortes trovoadas não reboam
Nos sertões ruidosamente que nem antes,
Aflições em nossos corações ecoam,
De pensarmos em futuros retirantes.

Meu temor é de que jovens que virão
Não verão a mutação da caatinga,
Quando chove e tudo explode em verde novo,
E ao olhar do povo alegre a vida vinga.

Caatinga, caatinga,
Por mais que seus matos hoje se consomem,
Que a danada ação do homem
Não a extinga,
Não a extinga, não.

O Que Está Queimando o Cerrado?

O que está queimando o cerrado por dentro?

O que está serrando o cerrado dês do centro?

E devorando essa floresta subterrânea

Essa diversidade-vida, esses lençóis

Numa voracidade tão veloz

De homens loucos, broncos, ocos

Que salta aos olhos e aperta o peito

Que avança contra e desrespeita os direitos 

Da grande mãe a natureza, 

Com certeza

Essa mulher que nos alenta e alimenta

De vida e beleza

O Que Será do Cerrado

“O Que Será do Cerrado” (Circus Prod. Cultural, 2025) EP de Carlos Rennó e César Lacerda dedicado à preservação do segundo maior bioma brasileiro. Apresenta três canções e três vinhetas, estas narradas por Letícia Sabatella, com participações de Marina Sena, Alexandre Carlo, Ellen Oléria, Saulo Fernandes, Chico Chico, Assucena e a voz indígena de Célia Xakriabá. O trabalho conta com apoio do WWF-Brasil, Instituto Humanize e Bem-te-vi Diversidade, e dá continuidade à trajetória de Rennó na música militante, retomando suas memórias ligadas ao Cerrado e ressaltando a urgência de preservar a “caixa d’água do Brasil”, hoje ameaçada pela devastação.

1- O QUE ESTÁ ROLANDO COM O CERRADO?

Autores: Carlos Rennó e César Lacerda
Voz: Letícia Sabatella

2- O CERRADO AMEAÇADO

Autores: Carlos Rennó e César Lacerda
Voz: Marina Sena e Alexandre Carlo

3- QUE ECONOMIA É ESSA?

Autores: Carlos Rennó e César Lacerda
Voz: Letícia Sabatella

4- O CERRADO DESCUIDADO

Autores: Carlos Rennó e Saulo 
Voz: Célia Xakriabá, Ellen Oléria, Saulo

5- O QUE ESTÁ QUEIMANDO O CERRADO?

Autores: Carlos Rennó e César Lacerda
Voz: Letícia Sabatella

6- O CERRADO SACRIFICADO

Autores: Carlos Rennó e César Lacerda
Voz: Assucena, Chico Chico

Que Economia É Essa?

Que economia é essa que tá minando, 

Liquidando a fonte da vida no cerrado?

Que tá poluindo o ar, a água, a terra, 

As sementes e as gentes dos gerais?

Que não garante o direito à vida 

De quem garante a vida no cerrado?

O quilombola, o indígena, as comunidades tradicionais!

Que riqueza é essa de um mercado 

Que parece ter marcado 

O cerrado pra morrer? 

Quem gosta, cuida, diz o ditado.

Quem gosta da vida, cuida do bem viver.

O Que Está Rolando com o Cerrado?

O que está rolando com o cerrado, que não devia?

O que está atacando o cerrado à nossa revelia?

O que está ameaçando o cerrado como a gente não queria?

O que está secando o cerrado, o nosso filtro,

A nossa grande caixa d’ água?

Pra mais nenhuma nascente morrer,

Pra todo descendente poder nascer,

Deixemos o cerrado,

Deixemos o cerrado ser…

O cerrado. 

E assim deixado novamente solto e livre,

O que agoniza agora no cerrado

Regenera e revive.

O Cerrado Sacrificado

O que será do cerrado?
O que será da caixa dágua do Brasil?
Dessa savana mais diversa do planeta
Dessa floresta subterrânea e invertida
Dessas raízes fundas e lençóis freáticos
Do ser tão grande de veredas e chapadas
Dos Guimarães, dos Veadeiros e das Mesas
Do Parque do Xingu, da Serra da Canastra
Do Jalapão, do Urucuia-Bambuí
De tanta vida envolvida o que será?
Sem a devida proteção, com a pressão
Num padrão desenfreado?

O que será do cerrado?
Se a seca pega fogo e acende o incêndio vil,
Se o ruralista brucutu se locupleta
Com a devastação da flora convertida
Em vasto pasto e plantação monotemática;
Se a mata já pela metade se degrada;
Se o agro tech e pop agride a natureza;
Se o mar sem fim de soja pelo chão se alastra,
E se a nascente morre, e some o buriti,
O tamanduá-bandeira e o lobo-guará?
Será que já marcaram o cerrado então
Para ser sacrificado?

O que vai ser do cerrado
Vai depender
De o deixarmos ser
O cerrado

O que vai ser do cerrado
Vai depender dos feitos e malfeitos mil
Da ação do ser humano macho que decreta
Um crescimento com subtração de vida
E aumento de calor, poluição climática
Um tipo de progresso verde na fachada
De uma noção no fundo pobre de riqueza
À custa de destruição e um grande rastro
Num pique de desmate que num frenesi
Tememos que transmute um ótimo hábitat
Num ermo ao termo de um processo em expansão
Avançado e atrasado

O que vai ser do cerrado
Vai depender
De o deixarmos ser
O cerrado