Arquivo da categoria: Canções

O Homem que Partiu (The Man That Got Away)

2009_NEGO_Cancoes_americanas_em_versoes_brasileiras_1024

de “Nego”, de Carlos Rennó

O vento gela,
O céu não tem estrela,
A noite enfada,
E tu, tão acabada –
De tudo a causa é o homem que partiu.

Não mais seu papo a fim,
E há um sinal ruim;
Teu sonho acaba enfim
No vazio.

Quem te fatura,
Dá o fora e te tritura.
Um grande início
Tem um final difícil.
Não entendes nada.
É um jogo louco e mau!

Não mais aquele “ah!”;
Passaste por todas já;
Jamais novo amor virá
A ser igual.

Vai tarde, tchau, tchau!
Já não cais num truque dele.
Mas tola é tola –
E quede ele?

A estrada é dura,
Deserta e sem brandura.
A espera estressa –
Quem sabe ele apareça.
Não para nunca,
É dia e noite a fio.

Dês que o mundo mundo é,
Coisa mais triste é mulher
De um só homem
Aguardando o homem que partiu…

O homem que partiu.

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The night is bitter,
The stars have lost their glitter;
The winds grow colder
And suddenly you’re older –
And all because of the man that got away.

No more his eager call,
The writing’s on the wall;
The dreams you dreamed have all
Gone astray.

The man that won you
Has run off and undone you.
That great beginning
Has seen its final inning.
Don’t know what happened.
It’s all a crazy game.

No more that all-time thrill,
For you’ve been through the mill –
And never a new love will
Be the same.

Good riddance, good-bye!
Ev´ry trick of his you’re on to.
But fools will be fools –
And where’s he gone to?

The road gets rougher,
It’s lonelier and tougher.
With hope you burn up –
Tomorrow he may turn up.
There’s just no let-up
The live-long night and day.

Ever since this world began,
There is nothing sadder than
A one man woman
Looking for the man that got away…

The man that got away.

Música de Harold Arlen e letra de Ira Gershwin, 1954

O Bobo e o Babaca (The Babbitt and the Bromide)

2009_NEGO_Cancoes_americanas_em_versoes_brasileiras_1024

de “Nego”, de Carlos Rennó

Um Bobo e um Babaca, num passeio à beira-mar,
Se topam e papeiam no seu jeito singular.
Os dois são respeitáveis, cada qual um cidadão,
E a gente logo nota que eles têm os pés no chão.

– Olá! – Como está?
– Diga aí! – Que que há?
– Tô bem! – Legal!
– Haha! – Menos mal!
– Bem, bem… – E então?
– Lindo dia! – Como não?
– E o pessoal? – Que que há?
– Que bom! – Como está?

O tempo ´tá bonito mas me dói olhar o céu:
Saí de guarda-chuva e obviamente não choveu.

– Ai, ai! – É a vida!
– E a patroa? – E a lida?
– Já ´tá tarde! – Meu Deus!
– ´Tão tá! – Fica assim… – Adeus!

Dez anos se passaram pr´esses homens essenciais,
Até que se toparam por acaso uma vez mais.
Que os dois evoluíram não há dúvida pra gente,
E assim os dois têm muito o que contar, naturalmente.

– Olá! – Como está?
– Diga aí! – Que que há?
– Tô bem! – Legal!
– Haha! – Menos mal!
– Bem, bem… – E então?
– Lindo dia! – Como não?
– E o pessoal? – Que que há?
– Que bom! – Como está?

Já vi a sua cara, mas seu nome é mesmo qual?
Ah, como está, garoto? ´Cê não muda, tá igual!

– Ai, ai! – É a vida!
– E a patroa? – E a lida?
– Já ´tá tarde! – Meu Deus!
– ´Tão tá! – Fica assim… – Adeus!

Vinte anos mais se passam; de repente no jardim
Da casa de São Pedro reencontram-se por fim.
Asinhas têm nas costas, e nas mãos têm uma harpinha,
Que os dois vão dedilhando, entoando a ladainha:

– Olá! – Como está?
– Diga aí! – Que que há?
– Tô bem! – Legal!
– Haha! – Menos mal!
– Bem, bem… – E então?
– Lindo dia! – Como não?
– E o pessoal? – Que que há?
– Que bom! – Como está?

Você ficou um pouco mais cheinho, me parece;
Ei, vem me visitar e tomar uma um dia desse.

– Ai, ai! – É a vida!
– E a patroa? – E a lida?
– Já ´tá tarde! – Meu Deus!
– ´Tão tá! – Fica assim… – Adeus!

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A Babbitt met a Bromide on the avenue one day.
They held a conversation in their own peculiar way.
They both were solid citizens – they both had been around.
And as they spoke you clearly saw their feet were on the ground:

– Hello! – How are you?
– Howza folks? – What´s new?
– I´m great! – That´s good!
– Ha! Ha! – Knock wood!
– Well! Well! – What say?
– Howya been? – Nice day!
– How´s tricks? – What´s new?
– What´s fine! – How are you?

Nice weather we are having but it gives me such a pain:
I’ve taken my umbrella so of course it doesn’t rain.

– Heigh ho! – That´s life!
– What´s new? – Howza wife?
– Gotta run! – Oh, my!
– Ta! Ta! – Olive oil! – Good bye!

Ten years went quickly by for both these sub-sti-an-tial men,
And then it happened that one day they chanced to meet again.
That they had both developed in ten years there was no doubt,
And so of course they had an awful lot to talk about.

– Hello! – How are you?
– Howza folks? – What´s new?
– I´m great! – That´s good!
– Ha! Ha! – Knock wood!
– Well! Well! – What say?
– Howya been? – Nice day!
– How´s tricks? – What´s new?
– What´s fine! – How are you?

I’m sure I know your face, but I just can’t recall your name;
Well, how´ve you been, old boy, you’re looking just about the same.

– Heigh ho! – That´s life!
– What´s new? – Howza wife?
– Gotta run! – Oh, my!
– Ta! Ta! – Olive oil! – Good bye!

Before they met again some twenty years they had to wait,
This time it happened up above inside St. Peter’s gate.
A harp each one was carrying and both were wearing wings,
And this is what they sang as they were strumming on the strings:

– Hello! – How are you?
– Howza folks? – What´s new?
– I´m great! – That´s good!
– Ha! Ha! – Knock wood!
– Well! Well! – What say?
– Howya been? – Nice day!
– How´s tricks? – What´s new?
– What´s fine! – How are you?

You’ve grown a little stouter since I saw you last, I think.
Come up and see me sometime and we’ll have a little drink.

– Heigh ho! – That´s life!
– What´s new? – Howza wife?
– Gotta run! – Oh, my!
– Ta! Ta! – Olive oil! – Good bye!

Música de George Gershwin e letra de Ira Gershwin, 1927

Verão (Summertime)

2009_NEGO_Cancoes_americanas_em_versoes_brasileiras_1024

de “Nego”, de Carlos Rennó

É verão,
E a vida tá boa.
Quanto peixe!
E que lindo o algodão!
O papai tá rico
E a mamãe tá bonita.
Então, nenenzinho,
Chora não.

Um dia desses
Vais acordar cantando,
Vais abrir as asas
E o céu atingir.
Até tal dia,
Nada vai te fazer mal,
Com o papi e a mami
Junto a ti.

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Summertime,
And the livin’ is easy.
Fish are jumpin’
And the cotton is high.
Oh, your daddy’s rich
And your mom’s good lookin’.
So, hush, little baby,
Don’t you cry.

One of these mornings
You’re going to rise up singing.
Then you’ll spread your wings,
And you’ll take to the sky.
But till that morning
There’s a’ nothing can harm you,
With daddy and mommy
Standing by.

Música de George Gershwin e letra de Ira Gershwin e Dubose Heyward, 1935

Tenho um Xodó Por Ti (I´ve Got a Crush on You)

2009_NEGO_Cancoes_americanas_em_versoes_brasileiras_1024

de “Nego”, de Carlos Rennó

Seriam tão felizes
Joanas, Beatrizes,
Ah se
Ganhassem-me.

Você, tão persistente,
A mim, tão resistente,
Venceu –
E convenceu.

Oh meu grande e elegante, meu Romeu,
Sei que te ganhei, não sei como ocorreu.

Nem és assim perfeito,
Mas agitou meu peito
Te ver
Aparecer.

Tenho um xodó por ti,
Pão de mel;
Ando suspirando
Pra dedéu.
Eu nunca tive em mente
Me apaixonar tão intensamente.

Que tal eu,
Que tal tu,
Num chalé charmoso
Pra chuchu?
Do meu chamego tem dó,
Que eu tenho um xodó,
Meu broto, por ti.

Tenho um xodó por ti,
Pão de mel;
Ando suspirando
Pra dedéu.
Não é só azaração;
Provamos que há predestinação.

Topo eu,
Topo tu,
No chalé charmoso
Pra chuchu.
O teu chamego dá dó,
Que eu tenho um xodó,
Meu broto, por ti.

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How glad the many millions
Of Annabelles and Lillians
Would be
To capture me.

But you had such persistence
You wore down my resistance.
I fell –
And it was swell.

You´re my big and brave and handsome Romeo.
How I won you, I shall never, never know.

It´s not that you´re attractive –
But oh, my heart grew active
When you
Came into view.

I´ve got a crush on you,
Sweetie pie.
All the day and night-time
Hear me sigh.
I never had the least notion
That I could fall with so much emotion.

Could you coo?
Could you care
For a cunning cottage
We could share?
The world will pardon my mush,
´Cause I´ve got a crush,
My baby, on you.

I´ve got a crush on you,
Sweetie pie.
All the day and night-time
Hear me sigh.
This isn´t just a flertation;
We´re proving that there´s predestination.

I could coo,
I could care
For that cunning cottage
We could share.
Your mush I never shall shush,
´Cause I´ve got a crush,
My baby, on you.

Música de George Gershwin e letra de Ira Gershwin, 1928

Sou Fiel

 

Sou fiel de coração
Sou fiel a uma paixão
Sou fiel, graças a Deus
Sou fiel a uma religião

Timão, ê-ô
Timão eu sou

Eu sou a garra dos gaviões
Eu sou a raça nas decisões
Eu sou a farra nas explosões

Sou fiel de coração
Sou fiel a uma paixão
Sou fiel, graças a Deus
Sou fiel a uma religião

Timão, ê-ô
Timão eu sou

Eu sou quase 30 milhões
De corações fiéis
Ao campeão dos campeões
Eu sou uma nação

Sou fiel de coração
Sou fiel a uma paixão
Sou fiel, graças a Deus
Sou fiel a uma religião

Timão, ê-ô
Timão eu sou

Eu sou o pavilhão 9
Sou a camisa 12
E a estrela do timão
Eu sou uma nação

Sou fiel de coração
Sou fiel a uma paixão
Sou fiel, orra meu
Sou fiel a uma religião

Ê-o timão
Eu sou timão
Eu sou fiel
Sou uma nação

Coração Sem Par

Meu coração sem par,
Sempre a querer teimar,
Teima em querer queimar,
Por não poder não amar.

Meu coração não entende
Nem quer saber de razão,
Pois a razão que ele tem de viver
Vem de morrer de paixão.

Eu tento em vão parar
Meu coração – O quê!
Ei-lo outra vez a amar,
De novo em brasa,
Sem parar, porque

Meu coração sem par,
Sempre a querer teimar,
Teima em querer, queimar,
Por não poder não amar.

Meu coração não se entende
Com o saber da razão,
Pois a paixão que ele tem de viver
Vem de morrer de paixão.

Eu tento em vão parar
Meu coração – O quê!
Eis-me outra vez a amar,
De novo em brasa,
Sem parar, porque

Meu coração ímpar,
Sempre a querer teimar,
Teima em querer queimar,
Por não poder não amar.

Ah coração mais rebelde,
Do qual não sou domador;
Vive na vida o papel de
Louco amante do amor.

Pronto pra Próxima

2009_Joao_Bosco_Nao_Vou_pro_Ceu__Mas_Ja_Nao_Vivo_no_Chao_1024

de “Não Vou Pro Céu Mas Já Não Vivo no Chão”, de João Bosco

Ela incendiou meus dias mornos e normais,
Muito embora às vezes meio tonta…

Mas qualquer mulher não faz as coisas que ela fez;
Mais prazer não dá do que me dava toda vez.
Negra, linda, leve, nova, vejam vocês,
Com nitidez:
Eis minha ex.

Diante do eclipse desse amor,
Ante seu anti-resplendor,
A noite vem reacender
Memórias do calor e do clarão
De cada instante de explosão
Irradiante de prazer.

Me tirando o sono e roubando a minha paz,
O desassossego toma conta.

Portanto o que me importa é pôr um ponto
Enfim nas contas desse amor,
Em cada contra, em cada pró,
E me dispor pro próximo e estar pronto
E ir ao encontro do que for:
O que já era já é pó.

Quero agora uma nova ela,
Pro meu dia irradiar
E meu coração sorrir;
Uma nova ela, nova estrela,
Pr’eu seguir e me guiar,
Me guiar e me seguir.

Pintura

2009_Joao_Bosco_Nao_Vou_pro_Ceu__Mas_Ja_Nao_Vivo_no_Chao_1024

de “Não Vou Pro Céu Mas Já Não Vivo no Chão”, de João Bosco

Céu azul, azul, azul;
Cor-de-rosa pôr-do-sol;
Véu da aurora boreal;
Mar de estrelas lá no céu;
Luz de fogos na amplidão;
Lua-prata qual CD;
Preto eclipse do esplendor;
Arco-íris multicor:

Tudo, tudo isso não
Chega perto de você,
De seus olhos, seu olhar,
Suas pernas, seu andar,
Sua cara, coração,
Sua boca e um não-sei-quê,
De sua pele, sua cor –
Do seu corpo, meu amor…

Verdes pampas lá do Sul;
Costa Branca igual lençol;
Na vazante, o Pantanal;
Barcelona, Parque Guell;
Monte Fuji no Japão;
Garopaba em SC;
Amazônia, selva em flor;
Mar azul de Salvador:

Tudo, tudo isso não
Chega perto de você,
Nem da graça nem da cor
Do seu corpo, meu amor…

Agora Sim

Amor assim, não tem, não, quem não queira
Quem me quer bem, é bem quem eu queria
Agora sim me sinto mais inteira
No meu caminho, nessa companhia

Agora sim me sinto mais inteira
No meu caminho, nessa companhia

Agora eu tenho quem come em minha mão
Que antes só, só em sonho eu tinha
Quem me completa mente e coração
E tá completamente sim, na minha

Dona Melancolia já não me detona sem dó
E a senhora Alegria já não me abandona
Pois agora eu não sou só eu só

(2x)

Agora eu tenho e ninguém me tira
Eu tenho amor que não é de mentira
Agora eu tenho quem eu tinha em mira
Eu tenho quem me tem e me admira

Amor assim…

Tá?

2009_Mariana_Aydar_Peixes_Passaros_Pessoas_1024

de “Peixes Pássaros Pessoas”, de Mariana Aydar

Pra bom entendedor meia palavra bas-
Eu vou denunciar a sua ação nefas-
Você amarga o mar, desflora a flores-
Por onde você passa, o ar você empes-
Não tem medida a sua sanha imediatis-
Não tem limite o seu sonho consumis-
Você deixou na mata uma ferida expos-
Você descora as cores dos corais na cos-
Você aquece a terra e enriquece à cus-
Do roubo do futuro e da beleza augus-
Mas de que vale tal riqueza, grande bos-
Parece que de neto seu você não gos-
Você decreta morte à vida ainda em vis-
Você declara guerra à paz por mais benquis-
Não há em toda a fauna um animal tão bes-
Mas já tem gente vendo que você não pres-
Não vou dizer seu nome porque me desgas-
Pra bom entendedor meia palavra bas-

Tá?

Não Dá Pé

2011_Edu_Leal_Vida_Nova_1024

de “Vida Nova”, de Edu Leal.

Aqui, sem jacarandá,
Sem cambuci e sem jerivá,
Não dá, não dá;
Sem pau-marfim,
Sem resedá
E sem ipê,
Em SP,
Não dá, não dá,
Não dá pé!
Não dá pé!

Com tipuana e com pitangueira,
Aí dá pé, aí dá pé;
Sibipiruna, jabuticabeira,
Aí dá pé;
Com alfeneiro e com quaresmeira,
Aí dá pé, aí dá pé;
Pau-ferro, ipê-roxo, ipê-amarelo,
Aí dá pé.

Excesso
De cinza e escassez
De verde.
Extensas plantações
De prédios
E quarteirões
Inteiros
Sem uma árvore,
Ali em Santa Cecília e
Lá no Brás, lá na Sé.
Nenhum pé!
E só no mês de abril
Três mil
Já foram para o chão.
Ergueram mais torres altas.
Tal verticalização
Não dá pé!

Porém, com jacarandá,
Com cambuci e com jerivá,
Dá, sim, dá, sim;
Com pau-marfim,
Com resedá
E com ipê,
Em SP,
Dá, sim, dá, sim,
Sim, dá pé!
Assim, dá pé!

Aqui, sem jacarandá,
Sem cambuci e sem jerivá,
Não dá, não dá;
Sem pau-marfim,
Sem resedá
E sem ipê,
Em SP,
Não dá, não dá,
Não dá pé!

Show de Estrelas

2010_Marcelo_Jeneci_Feito_pra_acabar_1024

de “Feito pra Acabar”, de Marcelo Jeneci

Para Tomio Kikuchi

Era uma chuva, era um show de estrelas;
Chovia estrelas a granéu. (*)
Eram milhares de estrelas, uma chuva delas,
Caindo lá no chão do céu.

E
Diante da visão do firmamento,
Um pensamento vem ao coração:
De
Que cada um de nós não é senão uma estrela,
A brilhar no céu do chão.

Todos nós,
A brilhar, a brilhar,
Somos como luas e sóis
A girar, a girar…

E a chuva não cessava a sucessão
De pingos lá no chão do céu.
Era uma chuva de granizo de estrela em grão;
Chovia estrelas a granel.

E
Diante da visão do firmamento,
Na mente um sentimento se produz:
De
Que cada um de nós não é senão uma estrela,
Cada um, um ser de luz.

Todos nós,
A brilhar, a brilhar,
Somos sete bilhões de faróis,
A girar, a girar,
Tal como luas e sóis
A brilhar, a brilhar,
Como sete bilhões de faróis,
Todos nós, todos nós.

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Variante:

(*) Chovia estrela pra dedéu.

O Pássaro Pênsil

2008_Flavio_Henrique_Passaro_Pensil_1024

de “O Pássaro Pênsil”, de Flávio Henrique

Parar
Pra não pensar,
Pra compensar,
Pra valer.
Parar
Pra não pirar,
Pra respirar,
Pra viver.
Parar
Pra não se atar,
Pra não se ater
Só ao ter.
Parar
Para se ater
Só ao ser.

Parar
Sem o fazer,
Sem afazer,
Sem dever.
Sem ver
Mais que horas são,
Mas que oração
Se dizer.
Orar
De cor, ação
De coração
E saber
Entrar-
Se, concentrar-
Se no ser.

Pense o espaço e o pássaro lá,
Pênsil, parado no ar;
Pense-o pairando, parando pra continuar…

Parar
Pra se calar,
Pra se falar,
Sem dizer.
Parar
Para zerar,
Para rezar,
Bendizer.
Parar
Pra desplugar-
Se desligar-
Se do ter.
Parar
Pra religar-
Se no ser.

Pense o espaço e o pássaro lá,
Pênsil, parado no ar;
Pense-o pairando, parando pra continuar…

Coragem, Coração

2008_Ney_Matogrosso_Inclassificaveis_1024

de “Inclassificáveis”, de Ney Matogrosso

Ó meu querido amigo,
Conte comigo
E com a minha força.
Pra que cê finalize
A sua crise,
Como eu não há quem torça.

No meio dessa bruma,
É cada uma
Que a gente às vezes engole…
Mesmo com essa porra,
Cara, não corra;
Eu sei que não tá mole.

Tá duro, mas enfrente,
E siga em frente,
Que do seu lado eu sigo.
E antes que um vento assopre-o,
Diga a si próprio,
Meu amigo:

“Coragem, coração, se joga!”
Como corações se jogam.
Então, se liga só no slogan:
Coragem, coração, se joga!,
Que eu te dou a minha mão.
Enquanto alguém no chão se droga,
Coragem, meu irmão, se joga!

Respire fundo como um yogue;
Saia pro mundo, caia do blog;
Na batida da vida se jogue.

Na falta de esperança,
Auto-confiança
E de auto-controle,
Vou ser o solidário
Ser que o ampare, o ser
Que vai comparecer.

E antes que um vento assopre-o,
Diga a si próprio,
Meu amigo:

“Coragem, coração, se joga!”
Como corações se jogam.
Então, se liga só no slogan:
Coragem, coração, se joga!,
Que eu te dou a minha mão.
Enquanto alguém no chão se droga,
Coragem, meu irmão, se joga!

Enquanto alguém no chão se droga
Coragem, coração!

Lema

2008_Ney_Matogrosso_Inclassificaveis_1024

de “Inclassificáveis”, de Ney Matogrosso

Não vou lamentar
A mudança que o tempo traz, não,
O que já ficou para trás
E o tempo a passar sem parar jamais.

Já fui novo, sim; de novo, não…
Ser novo pra mim é algo velho.
Quero crescer,
Quero viver o que é novo: sim,
O que eu quero, assim,
É ser velho.

Envelhecer,
Certamente com a mente sã,
Me renovando,
Dia a dia, a cada manhã,
Tendo prazer,
Me mantendo com o corpo são –
Eis o meu lema,
Meu emblema, eis o meu refrão.

Mas não vou dar fim
Jamais ao menino em mim,
Nem dar de não mais me maravilhar
Diante do mar e do céu da vida.

E ser todo ser, e reviver,
A cada clamor de amor e sexo,
Perto de ser
Um deus e certo de ser mortal,
De ser animal
E ser homem,

E envelhecer,
Certamente com a mente sã,
Me renovando,
Dia a dia, a cada manhã,
Tendo prazer,
Me mantendo com o corpo são:
Eis o meu lema,
Meu emblema, eis o meu refrão.

Eis o meu lema,
Meu emblema, eis minha oração.

Esse Rio

2008_Vicente_Barreto_Vicente_1024

de “Vicente”, de Vicente Barreto

Veja só esse rio,
Que lentamente flui,
E o fio
Que se dilui
Nesse rio
E o polui.

Eu já tomei banho aqui,
Antes o meu pai tomou;
Água que daqui bebi,
Ih, sujou…
Era linda e límpida;
Hoje nela se espalhou
Uma espuma química;
Oh que horror…

Um saco plástico
Flutua à sua flor,
E ao redor
Turva o ar
Um fedor
De amargar.

E eu já tomei banho aqui,
Antes o meu pai tomou;
Um lugar sagrado se
Degradou.
Ói só o que o homem fez!
Era necessário? Não.
Ói só que insensatez!
Sem-razão!

Carcaça de automóvel, peça de museu:
É pau, calhau, metal, papel;
É tanto objeto;
É tão abjeto:
É dejeto,
É pneu,
É garrafa pet…
Água igual tapete
Mal reflete
O alto céu.

E eu já tomei banho aqui.
Antes o meu pai tomou.
Um lugar sagrado se
Degradou…
Hoje é um depósito
De lixo aquele rio;
É um despropósito,
-ta que pariu!

É Fogo

2008_Lenine_Labiata_1024

de “Labiata”, de Lenine

Éramos uma pá de “apocalípticos”,
De meros “hippies”, com um “falso” alarme…
Economistas, médicos, políticos
Apenas nos tratavam com escárnio.

Nossas visões se revelaram válidas,
E eles se calaram – mas é tarde.
As noites ’tão ficando meio cálidas…
E um mato grosso em chamas longe arde:

O verde em cinzas se converte logo, logo…

É fogo! É fogo!

Éramos “uns poetas loucos, místicos”…
Éramos tudo o que não era são;
Agora são – com dados estatísticos –
Os cientistas que nos dão razão.

De que valeu, em suma, a suma lógica
Do máximo consumo de hoje em dia,
Duma bárbara marcha tecnológica
E da fé cega na tecnologia?

Há só um sentimento que é de dó e de malogro…

É fogo… é fogo…

Doce morada bela, rica e única,
Dilapidada – só – como se fôsseis
A mina da fortuna econômica,
A fonte eterna de energias fósseis,

O que será, com mais alguns graus Celsius,
De um rio, uma baía ou um recife,
Ou um ilhéu ao léu clamando aos céus, se os
Mares subirem muito, em Tenerife?

E dos sem-água o que será de cada súplica, de cada rogo?

É fogo… é fogo…

Enquanto a emissão de gás carbônico
Sobe na América do Norte e na China,
No coração da selva amazônica
Desmatam uma Holanda: uma chacina!

Ó assassinos bárbaros frenéticos!
Ó gente má, ignara, vil, ignóbil!
Ó cínicos com máscara de céticos!
Ó antiéticos da ExxonMobil!

O estrago vai ser pago pela gente pobre toda;

É foda! É foda…

Em tanta parte, do Ártico à Antártida,
Deixamos nossa marca no planeta:
Aliviemos já a pior parte da
Tragédia anunciada com trombeta.

Mais que bilhões de vidas, é a vida em jogo.

É fogo.

O Pássaro Pênsil

2010_Elisa_Paraiso_Da_Maior_Importancia_1024

de “Da Maior Importância”, de Elisa Paraíso

Parar
Pra não pensar,
Pra compensar,
Pra valer.
Parar
Pra não pirar,
Pra respirar,
Pra viver.
Parar
Pra não se atar,
Pra não se ater
Só ao ter.
Parar
Para se ater
Só ao ser.

Parar
Sem o fazer,
Sem afazer,
Sem dever.
Sem ver
Mais que horas são,
Mas que oração
Se dizer.
Orar
De cor, ação
De coração
E saber
Entrar-
Se, concentrar-
Se no ser.

Pense o espaço e o pássaro lá,
Pênsil, parado no ar;
Pense-o pairando, parando pra continuar…

Parar
Pra se calar,
Pra se falar,
Sem dizer.
Parar
Para zerar,
Para rezar,
Bendizer.
Parar
Pra desplugar-
Se desligar-
Se do ter.
Parar
Pra religar-
Se no ser.

Pense o espaço e o pássaro lá,
Pênsil, parado no ar;
Pense-o pairando, parando pra continuar…

Vivo


de “Onda Tropicale”, de Fiorella Manoia

Precario, provvisorio, dispersivo,
Erroneo, transitorio, transitivo,
Effimero, fugace e passegero:

Ecco qui un vivo.

Impuro, imperfetto, impermanente,
Incerto, incompleto, incostante,
Instabile, variabile, emotivo:

Ecco qui un vivo.

E affrontando,
Il traffico, del traffico equivoco;
Il tossico, del transito nocivo;
La droga e l’indigesto digestivo;
Il male che minaccia il corpo vivo,
La mente, il mal dell’ente collettivo;
Il sangue, il mal del sieropositivo;
E affrontando queste realtà,
Il vivo afferma, fermo, affermativo:

“Quel che vale davvero è restar vivo”.

Sospeso, non perfetto, non completo,
Non soddisfatto mai, ne mai contento,
Così incompiuto e non definitivo:

Ecco qui un vivo.
Eccomi!

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Precário, provisório, perecível,
Falível, transitório, transitivo,
Efêmero, fugaz e passageiro:

Eis aqui um vivo.

Impuro, imperfeito, impermanente,
Incerto, incompleto, inconstante,
Instável, variável, defectivo:

Eis aqui um vivo.

E apesar
Do tráfico, do tráfego equívoco,
Do tóxico do trânsito nocivo;
Da droga do indigesto digestivo;
De o câncer vir do cerne do ser vivo;
Da mente, o mal do ente coletivo;
Do sangue, o mal do soropositivo;
E apesar dessas e outras,
O vivo afirma, firme, afirmativo:

“O que mais vale a pena é estar vivo!”

Não feito, não perfeito, não completo,
Não satisfeito nunca, não contente,
Não acabado, não definitivo:

Eis aqui um vivo.

Eis-me aqui.

Letra de Carlos Rennó, 2004

Fogo e Gasolina

2007_Roberta_Sa_Que_Belo_Estranho_Dia_Pra_Se_Ter_Alegria_1024

de “Que Belo Estranho Dia Pra Se Ter Alegria”, de Roberta Sá

Você é um avião – eu sou um edifício
Eu sou um abrigo – você é um míssil
Eu sou a mata – você a moto-serra
Eu sou um terremoto – e você a terra

O nosso jogo é perigoso, menina
Nós somos fogo, nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina

Você é o fósforo – eu sou o pavio
Você é um torpedo – eu sou o navio
Você é o trem – e eu sou o trilho
Eu sou o dedo – e você é o meu gatilho

O nosso jogo é perigoso, menina
Nós somos fogo, nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina

Eu sou a veia – você é a agulha
Eu sou o gás – você é a fagulha
Eu sou o fogo – e você a gasolina
Eu sou a pólvora – e você a mina

O nosso jogo perigoso combina
Nós somos fogo, nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina