O que será do cerrado,
O filtro do Brasil, da América profunda?
Da planta que retém a chuva do ambiente
Se a água já pelas raízes não afunda
Em um lençol do qual aflora na nascente
De água pura e cristalina de um aquífero
Desse bioma de água doce tão prolífero,
O pai do Prata, Tocantins e São Francisco*,
O receptor e distribuidor de vida,
De vida líquida, correndo grave risco
De vida que o agro tóxico liquida,
Como um ciclo enterrado.
O que será do cerrado?
Pois há cerrado em pé pois há quem tem o pé
No chão de um povo dos gerais, tradicional,
De um quilombola, de um indígena que é
Encurralado ou invadido no final
Pelo grileiro, o garimpeiro, o fazendeiro,
Pelo empresário, pelo latifundiário,
O madeireiro, o incendiário, o sementeiro
Da violência aflita do conflito agrário,
Por uma usina, rodovia ou ferrovia
Cortando o verde como numa cirurgia
Sob as ordens do mercado.
O que vai ser do cerrado
Vai depender
De o deixarmos ser
O cerrado
O que vai ser do cerrado
Vai depender duma adoção de paradigma
De modo produtivo sem o mau estigma
Do molde predatório de commodities
De exportação, de estilo colonial e mono,
Que deixa o córrego e o rio por um triz
E que libera mil estoques de carbono,
Proibitivos agrotóxicos que tornam
Cem entes vivos em doentes ou em mortos,
E n transgênicas sementes que transtornam
A planta, a erva, a árvore de troncos tortos,
Arrancada sem cuidado.
O que vai ser do cerrado
Vai depender
De o deixarmos ser
O cerrado