Arquivo da categoria: Maria Gadú

O Vento da Democracia (Vento Bom)

Pra quem situa-se na rua sob o sol
E estampa o papelão da fome no farol;
Quem remexe na lixeira
Ou espera na fileira,
Enquanto a fila do jatinho duplicou;
Pra quem sangra da brutal assimetria,
E a elite expele, e o estado excluiu,
O vento da justiça da democracia
Tá batendo dia a dia no Brasil.

Pra derrubar o veto à demarcação
Da terra indígena, do mundo a salvação,
Para reparar o negro,
Com a cota, o bom emprego,
Suprir e completar a abolição;
Pra suprimir a incivil supremacia
De classe, raça e fé que aqui sempre se viu,
O vento bom e brando da democracia
Tá batendo, tá soprando no Brasil.

Vento bom, oh vento bom!
Traz a paz a esse país!
Traz a paz do amor que vence a
Guerra, o ódio, a violência,
Por um tempo mais feliz!
Vento bom, oh vento bom!
Traz a paz p’esse país
Discernir o amor da ira,
E a verdade, da mentira,
Por um tempo mais feliz!
Vento bom!

Contra quem fere a Amazônia com desmate, ca-
-Talisa a crise cataclísmica climática,
Com mercúrio de garimpo,
Envenena o rio limpo
E ao povo impõe ação traumática;
Contra a ganância duma certa economia
Que tá deixando os seis biomas por um fio,
O vento bom e bento da democracia
Há de bater aos quatro ventos no Brasil.

Pra cada LGBTQIA+,
Pelas mulheres, por direitos mais iguais,
Pela indígena e a negra,
A mãe Terra e o que ela agrega:
Os rios, montes, plantas e animais;
Pra cada PCD, pra toda minoria,
Pra maioria, nas periferias mil,
O vento transparente da democracia
Há de bater pra toda gente no Brasil.

Vento bom, oh vento bom!
Traz a paz a esse país!
Traz a paz do amor que vence a
Guerra, o ódio, a violência,
Por um tempo mais feliz!
Vento bom, oh vento bom!
Traz a paz p’esse país
Discernir o amor da ira,
E a verdade, da mentira,
Por um tempo mais feliz!
Vento bom!

O vento uiva como aquele vento uivante,
O vento uLULA como o óbvio uLULAnte;
Ele ruge, ele urge
Qual livro bom que surge
Qual arma mais que armas importante.
Com a ciência e a cultura e companhia,
Contra o golpismo do fascismo, do fuzil,
O vento soberano da democracia
Há de bater sem nenhum dano pro Brasil.

Batendo igual meu coração do centro à esquerda
Do peito cheio de amor e não de pedra,
Um amor maior que o mar,
Para amar você e amar
O próximo, que a gente não deserda,
Com a missão difícil que se nos confia
E a dimensão da imensidão do desafio,
O vento da esperança da democracia
Há de bater daqui pra sempre no Brasil.

*

Oh, Pantanal

Que aconteceu com tanto verde e tanta água
E o céu azul que a fumaça diluiu?
Quem tocou fogo e provocou um mega estrago à
Vegetação e quem o rio poluiu?

Na natureza de beleza deslumbrante,
Vemos o rastro do desastre pelo chão.
E o que já estamos vislumbrando mais adiante
É de tocar e de cortar o coração.

Pantanal,
Qual teu destino final,
Nosso destino afinal?
Qual, Pantanal?

Nem pássaro, nem peixe, nem onça, nem réptil
Deve morrer queimado ou seco ano a ano.
Oh que a mãe Terra interceda e intercepte o
Golpe fatal da mão do ser humano,

Por tuas cheias e vazantes e história,
Pelas araras, tuiuiús e jacarés,
Visão da criação de Deus, de sua glória,
Do roxo dos ipês a tudo que tu és.

Pantanal,
Qual teu destino final,
Nosso destino afinal?
Qual, Pantanal?

Embaixo um rio baixo, em cima um sol laranja,
No ar um cheiro de fuligem e fumaça.
O que há de ser de nós no incerto do amanhã já
Que no presente a gente está sob ameaça?

Já que pra nós importa a vida da planície,
Que tá secando a cada ciclo que completa,
A vida verde da alagável superfície,
A mais infinda e das mais lindas do planeta.

Pantanal,
Qual teu destino final,
Nosso destino afinal?
Qual, Pantanal?

A seca chega, a chuva some, e é só tragédia.
Ao sol que cega, o solo racha, a vida míngua.
A seca pálida, esquálida, precede a
Propagação do fogo e suas línguas.

O fogo é alto, e também alto é seu ronco.
Veloz, seu movimento ao vento, e a ação
Torna um palito cada galho e cada tronco,
De cinza branca como neve cobre o chão.

Pantanal,
Qual teu destino final,
Nosso destino afinal?
Qual, Pantanal?

Os rios descem do planalto, onde nascem,
Mas as nascentes o “agrobiz” tá destruindo.
O pantaneiro em vão lamenta a fase má sem
Que a cheia deixe de ir diminuindo.

A natureza grita, o coração aperta!
Quem ouve é gente que conserva o ambiente.
Com esperança de que a condição reverta,
Restaura o solo e recupera a nascente.

Pantanal,
Qual teu destino final,
Nosso destino afinal?
Qual, Pantanal?

Mineração, barragem, mudança climática,
O agrotóxico, a exótica pastagem,
O mar de soja, o rio sujo, o desmate, ca-
Da vez mais esticada a estiagem.

A natureza avisa e a ciência alerta:
Do modo que vão degradando o seu entorno,
O Pantanal, irão torná-lo um deserto,
Irão levá-lo além do ponto sem retorno.

Pantanal,
Qual teu destino final,
Nosso destino afinal?
Qual, Pantanal?

Pantanal,
Qual teu destino final,
Nosso destino afinal?
OH, PANTANAL?