Arquivo da categoria: Célia Xakriabá

O Cerrado Descuidado

O que será do cerrado,
O filtro do Brasil, da América profunda?
Da planta que retém a chuva do ambiente
Se a água já pelas raízes não afunda
Em um lençol do qual aflora na nascente
De água pura e cristalina de um aquífero
Desse bioma de água doce tão prolífero,
O pai do Prata, Tocantins e São Francisco*,
O receptor e distribuidor de vida,
De vida líquida, correndo grave risco
De vida que o agro tóxico liquida,
Como um ciclo enterrado.

O que será do cerrado?
Pois há cerrado em pé pois há quem tem o pé
No chão de um povo dos gerais, tradicional,
De um quilombola, de um indígena que é
Encurralado ou invadido no final
Pelo grileiro, o garimpeiro, o fazendeiro,
Pelo empresário, pelo latifundiário,
O madeireiro, o incendiário, o sementeiro
Da violência aflita do conflito agrário,
Por uma usina, rodovia ou ferrovia
Cortando o verde como numa cirurgia
Sob as ordens do mercado.

O que vai ser do cerrado
Vai depender
De o deixarmos ser
O cerrado

O que vai ser do cerrado
Vai depender duma adoção de paradigma
De modo produtivo sem o mau estigma
Do molde predatório de commodities
De exportação, de estilo colonial e mono,
Que deixa o córrego e o rio por um triz
E que libera mil estoques de carbono,
Proibitivos agrotóxicos que tornam
Cem entes vivos em doentes ou em mortos,
E n transgênicas sementes que transtornam
A planta, a erva, a árvore de troncos tortos,
Arrancada sem cuidado.

O que vai ser do cerrado
Vai depender
De o deixarmos ser
O cerrado

As Cotas

O preto, o pardo, o indígena, no final das contas,
O pobre, o excluído, foi levado em conta,
E o colorido das escolas tomou conta,
Num não à colonização e numa afronta
À escravidão e à exclusão escrotas,
Com as cotas.

E de orgulho renovou-se a nossa cota,
E de alegria que revive e não se esgota
E que resgata o sonho, a esperança morta.
E campi renovaram-se com outras
Visões e perspectivas, percepções e óticas,
Com as cotas.

As cotas abrem portas e comportas
Duma represa de potências que brotam,
E mudam mundos, mudam vidas que importam
E que já não hão de passar incógnitas,
E na nação hão de brilhar indômitas,
Com as cotas.

As cotas
Abrem portas…

Pra corrigirmos nosso rumo, nossa rota,
E interrompermos um rosário de derrotas,
E sermos hexa, sermos hepta, sermos octa,
E afirmarmos uma força apoteótica,
E escrevermos uma história de quem opta
Pelas cotas.

As cotas
Abrem portas.

O empenho do cotista dá na vista, isto se nota,
E o desempenho é igual ao que é geral em média e nota.
E é isto que revela cada estudo, cada amostra.
Nas salas, corredores e no campus, tudo mostra
As cores do país do povo de que a gente gosta;
As caras do Brasil que a gente aprova e no que aposta.
E a prova da aprovação das cotas, a resposta
De tal questão, nas universidades tá exposta:
Que racial e socialmente mesmo só se dota
De um corpo discente justo justo se se adotam
As cotas,
As cotas.

As cotas
Abrem portas.

E já que a vil desigualdade nos revolta,
E já se viu que há de vir reviravolta,
E a biodiversidade humana nos exorta,
E um plano de oportunidades mil aporta
E deixa a casa-grande e a branquitude atônitas,
Com as cotas…

E um mero rato de um meritocrata arrota
Seu ideário ideal de ideias rotas,
O deputado que é de fato e que denota
Que é democrático, que não é um hipócrita,
Um bosta, um lambe-botas, não se obsta
E não boicota e não sabota, e vota
Pelas cotas.

As cotas
Abrem portas.

O filho do pedreiro, a filhota
Da faxineira vão ter cota,
E já que nossas cotas são anticaóticas
E antirracistas, dignas de nota,
E antidistópicas porém não são exóticas,
Já que são tópicas e utópicas, são ótimas
Nossas cotas.

As cotas
Abrem portas.