Arquivo da categoria: Inéditas

Star-Filled Night

Star-Filled Night

Late at night and stars all beaming;
Oh the stillness seems like dreaming
Of a flowing forest river
Like a pouring rain of silver
Splendid moonlight from above.

Though you’re sleeping, it is you who
I´m singing of,
While the moon in all its glory
Can’t but hear the tearful story
Of this love.

Moonlight,
With your silver sheen above me,
Wake this woman oh so lovely.
Oh what longing, ardent yearning,
As my lips for hers keep burning.

Can’t you
Hear me singing as she’s sleeping?
She won’t hear my heart is leaping.
Oh can’t you see?
No, the moon is not sorry for me;
Just because on calling you I insist,
She hides behind the mystic mist.

Now the moon shines with disdain there,
And she´s so pensive and so vain there,
And the stars that seem so calm rise
Like a dizzy flood of fire-flies
O’er the glossy silver moon.

All the starry sky fell silent
To hear the tune,
With your name in the refrain
In complaints so full of pain
To the moon.

Late at night and stars all beaming;
Oh the stillness seems like dreaming
Of a flowing forest river
Like a pouring rain of silver
Splendid moonlight from above.

Though you’re sleeping, it is you who
I´m singing of,
While the moon in all its glory
Can’t but hear the tearful story
Of this love.

Moonlight,
With your silver sheen above me,
Wake this woman oh so lovely.
Oh what longing, ardent yearning,
As my lips for hers keep burning.

Can’t you
Hear me singing as she’s sleeping?
She won’t hear my heart is leaping.
Oh can’t you see?
No, the moon is not sorry for me;
Just because on calling you I insist,
She hides behind the mystic mist.

Now the moon shines with disdain there,
And she´s so pensive and so vain there,
And the stars that seem so calm rise
Like a dizzy flood of fire-flies
O’er the glossy silver moon.

All the starry sky fell silent
To hear the tune,
With your name in the refrain
In complaints so full of pain
To the moon.

Noite Cheia de Estrelas

Noite alta, céu risonho;
A quietude é quase um sonho.
O luar cai sobre a mata
Qual uma chuva de prata
De raríssimo esplendor.

Só tu dormes, não escutas
O teu cantor,
Revelando à lua airosa
A história dolorosa
Deste amor.

Lua,
Manda a tua luz prateada
Despertar a minha amada.
Quero matar os meus desejos,
Sufocá-la com meus beijos.

Canto,
E a mulher que eu amo tanto
Não me escuta, está dormindo.
Canto e por fim
Nem a lua tem pena de mim,
Pois ao ver que quem te chama sou eu
Entre a neblina se escondeu.

Lá no alto a lua esquiva
Está no céu tão pensativa.
As estrelas tão serenas
Qual dilúvio de falenas
Andam tontas ao luar.

Todo o astral ficou silente,
Para escutar
O teu nome entre as endechas,
Tuas dolorosas queixas
Ao luar.

Música e letra de Cândido das Neves (Índio)
1928

*

Triste Estrutura

A gameleira, a jaqueira, o coqueiro, as acácias caídas, tombadas em vão;

O Camarajipe, o Lucaia enterrados e ainda correndo debaixo do chão;

No alto elevado, no asfalto, do lado de mil automóveis, dois ônibus só;

Onde era a paisagem feliz de folhagens a triste estrutura que dói e dá dó.

As sumaúmas caindo uma a uma, sim, a sumaúma, das árvores mãe;

E cem centenárias extraordinárias, e tantas e várias mil plantas de Ossãe;

Por tal natureza de plena beleza, que plano, que reza, ação ou ebó

Reduz tal projeto, tão mau e obsoleto, de piche e concreto, a cinzas e pó?

Ó, orixás, ó meu pai, guardião,

Com um clarão iluminem

Mentes e homens de pouca visão;

Sábios que são, lhes ensinem

Como é sagrado o rio a correr               

E o verde ser que destroem;

Deuses, ecoem no ar nossa voz               

E a todos nós abençoem.

Que não derrubem mas plantem mais árvores e que não tampem o rio a rolar,

E que se resgate a nascente perdida e se escute o pedido da gente a clamar

Que parem a obra que cobra tão caro do povo, da flora e da fauna afinal,

E que sobretudo pro pobre se obre na dura cidade que não é igual.

Ó, orixás, ó meu pai, guardião,

Com um clarão iluminem

Mentes e homens de pouca visão;

Sábios que são, lhes ensinem

Como é sagrado o rio a correr               

E o verde ser que destroem;

Deuses, ecoem no ar nossa voz               

E a todos nós abençoem.

Lágrima

A mulher que eu quero não me quer.
Resta um gosto amargo de amar em vão.
Entro no meu quarto e a solidão me dói.
Eu já nem sei
O que sou eu.

De que vale um homem sem mulher?
Eu sem dona só me dano como um cão.
Ando abandonado e não sei onde ela foi.
Lhe telefonei;
Não atendeu.

Lágrima cai como fel,
Agre, má… cruel.
Lágrima…

No metrô, no trem, no ponto, a pé,
Vejo a sua imagem na imaginação.
Mais do que a ausência, é o silêncio que destrói:
Mensagem mandei;
Não respondeu.

Jogo, filme, show ou DVD
Não distrai a mente nem o coração.
Lá no fundo um arrependimento me remói.
O que farei,
Deus meu…

Lágrima cai como fel,
Agre, má… cruel.
Lágrima…

*

Eu Gosto do Meu Corpo

eu gosto do meu corpo
quando ele está com o seu
eu gosto do seu corpo
do que ele faz com o meu

é o que há de novo
e que se dá de novo

dia após dia
mês após mês
a cada dia
a cada vez
nunca é demais
sempre é demais

eu gosto do meu corpo
e gosto do seu corpo
eu sei do que ele gosta
e gosto do que ele faz

gosto disso, daquilo
daqui, dali
e de tudo mais
e de nada mais

eu gosto do seu corpo
e de fazer o que ele faz
eu gosto do seu corpo
e do prazer que ele me traz

Sincronicidade

Se eu penso em você
Meu marrom-glacê
Logo você dá de
Me ligar sem ninguém saber por quê

Se você, meu bem
Pensa em mim também
Por casualidade
Logo eu apareço aí, vindo do além

Nossa sincronicidade é tão mágica
Que nos conecta sem nenhuma lógica
(Nossa) sincronicidade maluca, é
Tal como um beque tal como um néctar
Para mim e pra você

Se eu penso em ti
Oh meu açaí
Sem causalidade
Chega um torpedo teu logo por aqui

Sim, é sempre assim
Pra você e pra mim
E pra sempre há de
Ser assim para nós dois até o fim

Nossa sincronicidade é tão mágica
Que nos conecta sem nenhuma lógica
(Nossa) sincronicidade maluca, é
Tal como um beque tal como um néctar
Para mim e pra você

Nossa sincronicidade é tão mágica

Oferta de Coração

Recebe
Da minha mão o meu coraçãozinho,
Bota num prato e num copo de vinho,
E come, e bebe.
Mata a tua fome e a tua sede.

Devora tudo devagarinho,
De naco em naco, de trago em trago.
Meu bem, tu já me fez um estrago;
Será que tu não sente, não percebe?

Pois eu acho
Que tu até acha graça…
Então, come, bebe:
Eu te ofereço de graça!
(Pra tua glória ou desgraça…)

Não tento
Com esse tinto te deixar mais tonta; (*)
Se é por instinto que tu só apronta,
Pois então, pronto!
Já passa da conta e do ponto!

Experimenta enquanto tá quente;
Depois esfria, fica uma bosta…
Te dou de coração, de presente…
Não é de carne e vinho que tu gosta?

Então, pegue!
É todo seu, coração…
Vamos, linda, brinde, (**)
Tome o meu coração!
(E leve o resto de brinde…)

______ __________________________
Variantes:
(*) Com esse tinto te deixar mais tonto;
(**) Vamos, lindo, brinde

Noite e Dia (Night and Day)

Como o beat-beat-beat do tantã,
Quando à selva desce um breu;
Como o tique-tique-taque sem nenhum destaque
De um relógio como o meu;
Como o pingo-pingo-pingo das gotas,
Quando já choveu pra chuchu;
Uma voz em mim repete assim: tu, tu, tu…

Noite e dia, só tu, meu bem,
Sob a Lua e sob o Sol não há mais ninguém.
Longe ou perto, coração,
Não importa onde estejas, não,
Eu penso em ti noite e dia.

Dia e noite, por que será
Que a paixão por ti me segue por onde eu vá?
No rumor das ruas, oh,
No silêncio do meu quarto só,
Eu penso em ti, noite e dia.

Noite e dia, bem fundo, ai de mim,
Uma fome tamanha teima, queima e não sai de mim.
Pra ter fim o meu sofrer,
Deixa te fazer amor enquanto eu viver,
Dia e noite, noite e dia.

____________________________________________________

Night and Day

Like the beat beat beat of the tom-tom
When the jungle shadows fall,
Like the tick tick tock of the stately clock
As it stands against the wall,
Like the drip drip drip of the raindrops
When the summer shower is through,
So a voice within me keeps repeating: you – you – you.

Night and day, you are the one,
Only you beneath the moon and under the sun.
Whether near to me or far,
It´s no matter, darling, where you are,
I think of you day and night.

Night and day, why is it so
That this longing for you follows wherever I go?
In the roaring traffic´s boom,
In the silence of my lonely room,
I think of you night and day.

Night and day, under the hide of me
There´s an, oh, such a hungry yearning burning inside of me.
And its torment won´t be through,
Till you let me spend my life making love to you,
Day and night, night and day.

Música e letra de Cole Porter
1935

Hasta! *

* Versão Feminina

Que amor é esse…
Mais parece desamor.
Você ama odiar
Aquilo que cê ama, o seu amor.
Você me aborrece,
Corta o meu tesão;
Por qualquer razão, sem razão,
Arma logo um barraco no meu barracão.

Que amor, que nada…
Quem entende o seu humor
E o seu gosto em desgostar
Aquela que cê gosta, o seu amor?!
Isso me enfada;
Foda, meu irmão;
E como reclama, oh não;
Inclusive na cama faz reclamação.

Basta!
Você só me afasta de você.
Pasto
E só me desgasto com você.
Paz!
Disso eu sou capaz,
Vou seguir em paz sem você.
Basta!
Hasta!

Desse amor me arranco,
Pra fugir do seu rancor.
Você briga por brigar
Com sua grande amiga, o seu amor.
Você nem é franco;
Homem sem noção.
Eu perco a razão, com razão,
Se você cria caso e causa discussão.

Basta!
Você só me afasta de você.
Pasto
E só me desgasto com você.
Paz!
Disso eu sou capaz,
Vou seguir em paz sem você.
Basta!
Hasta!

Cheia de Graça

Cheia de graça mas… de graça cômica,
De apelos visuais é econômica.
E assim nem sempre apraz
Qualquer rapaz.

Sua figura nem de longe helênica
De perto nada tem de fotogênica.
Seu riso causa só
Riso ou dó…

Porém de alma tal,
Não há alguém igual,
Tão nobre, tão sutil;
Um coração sorriu
E só lhe pede que
Não mude um fio de
Cabelo para si.

Falta dos tais fatais dotes estéticos,
Não faz comerciais para cosméticos.
Nem mesmo se produz.
Nunca fez nus.

Por menos uma atriz faria plástica
Na boca, no nariz – e mais ginástica:
Muita musculação…
Mas ela não.

Porém de alma tal,
Não há alguém igual,
Tão nobre, tão sutil;
Um coração sorriu
E só lhe pede que
Não mude um fio de
Cabelo para si,
Pois ele assim a quer,
Sem disfarçar sequer,
Tal como ela é:

Cheia de graça…

Ê Fuzuê

Ê canto & dança a que não me recuso Ê
Beleza que em palavras mal traduzo Ê
Zilhões de luzes, cores, sons num carnaval profuso Ê
Fuzuê

Ê explosão feliz-fugaz de um povo excluso Ê
Bando de gente que nem eu com quem eu cruzo Ê
Bloco de mulamamelucaboclofuso Ê
Fuzuê

Ê gringo branco com razão confuso Ê
Cristão entrando em transe ou parafuso Ê
Que regozijo & gozo & riso de um prazer difuso Ê
Fuzuê

Ê fuzo ê fuzo ê fuzo ê fuzo ê
Fuzuê

Cisma

Seu sorriso é como um sol de pura luz;
Abre um céu de mil azuis,
Me acende e me seduz.

Mas seu coração tão frio, tão lunar,
Misterioso como o mar,
Não me faz senão cismar.

Bela dama que não sei se sabe amar,
Se é amável ou é má,
Sei que veio me abalar –

Por debaixo desse gelo se deduz
O seu facho que reluz
Sutilmente a olhos nus

Só quero ter você,
Ah como eu quero esquecer você.
Distante de você,
Só quero estar diante de você.

Em que praia agora o sol se reproduz
Em sua pele que reluz
Como ouro, a anos-luz?

Em que espaço agora espalha-se ao passar
Sua doce voz no ar,
Tão profunda como o mar?

Só quero ter você,
Ah como eu quero esquecer você.
Distante de você,
Só quero estar diante de você.

Coração Sem Par

Meu coração sem par,
Sempre a querer teimar,
Teima em querer queimar,
Por não poder não amar.

Meu coração não entende
Nem quer saber de razão,
Pois a razão que ele tem de viver
Vem de morrer de paixão.

Eu tento em vão parar
Meu coração – O quê!
Ei-lo outra vez a amar,
De novo em brasa,
Sem parar, porque

Meu coração sem par,
Sempre a querer teimar,
Teima em querer, queimar,
Por não poder não amar.

Meu coração não se entende
Com o saber da razão,
Pois a paixão que ele tem de viver
Vem de morrer de paixão.

Eu tento em vão parar
Meu coração – O quê!
Eis-me outra vez a amar,
De novo em brasa,
Sem parar, porque

Meu coração ímpar,
Sempre a querer teimar,
Teima em querer queimar,
Por não poder não amar.

Ah coração mais rebelde,
Do qual não sou domador;
Vive na vida o papel de
Louco amante do amor.

Pedra Bruta

Que virá do sonho?
Toda bruta.
Que virá do sem som do sonho?
Pedra toda bruta.
Que se verá vir do sem som com cor do sonho?
Pedra preta toda bruta.
E quererá entrar na realidade?
Pedra preta transmudada toda bruta,
Pra fecundar a realidade
E reviver a metade de nada?
Pedra preta azul-luz-transmudada toda bruta.
Que trará então nesse dia
O grande grão da alegria?
Pedra pretablue toda bruta.

Milagre

Milagre!
Multiplicou-se em cem uma semente,
Em mil, em mil e cem, uma somente,
Uma semente só, tão resistente!

Milagre!
Dentro do ventre tal como um cometa,
Entre milhões apenas um gameta,
Não mais do que um gameta, chega à meta.

Milagres como esses são diários,
Mas não milagres extraordinários:
Milagres, mas milagres ordinários.

Milagre!
Que coisa incrível, sim, que coisa louca,
A guerra da saliva em minha boca
E a longa vida, oculta, da minhoca!

Milagre!
A efêmera beleza de uma flor!
O pouco odor, o tom marrom da cor
E a boa forma, firme, de um cocô!

Milagres como esses são diários,
Mas não milagres extraordinários:
Milagres, mas milagres ordinários.

Milagre!
Viver por toda a vida, todavia,
Morrendo e renascendo a cada dia,
Com o pé quente e a cabeça fria.

Milagre!
Provar o sal, o amargo, o doce, o agre!
E derramando a comovida lágri-
Ma, comprovar que a vida é um milagre!

Milagres como esses são diários,
Mas não milagres extraordinários:
Milagres, mas milagres ordinários.

Milagre, ah, milagre, oh, milagre!

Vicissitude

Vai afundar
Na onda do mar da imaginação
Quem não surfar
Por cima da prancha da percepção.

Saiba, porém,
Que a onda que sobe desce e cai;
Assim também,
A onda que vem é a onda que vai.

E entre doença e saúde,
Em toda vicissitude
Pense a palavra que mude
A má condição;

Cante-a com entusiasmo,
Tal quando tem um orgasmo,
E então espante o marasmo
Do coração.

Transformação

Estou no alto de um monte da Mantiqueira em Mairiporã
Almoçando arroz integral, alga, agrião, nabo, abóbora e doce de maçã
O que é fácil hoje será difícil amanhã
A morte é o fruto da vida, disse Omar Khayyam
Estou no alto de um monte da Mantiqueira em Mairiporã

Tudo está relativamente bem
Canta um sabiá, a voz ecoa, voa, volta, vai e vem
Saúde vale mais que ouro, euro, dólar, uon, yuan, yen
Pra ter saúde tem que ficar doente, porém
Tudo está relativamente bem

Uma revolução se processa dentro de mim
Sei que a doença, a fome, a miséria e a guerra nunca terão fim
Nada é inteiramente yang, nem inteiramente yin
Tenho que dizer muitos nãos para dizer um sim
Uma revolução se processa dentro de mim

Meu mestre me falou que o bom é mau e o mau é bom
E que foi o maior orgasmo o da mulher do samurai em “Rashomon”
Uma palavra só detona mais que um megaton
O que não pode um mantra, um mantra com seu som?
Meu mestre me falou que o bom é mau e o mau é bom

Estou à beira do mar, lugar comum
Me refazendo todo, fazendo jejum
Sei que não há só deus, há deusa, e deus não há só um
E o um dá dois, o dois dá três, o três dá tudo e tudo ad-infinitum
Estou à beira do mar, lugar comum

Estou no alto de um monte da Mantiqueira em Mairiporã

Mother’s Heart (Coração Materno)

“Say what you want, oh my dearest,”
Said the loving peasant to the one he loved.
“For you I will steal, I will kill,
Though you cause me sorrow and pain, my beloved.
I just want to prove I adore you,
And worship your being, and for you I sigh.
So say what you want, I implore you,
For me it won´t matter to kill or to die.”

And she coyly answered this way:
“If you love me as much as you say,
If you´re madly in love, then depart,
Go and bring to me your mother´s heart.”
But believing in what he was told,
He ran fast as a flash down the road.
And his dear became so stupefied
That she fell on the pathway and cried.

The peasant enters the cabin,
In front of the altar his mother he sees;
Then he, the demon, starts stabbing
The breast of the lady, who prayed on her knees.
He cuts out her heart, that´s bleeding,
The heart that he wanted, all other hearts above,
And shouts with a voice full of pleading:
“Victoria! Victoria! Here´s my proof of love.”

He was coming back running again,
When he tumbled and broke one leg then.
And his poor mother´s heart fell and rolled
Away from his hard hands down the road.
So a voice echoed under the sun:
“Are you hurt, oh my poor darling son?
Come embrace me, darling, I´m still here,
Come embrace me, I´m still yours, my dear.”

________________________________________________

Disse um campônio à sua amada:
“Minha idolatrada, diga o que quer.
Por ti vou matar, vou roubar,
Embora tristezas me causes, mulher.
Provar quero eu que te quero,
Venero teus olhos, teu porte, teu ser.
Mas diga tua ordem, espero,
Por ti não importa matar ou morrer”.

E ela disse ao campônio, a brincar:
“Se é verdade tua louca paixão,
Parte já e pra mim vai buscar
De tua mãe inteiro o coração”.
E a correr o campônio partiu;
Como um raio na estrada sumiu.
E sua amada qual louca ficou,
A chorar na estrada tombou.

Chega à choupana o campônio;
Encontra a mãezinha ajoelhada a rezar.
Rasga-lhe o peito o demônio,
Tombando a velhinha aos pés do altar.
Tira do peito sangrando
Da velha mãezinha o pobre coração,
E volta a correr proclamando:
“Vitória! Vitória! Tem minha paixão”.

Mas em meio da estrada caiu
E na queda uma perna partiu,
E à distância saltou-lhe da mão
Sobre a terra o pobre coração.
Nesse instante uma voz ecoou:
“Magoou-se, pobre filho meu?
Vem buscar-me, filho, aqui estou,
Vem buscar-me que ainda sou teu!”

Letra e música de Vicente Celestino, 1937

O Anticlichê

Eu corro por dentro, entro pela terra,
Enquanto os outros correm para o mar.
Na contracorrente, saio lá da serra
No rumo do Paraná,
E paro por lá.

Por isso mesmo sei que vou sozinho;
Eu dou as costas ao lugar-comum,
E vou em frente sempre num caminho,
Que não é igual a nenhum.
Assim eu sou um.

Podem me chamar
Marginal,
Porque não corro para o mar,
Contra a lei geral.
Nado contra a maré,
Na contramão vou pro que der e vier.
Sou um antigo anti-heroi, um anticlichê,
Eu, o Tietê, eu, o Tietê,
O anticlichê, eu, o Tietê.

Na serra eu nasço, em São Paulo eu morro.
Depois renasço e vou até o fim.
Por onde eu passo e pra onde eu corro,
Jamais se viu um rio assim;
Eu falo por mim.

Mas assim mesmo sei que estou à margem
De vilas e de vias marginais,
De vales de canaviais, à margem
De zonas e parques rurais
E industriais.

A Minha Lógica

Com
Aqueles bons e velhos dons
De uns joões e outros johns
Juntei palavra, cor e som
Com a cabeça e o coração
E certamente com tesão
Armei no ar uma canção
Harmoniosa de artesão
Da arte que tem bossa

Mas você
Com desdém
Vem com essa prosa
– Num-sei-quê,
Num-sei-quem –
Que já é famosa
Ora, ora, ora
Pouco faz
E desfaz
Muito de quem faz e elabora

É
Que a sua ótica não vê
A minha lógica, nem crê
Na onda mágica, o bom
Da matemática do som
De uma música no ar
Arquitetura a flutuar
No ato puro de tocar
Samba, canção ou rock

Se você
É capaz
Cante, dance, toque
Mas não dê
Nunca mais
Um tão tonto toque
Se o seu palpite
Infeliz
Me maldiz
Me diz bem quão chão é o seu limite

Sim
Que a mim é dado e cabe a mim
O mais sonoro e claro sim
À arte, à vida, à criação
Tudo que eu canto com paixão
E tal clareza que transluz
Com vida própria e traduz
A própria vida e traz à luz
Seus sonhos escondidos

Pra você
Me ouvir
Meu rapaz, se deixe
Envolver
Seduzir
Ou em paz me deixe
Antes não evite
Venha cá
Vamos lá
Ao deleite, aceite o meu convite

Pois
Acima dessas discussões
Só a beleza das canções
É o que ficará depois
De tanto quanto se compôs
Brilhando como essa voz
Voando e ecoando em nós
Em pleno espaçotempo