Arquivo da categoria: MC Soffia

O Vento da Democracia (Vento Bom)

Pra quem situa-se na rua sob o sol
E estampa o papelão da fome no farol;
Quem remexe na lixeira
Ou espera na fileira,
Enquanto a fila do jatinho duplicou;
Pra quem sangra da brutal assimetria,
E a elite expele, e o estado excluiu,
O vento da justiça da democracia
Tá batendo dia a dia no Brasil.

Pra derrubar o veto à demarcação
Da terra indígena, do mundo a salvação,
Para reparar o negro,
Com a cota, o bom emprego,
Suprir e completar a abolição;
Pra suprimir a incivil supremacia
De classe, raça e fé que aqui sempre se viu,
O vento bom e brando da democracia
Tá batendo, tá soprando no Brasil.

Vento bom, oh vento bom!
Traz a paz a esse país!
Traz a paz do amor que vence a
Guerra, o ódio, a violência,
Por um tempo mais feliz!
Vento bom, oh vento bom!
Traz a paz p’esse país
Discernir o amor da ira,
E a verdade, da mentira,
Por um tempo mais feliz!
Vento bom!

Contra quem fere a Amazônia com desmate, ca-
-Talisa a crise cataclísmica climática,
Com mercúrio de garimpo,
Envenena o rio limpo
E ao povo impõe ação traumática;
Contra a ganância duma certa economia
Que tá deixando os seis biomas por um fio,
O vento bom e bento da democracia
Há de bater aos quatro ventos no Brasil.

Pra cada LGBTQIA+,
Pelas mulheres, por direitos mais iguais,
Pela indígena e a negra,
A mãe Terra e o que ela agrega:
Os rios, montes, plantas e animais;
Pra cada PCD, pra toda minoria,
Pra maioria, nas periferias mil,
O vento transparente da democracia
Há de bater pra toda gente no Brasil.

Vento bom, oh vento bom!
Traz a paz a esse país!
Traz a paz do amor que vence a
Guerra, o ódio, a violência,
Por um tempo mais feliz!
Vento bom, oh vento bom!
Traz a paz p’esse país
Discernir o amor da ira,
E a verdade, da mentira,
Por um tempo mais feliz!
Vento bom!

O vento uiva como aquele vento uivante,
O vento uLULA como o óbvio uLULAnte;
Ele ruge, ele urge
Qual livro bom que surge
Qual arma mais que armas importante.
Com a ciência e a cultura e companhia,
Contra o golpismo do fascismo, do fuzil,
O vento soberano da democracia
Há de bater sem nenhum dano pro Brasil.

Batendo igual meu coração do centro à esquerda
Do peito cheio de amor e não de pedra,
Um amor maior que o mar,
Para amar você e amar
O próximo, que a gente não deserda,
Com a missão difícil que se nos confia
E a dimensão da imensidão do desafio,
O vento da esperança da democracia
Há de bater daqui pra sempre no Brasil.

*

As Cotas

O preto, o pardo, o indígena, no final das contas,
O pobre, o excluído, foi levado em conta,
E o colorido das escolas tomou conta,
Num não à colonização e numa afronta
À escravidão e à exclusão escrotas,
Com as cotas.

E de orgulho renovou-se a nossa cota,
E de alegria que revive e não se esgota
E que resgata o sonho, a esperança morta.
E campi renovaram-se com outras
Visões e perspectivas, percepções e óticas,
Com as cotas.

As cotas abrem portas e comportas
Duma represa de potências que brotam,
E mudam mundos, mudam vidas que importam
E que já não hão de passar incógnitas,
E na nação hão de brilhar indômitas,
Com as cotas.

As cotas
Abrem portas…

Pra corrigirmos nosso rumo, nossa rota,
E interrompermos um rosário de derrotas,
E sermos hexa, sermos hepta, sermos octa,
E afirmarmos uma força apoteótica,
E escrevermos uma história de quem opta
Pelas cotas.

As cotas
Abrem portas.

O empenho do cotista dá na vista, isto se nota,
E o desempenho é igual ao que é geral em média e nota.
E é isto que revela cada estudo, cada amostra.
Nas salas, corredores e no campus, tudo mostra
As cores do país do povo de que a gente gosta;
As caras do Brasil que a gente aprova e no que aposta.
E a prova da aprovação das cotas, a resposta
De tal questão, nas universidades tá exposta:
Que racial e socialmente mesmo só se dota
De um corpo discente justo justo se se adotam
As cotas,
As cotas.

As cotas
Abrem portas.

E já que a vil desigualdade nos revolta,
E já se viu que há de vir reviravolta,
E a biodiversidade humana nos exorta,
E um plano de oportunidades mil aporta
E deixa a casa-grande e a branquitude atônitas,
Com as cotas…

E um mero rato de um meritocrata arrota
Seu ideário ideal de ideias rotas,
O deputado que é de fato e que denota
Que é democrático, que não é um hipócrita,
Um bosta, um lambe-botas, não se obsta
E não boicota e não sabota, e vota
Pelas cotas.

As cotas
Abrem portas.

O filho do pedreiro, a filhota
Da faxineira vão ter cota,
E já que nossas cotas são anticaóticas
E antirracistas, dignas de nota,
E antidistópicas porém não são exóticas,
Já que são tópicas e utópicas, são ótimas
Nossas cotas.

As cotas
Abrem portas.

Para Onde Vamos?

 

Para onde vamos? Ah, onde vamos parar?
Nessa encruzilhada, que estrada vamos pegar?
Que perigo de mau tempo, temporal,
De temperatura em alta e de desastre existe pra todos nós afinal?

Que desmatamento ou incêndio ou inundação
Nossos olhos tristes ainda inundarão?
Que geleira tem que ainda derreter,
Pra quebrar a pedra de gelo que tem no peito quem tem um alto e podre poder?

Quanto tempo vamos seguir sem de fato agir
Contra a gana por grana que só faz destruir?
Quantos homens, aos milhares, aos milhões,
Vão morrer de fome e de sede, vítimas de ações de outros homens, de outras nações?

Que será do mundo que vemos, que mundo nós
Deixaremos às gerações que virão após?
Que futuro preparamos, que manhã?
Nosso tino ou desatino hoje define nosso destino aqui amanhã.

*