Arquivo da categoria: Seu Jorge

O Vento da Democracia (Vento Bom)

Pra quem situa-se na rua sob o sol
E estampa o papelão da fome no farol;
Quem remexe na lixeira
Ou espera na fileira,
Enquanto a fila do jatinho duplicou;
Pra quem sangra da brutal assimetria,
E a elite expele, e o estado excluiu,
O vento da justiça da democracia
Tá batendo dia a dia no Brasil.

Pra derrubar o veto à demarcação
Da terra indígena, do mundo a salvação,
Para reparar o negro,
Com a cota, o bom emprego,
Suprir e completar a abolição;
Pra suprimir a incivil supremacia
De classe, raça e fé que aqui sempre se viu,
O vento bom e brando da democracia
Tá batendo, tá soprando no Brasil.

Vento bom, oh vento bom!
Traz a paz a esse país!
Traz a paz do amor que vence a
Guerra, o ódio, a violência,
Por um tempo mais feliz!
Vento bom, oh vento bom!
Traz a paz p’esse país
Discernir o amor da ira,
E a verdade, da mentira,
Por um tempo mais feliz!
Vento bom!

Contra quem fere a Amazônia com desmate, ca-
-Talisa a crise cataclísmica climática,
Com mercúrio de garimpo,
Envenena o rio limpo
E ao povo impõe ação traumática;
Contra a ganância duma certa economia
Que tá deixando os seis biomas por um fio,
O vento bom e bento da democracia
Há de bater aos quatro ventos no Brasil.

Pra cada LGBTQIA+,
Pelas mulheres, por direitos mais iguais,
Pela indígena e a negra,
A mãe Terra e o que ela agrega:
Os rios, montes, plantas e animais;
Pra cada PCD, pra toda minoria,
Pra maioria, nas periferias mil,
O vento transparente da democracia
Há de bater pra toda gente no Brasil.

Vento bom, oh vento bom!
Traz a paz a esse país!
Traz a paz do amor que vence a
Guerra, o ódio, a violência,
Por um tempo mais feliz!
Vento bom, oh vento bom!
Traz a paz p’esse país
Discernir o amor da ira,
E a verdade, da mentira,
Por um tempo mais feliz!
Vento bom!

O vento uiva como aquele vento uivante,
O vento uLULA como o óbvio uLULAnte;
Ele ruge, ele urge
Qual livro bom que surge
Qual arma mais que armas importante.
Com a ciência e a cultura e companhia,
Contra o golpismo do fascismo, do fuzil,
O vento soberano da democracia
Há de bater sem nenhum dano pro Brasil.

Batendo igual meu coração do centro à esquerda
Do peito cheio de amor e não de pedra,
Um amor maior que o mar,
Para amar você e amar
O próximo, que a gente não deserda,
Com a missão difícil que se nos confia
E a dimensão da imensidão do desafio,
O vento da esperança da democracia
Há de bater daqui pra sempre no Brasil.

*

Fruta Estranha (Strange Fruit)

2009_NEGO_Cancoes_americanas_em_versoes_brasileiras_1024

de “Nego”, de Carlos Rennó

Árvores do Sul
Dão fruta estranha;
Folha ou raiz,
Em sangue se banha;
Corpo de negro
Balançando, lento;
Fruta pendendo
De um galho ao vento.

Cena pastoril
Do Sul celebrado;
A boca torta
E o olho inchado;
Cheiro de magnólia
Chega e passa;
De repente o odor
De carne em brasa.

Eis uma fruta
Pra que o vento sugue,
Pra que um corvo puxe,
Pra que a chuva enrugue,
Pra que o Sol resseque,
Pra que o chão degluta,
Eis uma estranha
E amarga fruta.

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Southern trees
Bear strange fruit;
Blood on the leaves
And blood at the root;
Black bodies swinging
In the southern breeze,
Strange fruit hanging
From the poplar trees.

Pastoral scene
Of the gallant South;
The bulging eyes
And the twisted mouth;
Scent of magnolia,
Sweet and fresh;
Then the sudden smell
Of burning flesh.

Here is a fruit
For the crows to pluck,
For the rain to gather,
For the wind to suck,
For the sun to rot,
For the tree to drop;
Here is a strange
And bitter crop.

Música e letra de Lewis Allan, 1936