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Canção pra Amazônia

 

Maior floresta tropical da Terra
A toda hora sofre um duro golpe.
Contra trator, corrente, motosserra,
A bela flora clama em vão: “Me poupe!”
Porém tem uma gente surda e cega
Para a beleza e o valor da mata,
Embora o mundo grite que já chega
Pois é a vida que o desmate mata.

Mais vasta ainda todavia é a devastação e o trauma:
Focos de fogo nos sufocam fauna, flora e até a alma.

Amazônia!
Razão de tanta insânia e tanta insônia!
Amazônia!
Objeto de omissão e ação errônea!
Amazônia!
É sem igual, sem plano B nem clone a
Amazônia!

Desmonte pra desmate e desvario
Liberam a floresta no Brasil
Pro agrobiz e pra mineração,
Pra hidrelétrica, pra exploração.
Recompensando o crime ambiental,
Desregulando o clima mundial,
Negam ciência, incêndio e derrubada.
Negando, vão passando a boiada.

Que ignorância, repugnância, a cada lance, a cada vídeo!
Que grande bioecoetnogenomatrisuicídio!

Amazônia!
Abaixo o (des) governo que abandone a
Amazônia!
Não mais a soja, o pasto que seccione a
Amazônia!
Não mais a carne, o prato que pressione a
Amazônia!

Dos povos da floresta sob pressão,
O indígena, seu grande guardião,
Em comunhão com ela há milênios,
Nos últimos e trágicos decênios
Vem vendo a mata sendo ameaçada
E cada terra deles atacada
Por levas de peões de poderosos
Com planos de riqueza horrorosos.

É invasão!, destruição!, ódio a quem são seus empecilhos!
Eles não pensam no amanhã nem do planeta nem dos próprios filhos!

Amazônia!
Abaixo o madeireiro que detone a
Amazônia!
Abaixo o garimpeiro que infeccione a
Amazônia!
Abaixo o grileiro que fraciona a
Amazônia!

Mais valiosa que qualquer minério,
Tragada pela mata que transpira,
A água que evapora sobe e vira
De veio subterrâneo a rio aéreo.
Mais volumosos do que o Amazonas,
Os rios voadores distribuem
Seus límpidos vapores que afluem
Ao Centro-Sul, chegando noutras zonas.

Então como é que na floresta mais chuvosa o fogo avança,
E ardendo em chamas nela queima de futuro uma esperança?

Amazônia!
Não mais um mandatário que intencione a
Amazônia,
Nem mais um empresário que ambicione a
Amazônia
Pra mais um ciclo de nação-colônia.
Amazônia!

Visão monumental que maravilha
Obra da natureza que exubera
De cores, seres, cheiros, som, de vida
Tão pródiga, tão pura, tão diversa
A fábrica de chuva mais prolixa
A máquina do mundo mais complexa
O doceanoverdeparaíso
O coração pulsante do planeta

Quinze mil árvores contudo agora estão indo pro chão.
Quinze mil vidas derrubadas só durante o tempo desta canção!…

… Amazônia…
Que nem desmatamento desmorone a
Amazônia!
E nem desmandamento deixe insone a
Amazônia!
E nem o aquecimento desfuncione a
Amazônia!

O que o índio viu, previu, falou,
Também o cientista comprovou.
Desmate aumenta, o clima seco aquece
A mata, o céu e a Terra, que estarrece.
Esse é o recado deles, lá no fundo:
Salve-se a selva ou não se salva o mundo!
Pra não torná-los um inferno, um forno,
Salve a Amazônia do ponto sem retorno!

Será que ainda tá em tempo ou o timing disso já perdemos?
Pois, evitemos pelo menos os eventos mais extremos.

Amazônia…
Quando afinal o homem dimensione a
Amazônia,
Que venha a ter valido a nossa insônia
– Amazônia –,
Enquanto nos encante e emocione a…
Amazônia!

Salve a Amazônia!
Salve-se a selva ou não se salva o mundo!

O Relógio do Juízo Final

No mar, no rio, na lagoa, a água clara;
No céu mais limpo, o pôr mais lindo, a imagem rara;
E um ar tão puro que ninguém imaginara.
Por um período breve apenas, anormal,
Na quarentena humana inédita, afinal,
Medrou na cena urbana a vida natural.

E enquanto um índio dono de um saber profundo
Propaga ideias pra adiar o fim do mundo,
Um cara-pálida fascista em potencial,
Negativista violento do real,
Tão virulento quão pandêmico-viral,
Acelera o Relógio do Juízo Final.

Quando é que vamos aprender a diferença
Entre quem quer que a Terra-Gaia lhe pertença
E quem pertence a ela, é dela de nascença?
Somos do mal, o mal da Terra, não o sal.
Matamos a metade do reino animal,
Tamos rapando o vegetal e o mineral.

Se um povo dito primitivo e vagabundo
Trabalha e dança pra adiar o fim do mundo,
A tal da civilização ocidental,
“Desenvolvida, evoluída, racional”,
Queima e arrasa a própria casa, com quintal,
E apressa o Relógio do Juízo Final.

Quando é que vamos nos guiar por uma lógica
Mais ecológica do que mercadológica
Ou econômica, por uma bio-lógica?
Ver que não somos uma espécie central
Na biodiversidade da Terra, da qual
Nós temos sido parasitas, na real.

Enquanto um quilombola de onde é oriundo
Batuca e samba pra adiar o fim do mundo,
O ruralista duma escola colonial,
O pecuarista numa escala industrial,
Monocultura e racismo ambiental,
Adiantam o Relógio do Juízo Final.

E como para o homem vai haver escape se
A emissão de gases atingiu um ápice,
E há previsão de que a Amazônia colapse?
E tá na gênese um “Apocalypse Now”,
Em que a temperatura média mundial
Aumenta igual ou mais que um e meio grau?

Enquanto um cientista de um labor fecundo
Emite alertas pra adiar o fim do mundo,
Negacionistas do aquecimento global,
Negociantes do petróleo, do pré-sal,
Fiéis à fé neoliberal do capital,
Aceleram o Relógio do Juízo Final.

Quando é que vamos acordar em quanto é vão
Um crescimento que produz destruição?
Que não há redenção sem distribuição,
Sem queda na desigualdade social
E na pegada de carbono atual,
E sem um “bem viver” em um “novo normal”?

Enquanto uma ativista foda, que vai fundo,
Protesta e luta pra adiar o fim do mundo,
A companhia múlti, pan, transnacional,
Qual o sinistro antiministro ambiental,
Qual o grileiro, o garimpeiro ilegal,
Acelera o Relógio do Juízo Final.

Pensando nisso tudo, em hora tão dramática,
Temendo nossa sina trágica e errática,
Me assombra a sombra de uma mutação climática
E duma guerra cibernética fatal,
Dum uso mau da inteligência artificial
E dum conflito nuclear final, total.

Se tudo, entanto, pode estar por um segundo,
Eu canto cantos pra adiar o fim do mundo,
Pra me reconectar à mãe original,
Recontactar minha memória ancestral
E ter o júbilo de estar vivo afinal,
Atrasando o Relógio…
Atrasando o Relógio…
Atrasando o Relógio… do Juízo Final.

The Doomsday Clock (O Relógio do Juízo Final)

Clean were the waters in the river, in the sea;

A lovely blue sky sunset was a sight to see; 

And none imagined air so pure and oh so free.

For just a brief abnormal span we’d never seen,

In social distancing, in human quarantine,

Like never Nature thrived in many urban scenes.

And while a native sage with wise and holy words

Transmits ideas to delay the end of the world,

A fascist pale-face who can´t even think or feel

Denies with violence what is right and what is real,
And all he does and says with virulence some way

Daily speeds up the Doomsday Clock, the Judgment Day.

When will we learn how different in their worth

Are those who strive to own our Gaia, our sweet Earth,

From those who just belong to her, ever since birth?

We are the evil of the Earth and not the salt.           

We killed most animals and yes we still assault

The realms of trees and minerals to a fault.

While peoples said to be still primitive do work
And dance so lively to delay the end of the world,

So modern, the civilization of the West,

“Developed, rational, evolved”, just the best,

Is burning, razing its own house and by the way

Now is hurrying the Doomsday Clock, the Judgment Day.

Oh when will we be guided by a logic
More ecological and cool than economical, 
And above all by what we´d call a bio-logic?   

And see that in the Earth´s bio-diversity 
We´re not the central species, not at all, 

But we´ve been parasites and that´s reality.

While in their homeland rural blacks have danced and whirled,
And go play samba to delay the end of the world,

The livestock farmer´s and the soy landowner´s ways,

With their colonial school and eco-racist sway,

Their monoculture and industrial scales, they

Always hurry the Doomsday Clock, the Judgment Day.

And will man manage any way out of the traps,
If gas emissions reach a peak and if perhaps

All Amazonia is forecast to collapse?

If an apocalypse begins in times like these,

When average global temperature comes to increase,

Oh God forbid, by more than one point five degrees?

While scientists of fruitful work who love the world

Are raising warnings to delay the end of the world,

Oil dealers and loud neoliberals who stay

Denying global warming, lying anyway,

With faith in capital do prey from June to May,

Thus they speed up the Doomsday Clock, the Judgment Day.

Oh when will we wake up and see how vain

Is growth that brings destruction with such pain,

No income distribution, no release from chains,

No drop at all in social inequality,

Nor in the current carbon footprint that we see,

No “living well” in a “new normal”, clean and free?          

And while a kick ass activist, a damn good girl  ,      

May cry and get up to delay the end of the world,    

The multi, pan, transnational company

And the environment-adverse un-ministry,       

Land-grabbers and all miners who laws won´t obey,

They all speed up the Doomsday Clock, the Judgment Day.

Thinking about it all in this dramatic hour,

Fearing this tragic and erratic fate of ours,

I’m haunted by the phantoms of climate mutations,

And of the use of AI with such vile vocation,

And of a fatal cyber war that some predict,

And of the end atomic conflict will inflict.

If all is on the verge of ending as I´ve heard,   

I sing and play songs to delay the end of the world,

To reconnect to Mother Nature naturally,

And to recontact my ancestral memory,

To feel the joy to be alive and to delay

And to slow down the clock…

And to slow down the clock…

And to slow down the clock…

And to slow down the Doomsday Clock, the Judgment Day.

O Relógio do Juízo Final

No mar, no rio, na lagoa, a água clara;
No céu mais limpo, o pôr mais lindo, a imagem rara;

E um ar tão puro que ninguém imaginara.
Por um período breve apenas, anormal,
Na quarentena humana inédita, afinal,
Medrou na cena urbana a vida natural.

E enquanto um índio dono de um saber profundo
Propaga ideias pra adiar o fim do mundo,
Um cara-pálida fascista em potencial,
Negativista violento do real,
Tão virulento quão pandêmico-viral,
Acelera o Relógio do Juízo Final.

Quando é que vamos aprender a diferença
Entre quem quer que a Terra-Gaia lhe pertença
E quem pertence a ela, é dela de nascença?
Somos do mal, o mal da Terra, não o sal.
Matamos a metade do reino animal,
Tamos rapando o vegetal e o mineral.

Se um povo dito primitivo e vagabundo
Trabalha e dança pra adiar o fim do mundo,
A tal da civilização ocidental,
“Desenvolvida, evoluída, racional”,
Queima e arrasa a própria casa, com quintal,
E apressa o Relógio do Juízo Final.

Quando é que vamos nos guiar por uma lógica
Mais ecológica do que mercadológica
Ou econômica, por uma bio-lógica?
Ver que não somos uma espécie central
Na biodiversidade da Terra, da qual
Nós temos sido parasitas, na real.

Enquanto um quilombola de onde é oriundo
Batuca e samba pra adiar o fim do mundo,
O ruralista duma escola colonial,
O pecuarista numa escala industrial,
Monocultura e racismo ambiental,
Adiantam o Relógio do Juízo Final.

E como para o homem vai haver escape se
A emissão de gases atingiu um ápice,
E há previsão de que a Amazônia colapse?
E tá na gênese um “Apocalypse Now”,
Em que a temperatura média mundial
Aumenta igual ou mais que um e meio grau?

Enquanto um cientista de um labor fecundo
Emite alertas pra adiar o fim do mundo,
Negacionistas do aquecimento global,
Negociantes do petróleo, do pré-sal,
Fiéis à fé neoliberal do capital,
Aceleram o Relógio do Juízo Final.

Quando é que vamos acordar em quanto é vão
Um crescimento que produz destruição?
Que não há redenção sem distribuição,
Sem queda na desigualdade social
E na pegada de carbono atual,
E sem um “bem viver” em um “novo normal”?

Enquanto uma ativista foda, que vai fundo,
Protesta e luta pra adiar o fim do mundo,
A companhia múlti, pan, transnacional,
Qual o sinistro antiministro ambiental,
Qual o grileiro, o garimpeiro ilegal,
Acelera o Relógio do Juízo Final.

Pensando nisso tudo, em hora tão dramática,
Temendo nossa sina trágica e errática,
Me assombra a sombra de uma mutação climática
E duma guerra cibernética fatal,
Dum uso mau da inteligência artificial
E dum conflito nuclear final, total.

Se tudo, entanto, pode estar por um segundo,
Eu canto cantos pra adiar o fim do mundo,
Pra me reconectar à mãe original,
Recontactar minha memória ancestral
E ter o júbilo de estar vivo afinal,
Atrasando o Relógio…
Atrasando o Relógio…
Atrasando o Relógio… do Juízo Final.

Uma Vez, Uma Voz

Uma vez

Num lugar

Há muito tempo atrás

Uma voz

Pelo ar

O vento e nada mais

O luar

E bilhões

De brilhos no alto astral

No olhar

As visões

De um homem ancestral

De vagar

Devagar

O tempo se desfaz

Onde o ar

Som lunar

Momento que me apraz

Sombra e luz

Tons azuis

Penumbra prateada

Sonhos mil

No vazio

Da vista estrelada

Uma vez

Num lugar

A história se desfaz

Através

Do luar

Mistérios, nada mais

Escrita nos anos 1980

Do Guarani ao Guaraná

Por nós não vermos como natural
A sua morte sociocultural
Em outros termos, por nos condoermos
E termos como belo e absoluto

Seu contributo do tupi ao tucupi, do guarani ao guaraná.

Demarcação já!
Demarcação já!

Pro índio ter a aplicação do Estatuto
Que linde o seu rincão qual um reduto,
E blinde-o contra o branco mau e bruto
Que lhe roubou aquilo que era seu,

Tal como aconteceu, do pampa ao Amapá,

Demarcação lá!
Demarcação já!

Todas Elas Juntas Num Só Ser [letra variante]

Não canto mais Bebete nem Domingas
Nem Xica nem Tereza, de Ben Jor;
Nem Drão nem Flora, do baiano Gil;
Nem Ana nem Luiza, do maior;
Já não homenageio Januária,
Joana, Ana, Bárbara, de Chico;
Nem Yoko, a nipônica de Lennon;
Nem a cabocla, de Tinoco e de Tonico;

Nem a tigresa, nem a vera gata,
Nem a branquinha, de Caetano;
Nem mesmo a linda flor de Luiz Gonzaga,
Rosinha, do sertão pernambucano;
Nem Risoflora, a flor de Chico Science –
Nenhuma continua nos meus planos.
Nem Kátia Flávia, de Fausto Fawcett;
Nem Anna Júlia, do Los Hermanos.

Só você,
Hoje eu canto só você;
Só você,
Que eu quero porque quero por querer.

Não canto de Melô pérola negra;
De Brown e Herbert, uma brasileira;
De Ari, nem a baiana nem Maria,
Nem a Iaiá também, nem a faceira;
De Dorival, nem Dora nem Marina
Nem a morena de Itapoã;
De Vina, a garota de Ipanema;
Nem Iracema, de Adoniran.

De Jackson do Pandeiro, nem Cremilda;
De Michael Jackson, nem a Billie Jean;
De Jimi Hendrix, nem a doce Angel;
Nem Ângela nem Lígia, de Jobim;
Nem Lia, Lily Braun nem Beatriz,
Das doze deusas de Edu e Chico;
Até das trinta Leilas de Donato
Até Layla de Clapton eu abdico.

Só você,
Canto e toco só você;
Só você,
Que nem você ninguém mais pode haver.

Nem a namoradinha de um amigo
E nem a amada amante de Roberto;
E nem Michelle-ma-belle, do beatle Paul;
Nem Isabel – Bebel – de João Gilberto;
E nem B.B., la femme de Serge Gainsbourg;
Nem, de Totó, na malafemmena;
Nem a Iaiá de Zeca Pagodinho;
Nem a mulata mulatinha de Lalá;

E nem a carioca de Vinicius
E nem a tropicana de Alceu
E nem a escurinha de Geraldo
E nem a pastorinha de Noel
E nem a namorada de Carlinhos
E nem a superstar do Tremendão
E nem a malaguenha de Lecuona
E nem a popozuda do Tigrão

Só você,
Hoje elejo e elogio só você,
Só você,
Que nem você não há nem quem nem quê.

De Haroldo Lobo com Wilson Batista,
De Mário Lago e Ataulfo Alves,
Não canto nem Emília nem Amélia:
Nenhuma tem meus vivas! e meus salves!
E nem Angie do stone Mick Jagger
E nem Roxanne, de Sting, do Police;
E nem a mina do mamona Dinho
E nem as mina – pá! – do mano Xis!

Loira de Hervê e loira do É O Tchan,
Lôra de Gabriel, o Pensador;
Laura de Mercer, Laura de Braguinha
(L´aura de Daniel, o trovador?);
Ana do Rei e Ana de Djavan,
Ana do outro rei, o do baião:
Nenhuma delas hoje cantarei:
Só outra reina no meu coração.

Só você,
Rainha aqui é só você,
Só você,
A musa dentre as musas de A a Z.

Se um dia me surgisse uma moça
Dessas que, com seus dotes e seus dons,
Inspiram parte dos compositores
Na arte das palavras e dos sons,
Tal como Madelleine, de Jacques Brel,
Ou como Madalena, de Martinho,
Ou Mabellene e a sixteen de Chuck Berry,
Ou a manequim do tímido Paulinho;

Ou como, de Caymmi, a moça pRosa
E a musa inspiradora Doralice;
Se me surgisse uma moça dessas,
Talvez há um tempo atrás não resistisse,
Mas, veja bem, meu bem, minha querida,
Eu não a trocaria uma só vez,
Nem uma vez, em toda a minha vida,
Por duas delas nem por mais de três!

Só você…
Mais que tudo é só você;
Só você…
As coisas mais queridas você é:

Você pra mim é o sol da minha noite;
É como a rosa, luz de Pixinguinha;
É como a estrela pura aparecida,
A estrela a refulgir, do Poetinha;
Você, ó flor, é como a nuvem calma
No céu da alma de Luiz Vieira;
Você é como a luz do sol da vida
De Stevie Wonder, ó minha parceira.

Você é para mim e o meu amor,
Crescendo como mato em campos vastos,
Mais que a gatinha para Erasmo Carlos;
Mais que a cigana pra Ronaldo Bastos;
Mais que a divina dama pra Cartola;
Que a domna pra De Ventadorn, Bernart;
Que a honey baby para Waly Salomão
E a funny valentine pra Lorenz Hart.

Só você,
Mais que tudo e todas, só você;
Só você,
Que é todas elas juntas num só ser.

Blablablá

Sem mais embromação na mesa do Palácio,
Nem mais embaço na gaveta da Justiça,
Nem mais demora nem delonga no processo,
Nem retrocesso nem pendenga no Congresso,
Nem lengalenga, nhenhenhém nem blablablá!
Demarcação já!
Demarcação já!

Já que “tal qual o negro e o homossexual,
O índio é ´tudo que não presta´”, como quer
Quem quer tomar-lhe tudo que lhe resta,
Seu território, herança do ancestral,
E já que o que ele quer é o que é dele já,
Demarcação, “tá”?
Demarcação já!

Ornitologia

 

Há aves que avoam como naves
Há aves que povoam, rasgam o ar
Algumas migram pelo mar
Umas rebrilham tais e quais metais
Umas resistem pelos pantanais
Algumas nem existem mais
E tem mais
Umas tem plumas ornamentais
Umas tem timbres suaves

Assim o passarinho é das aves
A ave da mais leve asa veloz
A ave da mais bela voz
Ávida de canto e encantação
Ávida de vôo e renovação
De seda e de sedução
Revoa, voa, soa e ressoa
Ave, ave!
Avião!

Doce Loucura

Feito Pra Acabar – 10 anos

Doce Loucura

Não quero coco nem cocada,
Não quero trufa nem pudim nem strudel,
Não quero bomba nem bom-bom em celofane.

Quero ficar me lambuzando
Em longos beijos, lânguidas lambidas,
Entre seus lábios, suas pernas, baby-honey.

Doçura é o seu amor, amor:
Não há bom-bom tão bom, com tal sabor.
Eis o mel melhor, o mel dos méis:
Amor da cuca até os pés.

Não quero ácido nem álcool,
Não quero êxtase nem tapioca,
Não quero gota na jujuba nem no “beize”…

Quero pirar com seu sorriso
E por seu corpo perder o juízo,
Transando sexo com você; you drive me crazy.

Loucura é o seu amor, amor:
Nenhum barato pode ser maior.
Eis o coquetel dos coquetéis:
Amor do coco até os pés.

Não quero doce,
Não quero bala,
Não quero coca nem tampouco chocolate.

Loucura, eu quero seu amor – amor:
Nenhum barato pode ser maior.
Eis o coquetel dos coquetéis:
Amor do coco até os pés.

Rara

Feito Pra Acabar – 10 anos

Rara

Como narrar a vinda
Da vida à vida mais que linda?

… E sussurrar a sutil melodia
E com a fala macia

Seu nome no seu ouvido.
É muito amor envolvido.

Como narrar a lenda
De um novo ser em nossa senda?

… E me amarrar a alguém minha cara
Tal qual à mãe me amarrara.

E ver jorrar a beleza
De vir à luz uma alteza,

Alguém que em nós engendramos,
E em quem nós continuamos…

*

Uma Lenda do Reno (Rheinlegendchen)

Eu ceifo às vezes
Na margem do Reno.
Meu bem vem às vezes
Comigo ao terreno .

De que serve a ceifa,
Se a foice é ruim?
Meu bem de que serve,
Se longe de mim?

Na água do Reno,
Eu jogo um anel
De ouro, que rola
No rio ao léu.

Na água do Reno,
O anel a rolar
Vai indo, correndo
Pro fundo do mar.

O anel cai na boca
De um peixe e eu sei
Que o peixe é servido
Na mesa do rei,

Do rei que pergunta
De quem é o anel;
Meu bem lhe responde:
“O anel é só meu” .

Meu bem sai correndo
Os montes enfim,
Trazendo de volta
O anel para mim.

Na água do Reno,
Então como eu,
Não deixe também de
Jogar seu anel!

*

Rheinlegendchen

Bald gras ich am Neckar,
Bald gras ich am Rhein,
Bald hab ich ein Schätzel,
Bald bin ich allein!

Was hilft mir das Grasen,
Wann die Sichel nicht schneidt,
Was hilft mir ein Schätzel,
Wenn´s bei mir nicht bleibt!

So soll ich denn grasen
Am Neckar, am Rhein;
So werf ich mein goldi-
Ges Ringlein hinein!

Es fliesset im Neckar
Und fliesset im Rhein,
Soll schwimmen hinunter
Ins tief Meer hinein!

Und schwimmt es das Ringlein,
So frisst es in Fisch!
Das Fischlein soll kommen
Aufs König sein Tisch!

Der König tät fragen,
Wem’s Ringlein sollt’ sein?
Da thät mein Schaz sagen:
“Das Ringlein g’hört mein!”

Mein Schäzlein thät springen
Berg auf und Berg ein,
Tät mir wiedrum bringen
Das Gold Ringlein fein!

Kannst grasen am Neckar,
Kannst grasen am Rhein!
Wirf du mir nur immer
Dein Ringlein hinein!

Música de Gustav Mahler e letra de autor anônimo
1893

*

É Assim Que Tu És (C’est Ainsi Que Tu Es)

Carne, d´alma enleada,
Cabeleira enrolada,
O pé correndo o tempo,
A sombra que se estende
Me murmura na têmpora.
Eis teu retrato, vês?
É assim que tu és.
Te escrever isso eu quero,
Pra que, já noite, aí
Tu creias ao dizeres
Que eu bem te conheci.

*

C’est ainsi que tu es
(Música de Poulenc, letra de Paul Eluard)

Ta chair, d’âme mêlée,
Chevelure emmêlée,
Ton pied courant le temps,
Ton ombre qui s’étend
Et murmure à ma tempe,
Voilà, c’est ton portrait,
C’est ainsi que tu es,
Et je veux te l’écrire
Pour que la nuit venue,
Tu puisses croire et dire,
Que je t’ai bien connue.

*

A Canção de Nana (Nanna´s Lied)

A Canção de Nana

Meu senhor, vim adolescente
Ao mercado do amor.
Me tornei experiente.
Era tanto mal,
Era um jogo tal,
Mas nem sempre eu fui uma flor…
(Afinal, também sou um ser humano.)

Felizmente, tudo logo passa –
Tanto a mágoa quanto o amor, tanto faz.
Cadê o pranto de ontem à noite?
Cadê o frio de um ano atrás?

Com o tempo, mais facilmente
Vai-se à banca do amor.
E se abraça um montão de gente.
Mas o coração
Fica frio e vão,
Se não poupa um pouco de calor.
(Afinal, todo estoque um dia chega ao fim.)

Felizmente, tudo logo passa –
Tanto a mágoa quanto o amor, tanto faz.
Cadê o pranto de ontem à noite?
Cadê o frio de um ano atrás?

Mesmo não sabendo pouco
Do negócio do amor,
Converter tesão num troco
Não é mole, pô.
Té aqui rolou.
Mas a idade chega, sim, senhor.
(Afinal, ninguém permanece adolescente sempre.)

Felizmente, tudo logo passa –
Tanto a mágoa quanto o amor, tanto faz.
Cadê o pranto de ontem à noite?
Cadê o frio de um ano atrás?

*

Nanna´s Lied
(Hanss Eisler, Kurt Weill e Bertolt Brecht)

Meine Herren, mit siebzehn Jahren
Kam ich auf den Liebesmarkt
Und ich habe viel erfahren.
Böses gab es viel
Doch das war das Spiel
Aber manches hab’ ich doch verargt.
(Schließlich bin ich ja auch ein Mensch.)

Gott sei Dank geht alles schnell vorüber
Auch die Liebe und der Kummer sogar.
Wo sind die Tränen von gestern abend?
Wo ist die Schnee vom vergangenen Jahr?

Freilich geht man mit den Jahren
Leichter auf den Liebesmarkt
Und umarmt sie dort in Scharen.
Aber das Gefühl
Wird erstaunlich kühl
Wenn man damit allzuwenig kargt.
(Schließlich geht ja jeder Vorrat zu Ende.)

Gott sei dank geht alles schnell vorüber, usw.

Und auch wenn man gut das Handeln
Lernte auf der Liebesmess’:
Lust in Kleingeld zu verwandeln
Ist doch niemals leicht.
Nun, es wird erreicht.
Doch man wird auch älter unterdes.
(Schließlich bleibt man ja nicht immer siebzehn.)

Gott sei dank geht alles schnell vorüber, usw.

*

Canções Que Mamãe Me Ensinou

(versão de “Als Die Alte Mutter”, de Dvorak e Adolf Heyduk)

Quando mamãe me ensinava
Canções que me cativavam
Normalmente dos seus olhos
Lágrimas rolavam

Quando eu ensino agora
Canções a cada pequeno
Lágrimas também escorrem
Lágrimas correm
Pelo meu rosto moreno

*
Als Die Alte Mutter
Dvorak: Adolf Heyduk

Als die alte Mutter
Mich noch lehrte singen,
Tränen in den Wimpern
Gar so oft ihr hingen.

Jetzt, wo ich die Kleinen
Selber üb im Sange,
Rieselt’s in den Bart oft,
Rieselt’s oft
Von der braunen Wange.
*

SONGS MY MOTHER TAUGHT ME

(by Natalia Macfarren)

Songs my mother taught me,
In the days long vanished;
Seldom from her eyelids
Were the teardrops banished.

Now I teach my children,
Each melodious measure.
Off the tears are flowing,
Off they flow from my memory’s treasure.

*

Oração a Ossain

Orixá que das folhas detém
O segredo que a força repõe,
Ele mesmo um mistério também,
Que se guarda e pouco se expõe;

Me proteja por onde eu caminhe,
Pra que meu coração não definhe,
E me livre daquilo que é ruim
E que tal como um bicho que grunhe
Nos ataca ou nos indispõe;
Que doença comigo nem sonhe.

Na moléstia, me trate, porém,
Com a erva que cura e que vem
Da natura, da mata, da mãe;
Recomponha-me e me acompanhe,
Pois saúde é o bem que se impõe
Mais que ouro, dindim ou bitcoin.

Que meu canto que não se contém
A nenhum outro deus não assanhe,
Pois quem canto, quem chamo e já vem
É Ossain! É Ossain! É Ossain!

Para Onde Vamos?

 

Para onde vamos? Ah, onde vamos parar?
Nessa encruzilhada, que estrada vamos pegar?
Que perigo de mau tempo, temporal,
De temperatura em alta e de desastre existe pra todos nós afinal?

Que desmatamento ou incêndio ou inundação
Nossos olhos tristes ainda inundarão?
Que geleira tem que ainda derreter,
Pra quebrar a pedra de gelo que tem no peito quem tem um alto e podre poder?

Quanto tempo vamos seguir sem de fato agir
Contra a gana por grana que só faz destruir?
Quantos homens, aos milhares, aos milhões,
Vão morrer de fome e de sede, vítimas de ações de outros homens, de outras nações?

Que será do mundo que vemos, que mundo nós
Deixaremos às gerações que virão após?
Que futuro preparamos, que manhã?
Nosso tino ou desatino hoje define nosso destino aqui amanhã.

*

Força Que Vem do Vento

Força que tem, que tá no ar
em movimento natural
Força que vem do vento que dá
na torre alta vertical
E faz a hélice girar
no ar qual um anel
E a pá que é tríplice rodar
no alto contra o céu

Força que produz e que traduz
uma nova força e luz
Força que evolui e não polui
terra, mar e céu azuis
Que deixa pura a mãe natura salva e sã
e que nos lança uma esperança de amanhã

Força nova que é gerada
em qualquer lugar enfim
e que sempre se renova
e que nunca tem fim

As Viajantes

As Viajantes

As Viajantes,
Gêmeas errantes,
Originais visitantes
Dos gigantes do Sistema Solar –
Lá…

As Viajantes
Vão mais distantes
Do que jamais outra antes
Pôde ir daqui ao céu estelar –
Lá…

(Vai na viagem
Uma mensagem
Na garrafa a vagar
No oceano da imensidão.)

Que viajante
Assim distante
Daqui da Terra e do Sol
Há de evocar o Além, o Longe a rolar,
Lá…?

(Vão na mensagem
Sons e imagens
Do planeta, nosso lar;
Da nossa civilização.)

As Viajantes,
Sem navegantes,
Bilhões de anos ao léu
Hão de vagar no espaço interestelar…
Lá…

Do Álbum “Miscelânea” de 2018

Ficou pra trás,
E nada traz
De volta mais
Aquilo, ó!
No tempo jaz,
E tempo faz
Que virou gás
Ou virou pó.

Se já não há,
Por que será,
Em mim, que ‘tá,
E dói que só?
Aonde eu vá,
Aquilo lá
Saudade dá
E dá um nó.

Saudade, quando mais se adensa,
E traz a presença
Do que não está,
E que ressurge para nós
Do tempo, dos seus cafundós;

O tempo, com sua matéria
Dura, seu mistério
Puro, sem parar,
Resumindo a nada,
Reduzindo a pó
Pedra, vida, estrada,
Com a sua mó –

A sua máquina,
Que o mundo mói
E fundo rói,
Sem pena, nem dó,
Quem pena, tão só.

Saudade dói
Do que vivi,
Do que morreu
E virou pó;
Do que se foi,
Do que eu vi,
Do que fui eu,
Da minha vó.