Uma perda tá no ar da caatinga, E quem sente, dessa perda se ressente. Sente o rio e a nascente que nem pinga, O mandacaru, o carcará e a gente.
Tá no olho em que rebrilha a pedra enorme, Que reflete o sol, o sol mais inclemente. Tá na voz que clama contra, inconforme, Com o que torna o clima cada vez mais quente.
Caatinga, caatinga, Por mais destruída, por mais degradada, Que a humana ação danada Não a extinga, Não a extinga, não.
Da visão da terra desertificando À de nós da terra desertando, ui! O desmatamento que vai aumentando E a diversidade que só diminui…
Muito triste ver seu uso até o fim, Tanto abuso, tanta perda, tanto dano. Revoltante ver a caatinga assim, Esquecida e relegada a sexto plano.
Caatinga, caatinga, Por mais destruída, por mais degradada, Que a humana ação danada não a extinga, Não a extinga, não.
O semiárido se convertendo em árido Nos converte à luta pela ação vital Da restauração e a lei que o ampare Do poder devastador do capital.
Meu clamor é por que a água nunca míngüe No subsolo do lençol da caatinga; Que, por toda a fauna-flora que a distingue, Finalmente o poder público a distinga.
Caatinga, caatinga, Por mais destruída, por mais degradada, Que a humana ação danada Não a extinga, Não a extinga, não.
Um agouro paira aqui na caatinga. Tudo sente o mau sinal de algum impacto. Como nunca antes, lá do céu não pinga Cá no chão, em nós, no pássaro, no cacto.
Tá na luz, no meu cantar, no ar ardente, Tá na terra que resseca até no brejo. Mais que todos seres, sente o ser vivente. Mais que todo ser humano, o sertanejo.
Caatinga, caatinga, Por mais que seus matos hoje se consomem, Que a danada ação do homem Não a extinga, Não a extinga, não.
O desmando do sistema demandando Muita água, lenha, gesso, boi, carvão, O desmate desmedido descambando Em deserto por dinheiro: perdição…
Exaspera ver a áspera beleza Reduzida a uma riqueza que é finita. Emudece ver que, triste, a natureza, No que muda, silenciosamente grita
Caatinga, caatinga, Por mais que seus matos hoje se consomem, Que a danada ação do homem não a extinga, Não a extinga, não.
Quando fortes trovoadas não reboam Nos sertões ruidosamente que nem antes, Aflições em nossos corações ecoam, De pensarmos em futuros retirantes.
Meu temor é de que jovens que virão Não verão a mutação da caatinga, Quando chove e tudo explode em verde novo, E ao olhar do povo alegre a vida vinga.
Caatinga, caatinga, Por mais que seus matos hoje se consomem, Que a danada ação do homem Não a extinga, Não a extinga, não.
Na natureza de beleza deslumbrante, Vemos o rastro do desastre pelo chão. E o que já estamos vislumbrando mais adiante É de tocar e de cortar o coração.
Que aconteceu com tanto verde e tanta água E o céu azul que a fumaça diluiu? Quem tocou fogo e provocou um mega estrago à Vegetação e quem o rio poluiu?
Pantanal, Qual teu destino final, Nosso destino afinal? Qual, Pantanal?
Nem pássaro, nem peixe, nem onça, nem réptil Deve morrer queimado ou seco ano a ano. Oh que a mãe Terra interceda e intercepte o Golpe fatal da mão do ser humano,
Por tuas cheias e vazantes e história, Pelas araras, tuiuiús e jacarés, Visão da criação de Deus, de sua glória, Do roxo dos ipês a tudo que tu és.
Pantanal, Qual teu destino final, Nosso destino afinal? Qual, Pantanal?
Embaixo um rio baixo, em cima um sol laranja, No ar um cheiro de fuligem e fumaça. O que há de ser de nós no incerto do amanhã já Que no presente a gente está sob ameaça?
Já que pra nós importa a vida da planície, Que tá secando a cada ciclo que completa, A vida verde da alagável superfície, A mais infinda e das mais lindas do planeta.
Pantanal, Qual teu destino final, Nosso destino afinal? Qual, Pantanal?
A seca chega, a chuva some, e é só tragédia. Ao sol que cega, o solo racha, a vida míngua. A seca pálida, esquálida, precede a Propagação do fogo e suas línguas.
O fogo é alto, e também alto é seu ronco. Veloz, seu movimento ao vento, e a ação Torna um palito cada galho e cada tronco, De cinza branca como neve cobre o chão.
Pantanal, Qual teu destino final, Nosso destino afinal? Qual, Pantanal?
Os rios descem do planalto, onde nascem, Mas as nascentes o “agrobiz” tá destruindo. O pantaneiro em vão lamenta a fase má sem Que a cheia deixe de ir diminuindo.
A natureza grita, o coração aperta! Quem ouve é gente que conserva o ambiente. Com esperança de que a condição reverta, Restaura o solo e recupera a nascente.
Pantanal, Qual teu destino final, Nosso destino afinal? Qual, Pantanal?
Mineração, barragem, mudança climática, O agrotóxico, a exótica pastagem, O mar de soja, o rio sujo, o desmate, ca- Da vez mais esticada a estiagem.
A natureza avisa e a ciência alerta: Do modo que vão degradando o seu entorno, O Pantanal, irão torná-lo um deserto, Irão levá-lo além do ponto sem retorno.
Pantanal, Qual teu destino final, Nosso destino afinal? Qual, Pantanal?
Pantanal, Qual teu destino final, Nosso destino afinal? OH, PANTANAL?
“Sou a favor da ditadura”, disse ele,
“Do pau de arara e da tortura”, concluiu.
“Mas o regime, mais do que ter torturado,
Tinha que ter matado trinta mil”.
E em contradita ao que afirmou, na caradura
Disse: “Não houve ditadura no país”.
E no real o incrível, o inacreditável
Entrou que nem um pesadelo, infeliz,
Ao som raivoso de uma voz inconfiável
Que diz e mente e se desmente e se desdiz.
Disse que num quilombo “os afrodescendentes
Pesavam sete arrobas” – e daí pra mais:
Que “não serviam nem pra procriar”,
Como se fôssemos, nós negros, animais.
E ainda insiste que não é racista
E que racismo não existe no país.
Como é possível, como é aceitável
Que tal se diga e fique impune quem o diz?
Tamanha injúria não inocentável,
Quem a julgou, que júri, que juiz?
Disse que agora “o índio está evoluindo,
Cada vez mais é um ser humano igual a nós.
Mas isolado é como um bicho no zoológico”,
E decretou e declarou de viva voz:
“Nem um centímetro a mais de terra indígena!,
Que nela jaz muita riqueza pro país”.
Se pronuncia assim o impronunciável
Tal qual o nome que tal “hino” nunca diz,
Do inumano ser, o ser inominável,
Do qual emanam mil pronunciamentos vis.
Disse que se tivesse um filho homossexual,
Preferiria que o progênito “morresse”.
Pruma mulher disse que não a estupraria,
Porque “você é feia, não merece”.
E ainda disse que a mulher, “porque engravida”,
“Deve ganhar menos que o homem” no país.
Por tal conduta e atitude deplorável,
Sempre o comparam com alguns quadrúpedes.
Uma maldade, uma injustiça inaceitável!
Tais animais são mais afáveis e gentis.
Mas quem dirá que não é mais imaginável
Erguer de novo das ruínas o país?
Chamou o tema ambiental de “importante
Só pra vegano que só come vegetal”;
Chamou de “mentirosos” dados científicos
Do aumento do desmatamento florestal.
Disse que “a Amazônia segue intocada,
Praticamente preservada no país”.
E assim negou e renegou o inegável,
As evidências que a Ciência vê e diz,
Da derrubada e da queimada comprovável
Pelas imagens de satélites.
E proclamou : “Policial tem que matar,
Tem que matar, senão não é policial.
Matar com dez ou trinta tiros o bandido,
Pois criminoso é um ser humano anormal.
Matar uns quinze ou vinte e ser condecorado,
Não processado” e condenado no país.
Por essa fala inflexível, inflamável,
Que só a morte, a violência e o mal bendiz,
Por tal discurso de ódio, odiável,
O que resolve são canhões, revólveres.
“A minha especialidade é matar,
Sou capitão do exército”, assim grunhiu.
E induziu o brasileiro a se armar,
Que “todo mundo, pô, tem que comprar fuzil”,
Pois “povo armado não será escravizado”,
Numa cruzada pela morte no país
E num desprezo pela vida inolvidável,
Que nem quando lotavam UTIs
E o número de mortos era inumerável,
Disse “E daí? Não sou coveiro”. “E daí?”
“Os livros são hoje ‘um montão de amontoado’
De muita coisa escrita”, veio a declarar.
Tentou dizer “conclamo” e disse “eu canclomo”;
Não sabe conjugar o verbo “concl…amar”.
Clamou que “no Brasil tem professor demais”,
Tal qual um imbecil pra imbecis.
Vigora agora o que não é ignorável:
Os ignorantes ora imperam no país
(O que era antes, ó pensantes, impensável)…
Quem é essa gente que não sabe o que diz?
Mas quem dirá que não é mais imaginável
Erguer de novo das ruínas o país?
Chamou de “herói” um coronel torturador
E um capitão miliciano e assassino.
Chamou de “escória” bolivianos, haitianos…
De “paraíba” e “pau de arara” o nordestino.
E diz que “ser patrão aqui é uma desgraça”,
E diz que “fome ninguém passa no país”.
Tal qual num filme de terror, inenarrável,
Em que a verdade não importa nem se diz,
Desenrolou-se, incontível, incontável,
Um rol idiota de chacotas e pitis.
Disse que mera “fantasia” era o vírus
E “histeria” a reação à pandemia;
Que brasileiro “pula e nada no esgoto,
Não pega nada”, então também não pegaria
O que chamou de “gripezinha” e receitou (sim!),
Sim, cloroquina, e não vacina, pro país.
E assim sem ter que pôr à prova o improvável,
Um ditador tampouco põe pingo nos is,
E nem responde, falador irresponsável,
Por todo ato ou toda fala pros Brasis.
E repetiu o mote “Deus, pátria e família”
Do integralismo e da Itália do fascismo,
Colando ao lema uma suspeita “liberdade”…
Tal qual tinha parodiado do nazismo
O slogan “Alemanha acima de tudo”,
Pondo ao invés “Brasil” no nome do país.
E qual num sonho horroroso, detestável,
A gente viu sem crer o que não quer nem quis:
Comemorarem o que não é memorável,
Como sinistras, tristes efemérides…
Já declarou: “Quem queira vir para o Brasil
Pra fazer sexo com mulher, fique à vontade.
Nós não podemos promover turismo gay,
Temos famílias”, disse com moralidade.
E já gritou um dia: “Toda minoria
Tem de curvar-se à maioria!” no país.
E assim o incrível, o inacreditável,
Se torna natural, quanto mais se rediz,
E a intolerância, essa sim intolerável,
Nessa figura dá chiliques mis.
Mas quem dirá que não é mais imaginável
Erguer de novo das ruínas o país?
Por vezes saem, caem, soam como fezes
Da sua boca cada som, cada sentença…
É um nonsense, é um caô, umas fake-news,
É um libelo leviano ou uma ofensa.
Porque mal pensa no que diz, porque mal pensa,
“Não falo mais com a imprensa”, um dia diz.
Mas de fanáticos a horda lamentável,
Que louva a volta à ditadura no país,
A turba cega-surda surta, insuportável,
E grita “mito!”, “eu autorizo!”, e pede “bis!”
E disse “merda, bosta, porra, putaria,
Filho da puta, puta que pariu, caguei!”
E a cada internação tratando do intestino
E a cada termo grosso e um “Talquei?”,
O cheiro podre da sua retórica
Escatológica se espalha no país.
“Sou imorrível, incomível e imbrochável”,
Já se gabou em sua tão caracterís-
Tica linguagem baixo nível, reprovável,
Esse boçal ignaro, rei de mimimis.
Mas nada disse de Moise Kabagambe,
O jovem congolês que foi aqui linchado.
Do caso Evaldo Rosa, preto, musicista,
Com a família no automóvel baleado,
Disse que a tropa “não matou ninguém”, somente
“Foi um incidente” oitenta tiros de fuzis…
“O exército é do povo e não foi responsável”,
Falou o homem da gravata de fuzis,
Que é bem provável ser-lhe a vida descartável,
Sendo de negro ou de imigrante no país.
Bradou que “o presidente já não cumprirá
Mais decisão” do magistrado do Supremo,
Ao qual se dirigiu xingando: “Seu canalha!”
Mas acuado recuou do tom extremo,
E em nota disse: “Nunca tive intenção
(Não!) De agredir quaisquer Poderes” do país.
Falhou o golpe mas safou-se o impeachável,
Machão cagão de atos pusilânimes,
O que talvez se ache algum herói da Marvel
Mas que tá mais pra algum bandido de gibis.
Mas quem dirá que não é mais imaginável
Erguer de novo das ruínas o país?
E sugeriu pra poluição ambiental:
“É só fazer cocô, dia sim, dia não”.
E pra quem sugeriu feijão e não fuzil:
“Querem comida? Então, dá tiro de feijão”.
É sem preparo, sem noção, sem compostura.
Sua postura com o posto não condiz.
No entanto “chega! […] vai agora [inominável]”,
Cravou o maior poeta vivo, no país,
E ecoou o coro “fora, [inominável]!”
E o panelaço das janelas nas metrópoles!
E numa live de golpista prometeu:
“Sem voto impresso não haverá eleição!”
E praguejou pra jornalistas: “Cala a boca!
Vocês são uma raça em extinção!”
E no seu tosco português ele não pára:
Dispara sempre um disparate o que maldiz.
Hoje um mal-dito dito dele é deletável
Pelo Insta, Face, YouTube e Twitter no país.
Mas para nós, mais do que um post, é enquadrável
O impostor que com o posto não condiz.
Disse que não aceitará o resultado
Se derrotado na eleição da nossa história,
E: “Eu tenho três alternativas pro futuro:
Ou estar preso, ou ser morto ou a vitória”,
Porque “somente Deus me tira da cadeira
De presidente” (Oh Deus proteja esse país!”).
Tivéssemos um parlamento confiável,
Sem x comparsas seus cupinchas, cúmplices,
E seu impeachment seria inescapável,
Com n inquéritos, pedidos, CPIs.
………………………………………………………………
Não há cortina de fumaça indevassÁvel
Que encubra o crime desses tempos inci-vis
E tampe o sol que vem com o dia inadiÁvel
E brilha agora qual farol na noite gris.
É a esperança que renasce onde HÁ véu,
De um horizonte menos cinza e mais feliz.
É a passagem muito além do instagramÁvel
Do pesadelo à utopia por um triz,
No instante crucial de liberdade instÁvel
Pros democráticos de fato, equânimes,
Com a missão difícil mas realizável
De erguer das cinzas como fênix o país.
E quem dirá que não é mais imaginável
Erguer de novo das ruínas o país?
Mas quem dirá que não é mais imaginável
Erguer de novo das ruínas o país?
*
*
*
Tradução literal legendada:
“I’m all in favor of dictatorship”, he said,
“Of pau-de-arara and torture”, he concluded.
“But the regime, besides having tortured
Should have killed some thirty thousand.”
And contradicting what he shamelessly had said
He went: “There was no dictatorship in the country.”
In our reality, the incredible and unbelievable
Stepped in like a miserable nightmare
To the angry sound of a mistrustful voice
That tells lies and then unsays and retreats.
He said that, in a settlement, “Afro-descendants
Weighed 200 pounds” — and then said more:
That “they’re not even fit to procreate”,
As if we, black people, were animals.
And he insists that he’s not a racist
And that there’s no racism in the country.
How is it possible, how is it acceptable
That things like these are said with such impunity?
Such injury, so unforgivable
Was tried by what judge, what jury?
He said that now “native Indians are evolving,
Becoming human like the rest of us.
But isolated they’re like beasts in a zoo,”
And decreed and declared in full voice:
“Not another inch of indigenous land!,
Since too many riches lie in there.”
Thus the unpronounceable pronounces himself
The one whose name this “hymn” never spells
The inhuman being, the unnamable
From whence a thousand vile statements are spewed.
He said that, if he had a homosexual son
He’d rather see that offspring “dead.”
To a woman, he said he wouldn’t rape her
Because “you’re ugly, don’t deserve it.”
And also said that women, “since they get pregnant,”
In this country “should earn less than men.”
For such deplorable behavior and attitude
He’s often compared to some quadrupeds
Such unfair and unacceptable injustice!
Those beasts are far more friendly and affable.
But who will say that it’s no longer imaginable
To raise this country from its ruins once again?
He said the environment “only matters
To vegans, who eat nothing but vegetables;”
He called “deceitful” the scientific data
That warns about deforestation rates.
He said “the Amazon remains untouched,
Practically preserved in the country.”
And thus refuted and denied the undeniable
The evidences that all science ratifies
Of loggings and burnings verifiable
By satellite imagery.
And he proclaimed: “”A cop has to kill,
Has to kill, otherwise he’s not a cop.
Kill the bad guys with ten or thirty shots,
Since criminals are abnormal beings.
Kill fifteen or twenty and then get decorated,
Not sued” and prosecuted in the courts.
This inflexible, inflammable discourse
That death, violence and evil praise
This hateful discourse of hate
Sees solution only in canons and shotguns.
“My specialty is killing
I’m an army captain”, he grunted.
And induced Brazilians to get armed.
“Damn, everyone should buy a rifle”,
For “an armed people won’t be enslaved”,
In a crusade of death across the land.
And, in an unforgettable disregard for the casualties,
That kept piling up in ICUs,
With death tolls becoming countless
He said “So what? I’m not a gravedigger.”
“Books are today ‘a heaping pile’
Of many written things”, he came to declare.
Tried to say “conclamo” and said “canclomo”;
Can’t conjugate the verb “conclamar.”
Claimed that “Brazil has too many teachers”,
Like an imbecile addressing imbeciles.
What thrives now we can no longer ignore
We’re ruled by ignorance and nothing more
(Which was before, o, thinkers, unthinkable)…
Who are those people who don’t know what they say?
But who will say that it’s no longer imaginable
To raise this country from its ruins once again?
He called “hero” a coronel who tortured
And a militia captain who murdered.
He called Bolivians and Haitians “scum”…
And northeastern folk “”rednecks” and “hicks”
Said that “being a boss here is a drag”
And that “no one starves in the country.”
Just like an indescribable horror flick
Where truth seems not to matter anymore
Thus unfolded, uncontained and unaccountable
A long list of mindless mockeries.
He said the virus was mere “fantasy”
That the reaction to the pandemic was “hysteria”;
That Brazilians “jump into sewers and swim,
Never catching anything”, so they wouldn’t catch
What he called “a small cold”, and prescribed (yes!)
Chloroquine and not vaccine to the country.
And thus, without proving the unprovable
A dictator never crosses the t’s
Nor stands behind, irresponsible tattler,
His acts and speeches through Brazil.
And he repeated the motto “God, country, family”
From Integralismo and fascist Italy
Adding there only a suspicious “liberty”…
Like he did when he borrowed from the Nazis
The slogan “Germany above all”,
Substituting for that country’s name “Brazil”.
And, like a horrible, deplorable dream
We saw, incredulous, what we never wished for:
Commemorations of things not memorable,
As some sinister, sad ephemeris…
He declared: “Whoever wants to come to Brazil
To have sex with women, feel free.
We can’t promote gay tourism
We have families”, he said, morally.
And one day screamed: “Every minority
Has to bow to the majority!” in the country.
And so the incredible, the unbelievable
Is naturalized as it goes around
And intolerance, which is intolerable,
In this fiend finds a fertile ground.
But who will say that it’s no longer imaginable
To raise this country from its ruins once again?
Sometimes spewed, sounding like feces
Sentences and sounds are expelled from his mouth…
Slanders, fake news, nonsense,
Levities, libels or offences.
Because he barely thinks of what he’s gonna say
“I won’t talk to the press anymore”, decides one day.
But the regrettable fanatical hordes
That praise the return of the dictatorship
The unbearable deaf-blind mob goes insane
Yells “myth!”, “I authorize it!”, asks for more!
And he said “shit, crap, scum, fuckery,
Sonofabitch, motherfucker, I don’t give a shit!”
And, at every medical intestinal intervention,
With every curse, every “is that ok?”
The stinking stench of his rhetoric
Eschatologically spreads across the land.
“I never die, never get fucked, never go limp,”
He’s bragged in his characteristic,
Reproachable low-level lingo,
That ignorant dunce, the king of whines.
Yet he said nothing about Moise Kabagambe,
The youth from Congo that was lynched here
Or Evaldo Rosa, the black musician,
Shot dead in his car with his family,
He said the troops “didn’t kill anyone”, merely
“It was an incident”, eighty shotgun shots…
“The army belongs to the people and is not responsible”,
Said the man with the rifle-patterned tie
For him a life is very probably disposable,
If it’s a Black or immigrant that dies.
He blurted that “the president will no longer
Accept decisions” from a Supreme Court judge,
Whom he scolded and called: “Scoundrel!”
Then, cornered, changed his tone
Saying, in a note: “I never intended
(No!) To attack any Powers” in the country.
Coup averted, the impeachable slipped away
That macho chicken of pusillanimous behavior
Who may think of himself as a Marvel hero
But resembles more a villain of comic books.
But who will say that it’s no longer imaginable
To raise this country from its ruins once again?
For the environmental pollution, he suggested:
“One should just crap every other day.”
And to those who demanded beans, not guns:
“You guys want food? Then, fire beans.”
He’s unprepared, unaware, has no composure
Lacks the posture that his position demands.
However, “enough! […] leave now [unnamable]”,
Wrote, in the country, the greatest living poet,
And a choir of “get out [unnamable]!” echoed
To the sound of pots being banged in big cities!
In a threatening live feed, he promised:
“Without printed votes there won’t be any elections!”
And pounced on journalists: “Shut up!
You’re a race near extinction!”
In his crude Portuguese, he keeps on going:
Always spewing absurdities and imprecations.
All that’s misspoken is now easily deletable
On Instagram, Facebook, YouTube, Twitter
But for us those are no posts, they’re evidence
That the impostor doesn’t belong in his chair.
He said he won’t accept if he loses
This pivotal election in our history
And: “I have three future alternatives:
Be jailed, be killed or victory”,
Since “only God can remove me
From the presidential chair” (God help this country!”)
If we had a reliable parliament
Without his accomplices, his partners and pals
His impeachment would be unescapable
With many inquiries, petitions, committees.
There’s no smoke screen thick enough
To cover up the crimes of these uncivil times
And cloak the sun brought by the urgent day
Shining like a beacon in the greyest night.
It’s hope reborn where there’s a veil
Of a horizon that’s buoyant and bright
It’s the passing, way beyond Instagrammable,
From nightmare to utopia, in the nick of time,
In the crucial instant of unstable freedom
For those true, equanimous democrats
With the grueling, yet accomplishable mission
Of raising this country, like a phoenix, from the ashes.
E sugeriu pra poluição ambiental:
“É só fazer cocô, dia sim, dia não”.
E pra quem sugeriu feijão e não fuzil:
“Querem comida? Então, dá tiro de feijão”.
É sem preparo, sem noção, sem compostura.
Sua postura com o posto não condiz.
No entanto “chega! […] vai agora [inominável]”,
Cravou o maior poeta vivo, no país,
E ecoou o coro “fora, [inominável]!”
E o panelaço das janelas nas metrópoles!
E numa live de golpista prometeu:
“Sem voto impresso não haverá eleição!”
E praguejou pra jornalistas: “Cala a boca!
Vocês são uma raça em extinção!”
E no seu tosco português ele não pára:
Dispara sempre um disparate o que maldiz.
Hoje um mal-dito dito dele é deletável
Pelo Insta, Face, YouTube e Twitter no país.
Mas para nós, mais do que um post, é enquadrável
O impostor que com o posto não condiz.
Disse que não aceitará o resultado
Se derrotado na eleição da nossa história,
E: “Eu tenho três alternativas pro futuro:
Ou estar preso, ou ser morto ou a vitória”,
Porque “somente Deus me tira da cadeira
De presidente” (Oh Deus proteja esse país!”).
Tivéssemos um parlamento confiável,
Sem x comparsas seus cupinchas, cúmplices,
E seu impeachment seria inescapável,
Com n inquéritos, pedidos, CPIs.
………………………………………………………………
Não há cortina de fumaça indevassÁvel
Que encubra o crime desses tempos inci-vis
E tampe o sol que vem com o dia inadiÁvel
E brilha agora qual farol na noite gris.
É a esperança que renasce onde HÁ véu,
De um horizonte menos cinza e mais feliz.
É a passagem muito além do instagramÁvel
Do pesadelo à utopia por um triz,
No instante crucial de liberdade instÁvel
Pros democráticos de fato, equânimes,
Com a missão difícil mas realizável
De erguer das cinzas como fênix o país.
E quem dirá que não é mais imaginável
Erguer de novo das ruínas o país?
Mas quem dirá que não é mais imaginável
Erguer de novo das ruínas o país?
Chamou de “herói” um coronel torturador
E um capitão miliciano e assassino.
Chamou de “escória” bolivianos, haitianos…
De “paraíba” e “pau de arara” o nordestino.
E diz que “ser patrão aqui é uma desgraça”,
E diz que “fome ninguém passa no país”.
Tal qual num filme de terror, inenarrável,
Em que a verdade não importa nem se diz,
Desenrolou-se, incontível, incontável,
Um rol idiota de chacotas e pitis.
Disse que mera “fantasia” era o vírus
E “histeria” a reação à pandemia;
Que brasileiro “pula e nada no esgoto,
Não pega nada”, então também não pegaria
O que chamou de “gripezinha” e receitou (sim!),
Sim, cloroquina, e não vacina, pro país.
E assim sem ter que pôr à prova o improvável,
Um ditador tampouco põe pingo nos is,
E nem responde, falador irresponsável,
Por todo ato ou toda fala pros Brasis.
E repetiu o mote “Deus, pátria e família”
Do integralismo e da Itália do fascismo,
Colando ao lema uma suspeita “liberdade”…
Tal qual tinha parodiado do nazismo
O slogan “Alemanha acima de tudo”,
Pondo ao invés “Brasil” no nome do país.
E qual num sonho horroroso, detestável,
A gente viu sem crer o que não quer nem quis:
Comemorarem o que não é memorável,
Como sinistras, tristes efemérides…
Já declarou: “Quem queira vir para o Brasil
Pra fazer sexo com mulher, fique à vontade.
Nós não podemos promover turismo gay,
Temos famílias”, disse com moralidade.
E já gritou um dia: “Toda minoria
Tem de curvar-se à maioria!” no país.
E assim o incrível, o inacreditável,
Se torna natural, quanto mais se rediz,
E a intolerância, essa sim intolerável,
Nessa figura dá chiliques mis.
Mas quem dirá que não é mais imaginável
Erguer de novo das ruínas o país?
“Sou a favor da ditadura”, disse ele,
“Do pau de arara e da tortura”, concluiu.
“Mas o regime, mais do que ter torturado,
Tinha que ter matado trinta mil”.
E em contradita ao que afirmou, na caradura
Disse: “Não houve ditadura no país”.
E no real o incrível, o inacreditável
Entrou que nem um pesadelo, infeliz,
Ao som raivoso de uma voz inconfiável
Que diz e mente e se desmente e se desdiz.
Disse que num quilombo “os afrodescendentes
Pesavam sete arrobas” – e daí pra mais:
Que “não serviam nem pra procriar”,
Como se fôssemos, nós negros, animais.
E ainda insiste que não é racista
E que racismo não existe no país.
Como é possível, como é aceitável
Que tal se diga e fique impune quem o diz?
Tamanha injúria não inocentável,
Quem a julgou, que júri, que juiz?
Disse que agora “o índio está evoluindo,
Cada vez mais é um ser humano igual a nós.
Mas isolado é como um bicho no zoológico”,
E decretou e declarou de viva voz:
“Nem um centímetro a mais de terra indígena!,
Que nela jaz muita riqueza pro país”.
Se pronuncia assim o impronunciável
Tal qual o nome que tal “hino” nunca diz,
Do inumano ser, o ser inominável,
Do qual emanam mil pronunciamentos vis.
Disse que se tivesse um filho homossexual,
Preferiria que o progênito “morresse”.
Pruma mulher disse que não a estupraria,
Porque “você é feia, não merece”.
E ainda disse que a mulher, “porque engravida”,
“Deve ganhar menos que o homem” no país.
Por tal conduta e atitude deplorável,
Sempre o comparam com alguns quadrúpedes.
Uma maldade, uma injustiça inaceitável!
Tais animais são mais afáveis e gentis.
Mas quem dirá que não é mais imaginável
Erguer de novo das ruínas o país?
Chamou o tema ambiental de “importante
Só pra vegano que só come vegetal”;
Chamou de “mentirosos” dados científicos
Do aumento do desmatamento florestal.
Disse que “a Amazônia segue intocada,
Praticamente preservada no país”.
E assim negou e renegou o inegável,
As evidências que a Ciência vê e diz,
Da derrubada e da queimada comprovável
Pelas imagens de satélites.
E proclamou : “Policial tem que matar,
Tem que matar, senão não é policial.
Matar com dez ou trinta tiros o bandido,
Pois criminoso é um ser humano anormal.
Matar uns quinze ou vinte e ser condecorado,
Não processado” e condenado no país.
Por essa fala inflexível, inflamável,
Que só a morte, a violência e o mal bendiz,
Por tal discurso de ódio, odiável,
O que resolve são canhões, revólveres.
“A minha especialidade é matar,
Sou capitão do exército”, assim grunhiu.
E induziu o brasileiro a se armar,
Que “todo mundo, pô, tem que comprar fuzil”,
Pois “povo armado não será escravizado”,
Numa cruzada pela morte no país
E num desprezo pela vida inolvidável,
Que nem quando lotavam UTIs
E o número de mortos era inumerável,
Disse “E daí? Não sou coveiro”. “E daí?”
“Os livros são hoje ‘um montão de amontoado’
De muita coisa escrita”, veio a declarar.
Tentou dizer “conclamo” e disse “eu canclomo”;
Não sabe conjugar o verbo “concl…amar”.
Clamou que “no Brasil tem professor demais”,
Tal qual um imbecil pra imbecis.
Vigora agora o que não é ignorável:
Os ignorantes ora imperam no país
(O que era antes, ó pensantes, impensável)…
Quem é essa gente que não sabe o que diz?
Mas quem dirá que não é mais imaginável
Erguer de novo das ruínas o país?
Chamou de “herói” um coronel torturador
E um capitão miliciano e assassino.
Chamou de “escória” bolivianos, haitianos…
De “paraíba” e “pau de arara” o nordestino.
E diz que “ser patrão aqui é uma desgraça”,
E diz que “fome ninguém passa no país”.
Tal qual num filme de terror, inenarrável,
Em que a verdade não importa nem se diz,
Desenrolou-se, incontível, incontável,
Um rol idiota de chacotas e pitis.
Disse que mera “fantasia” era o vírus
E “histeria” a reação à pandemia;
Que brasileiro “pula e nada no esgoto,
Não pega nada”, então também não pegaria
O que chamou de “gripezinha” e receitou (sim!),
Sim, cloroquina, e não vacina, pro país.
E assim sem ter que pôr à prova o improvável,
Um ditador tampouco põe pingo nos is,
E nem responde, falador irresponsável,
Por todo ato ou toda fala pros Brasis.
E repetiu o mote “Deus, pátria e família”
Do integralismo e da Itália do fascismo,
Colando ao lema uma suspeita “liberdade”…
Tal qual tinha parodiado do nazismo
O slogan “Alemanha acima de tudo”,
Pondo ao invés “Brasil” no nome do país.
E qual num sonho horroroso, detestável,
A gente viu sem crer o que não quer nem quis:
Comemorarem o que não é memorável,
Como sinistras, tristes efemérides…
Já declarou: “Quem queira vir para o Brasil
Pra fazer sexo com mulher, fique à vontade.
Nós não podemos promover turismo gay,
Temos famílias”, disse com moralidade.
E já gritou um dia: “Toda minoria
Tem de curvar-se à maioria!” no país.
E assim o incrível, o inacreditável,
Se torna natural, quanto mais se rediz,
E a intolerância, essa sim intolerável,
Nessa figura dá chiliques mis.
Mas quem dirá que não é mais imaginável
Erguer de novo das ruínas o país?
Por vezes saem, caem, soam como fezes
Da sua boca cada som, cada sentença…
É um nonsense, é um caô, umas fake-news,
É um libelo leviano ou uma ofensa.
Porque mal pensa no que diz, porque mal pensa,
“Não falo mais com a imprensa”, um dia diz.
Mas de fanáticos a horda lamentável,
Que louva a volta à ditadura no país,
A turba cega-surda surta, insuportável,
E grita “mito!”, “eu autorizo!”, e pede “bis!”
E disse “merda, bosta, porra, putaria,
Filho da puta, puta que pariu, caguei!”
E a cada internação tratando do intestino
E a cada termo grosso e um “Talquei?”,
O cheiro podre da sua retórica
Escatológica se espalha no país.
“Sou imorrível, incomível e imbrochável”,
Já se gabou em sua tão caracterís-
Tica linguagem baixo nível, reprovável,
Esse boçal ignaro, rei de mimimis.
Mas nada disse de Moise Kabagambe,
O jovem congolês que foi aqui linchado.
Do caso Evaldo Rosa, preto, musicista,
Com a família no automóvel baleado,
Disse que a tropa “não matou ninguém”, somente
“Foi um incidente” oitenta tiros de fuzis…
“O exército é do povo e não foi responsável”,
Falou o homem da gravata de fuzis,
Que é bem provável ser-lhe a vida descartável,
Sendo de negro ou de imigrante no país.
Bradou que “o presidente já não cumprirá
Mais decisão” do magistrado do Supremo,
Ao qual se dirigiu xingando: “Seu canalha!”
Mas acuado recuou do tom extremo,
E em nota disse: “Nunca tive intenção
(Não!) De agredir quaisquer Poderes” do país.
Falhou o golpe mas safou-se o impeachável,
Machão cagão de atos pusilânimes,
O que talvez se ache algum herói da Marvel
Mas que tá mais pra algum bandido de gibis.
Mas quem dirá que não é mais imaginável
Erguer de novo das ruínas o país?
E sugeriu pra poluição ambiental:
“É só fazer cocô, dia sim, dia não”.
E pra quem sugeriu feijão e não fuzil:
“Querem comida? Então, dá tiro de feijão”.
É sem preparo, sem noção, sem compostura.
Sua postura com o posto não condiz.
No entanto “chega! […] vai agora [inominável]”,
Cravou o maior poeta vivo, no país,
E ecoou o coro “fora, [inominável]!”
E o panelaço das janelas nas metrópoles!
E numa live de golpista prometeu:
“Sem voto impresso não haverá eleição!”
E praguejou pra jornalistas: “Cala a boca!
Vocês são uma raça em extinção!”
E no seu tosco português ele não pára:
Dispara sempre um disparate o que maldiz.
Hoje um mal-dito dito dele é deletável
Pelo Insta, Face, YouTube e Twitter no país.
Mas para nós, mais do que um post, é enquadrável
O impostor que com o posto não condiz.
Disse que não aceitará o resultado
Se derrotado na eleição da nossa história,
E: “Eu tenho três alternativas pro futuro:
Ou estar preso, ou ser morto ou a vitória”,
Porque “somente Deus me tira da cadeira
De presidente” (Oh Deus proteja esse país!”).
Tivéssemos um parlamento confiável,
Sem x comparsas seus cupinchas, cúmplices,
E seu impeachment seria inescapável,
Com n inquéritos, pedidos, CPIs.
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Não há cortina de fumaça indevassÁvel
Que encubra o crime desses tempos inci-vis
E tampe o sol que vem com o dia inadiÁvel
E brilha agora qual farol na noite gris.
É a esperança que renasce onde HÁ véu,
De um horizonte menos cinza e mais feliz.
É a passagem muito além do instagramÁvel
Do pesadelo à utopia por um triz,
No instante crucial de liberdade instÁvel
Pros democráticos de fato, equânimes,
Com a missão difícil mas realizável
De erguer das cinzas como fênix o país.
E quem dirá que não é mais imaginável
Erguer de novo das ruínas o país?
Mas quem dirá que não é mais imaginável
Erguer de novo das ruínas o país?
O preto, o pardo, o indígena, no final das contas,
O pobre, o excluído, foi levado em conta,
E o colorido das escolas tomou conta,
Num não à colonização e numa afronta
À escravidão e à exclusão escrotas,
Com as cotas.
E de orgulho renovou-se a nossa cota,
E de alegria que revive e não se esgota
E que resgata o sonho, a esperança morta.
E campi renovaram-se com outras
Visões e perspectivas, percepções e óticas,
Com as cotas.
As cotas abrem portas e comportas
Duma represa de potências que brotam,
E mudam mundos, mudam vidas que importam
E que já não hão de passar incógnitas,
E na nação hão de brilhar indômitas,
Com as cotas.
As cotas
Abrem portas…
Pra corrigirmos nosso rumo, nossa rota,
E interrompermos um rosário de derrotas,
E sermos hexa, sermos hepta, sermos octa,
E afirmarmos uma força apoteótica,
E escrevermos uma história de quem opta
Pelas cotas.
As cotas
Abrem portas.
O empenho do cotista dá na vista, isto se nota,
E o desempenho é igual ao que é geral em média e nota.
E é isto que revela cada estudo, cada amostra.
Nas salas, corredores e no campus, tudo mostra
As cores do país do povo de que a gente gosta;
As caras do Brasil que a gente aprova e no que aposta.
E a prova da aprovação das cotas, a resposta
De tal questão, nas universidades tá exposta:
Que racial e socialmente mesmo só se dota
De um corpo discente justo justo se se adotam
As cotas,
As cotas.
As cotas
Abrem portas.
E já que a vil desigualdade nos revolta,
E já se viu que há de vir reviravolta,
E a biodiversidade humana nos exorta,
E um plano de oportunidades mil aporta
E deixa a casa-grande e a branquitude atônitas,
Com as cotas…
E um mero rato de um meritocrata arrota
Seu ideário ideal de ideias rotas,
O deputado que é de fato e que denota
Que é democrático, que não é um hipócrita,
Um bosta, um lambe-botas, não se obsta
E não boicota e não sabota, e vota
Pelas cotas.
As cotas
Abrem portas.
O filho do pedreiro, a filhota
Da faxineira vão ter cota,
E já que nossas cotas são anticaóticas
E antirracistas, dignas de nota,
E antidistópicas porém não são exóticas,
Já que são tópicas e utópicas, são ótimas
Nossas cotas.
Maior floresta tropical da Terra A toda hora sofre um duro golpe. Contra trator, corrente, motosserra, A bela flora clama em vão: “Me poupe!” Porém tem uma gente surda e cega Para a beleza e o valor da mata, Embora o mundo grite que já chega Pois é a vida que o desmate mata.
Mais vasta ainda todavia é a devastação e o trauma: Focos de fogo nos sufocam fauna, flora e até a alma.
Amazônia! Razão de tanta insânia e tanta insônia! Amazônia! Objeto de omissão e ação errônea! Amazônia! É sem igual, sem plano B nem clone a Amazônia!
Desmonte pra desmate e desvario Liberam a floresta no Brasil Pro agrobiz e pra mineração, Pra hidrelétrica, pra exploração. Recompensando o crime ambiental, Desregulando o clima mundial, Negam ciência, incêndio e derrubada. Negando, vão passando a boiada.
Que ignorância, repugnância, a cada lance, a cada vídeo! Que grande bioecoetnogenomatrisuicídio!
Amazônia! Abaixo o (des) governo que abandone a Amazônia! Não mais a soja, o pasto que seccione a Amazônia! Não mais a carne, o prato que pressione a Amazônia!
Dos povos da floresta sob pressão, O indígena, seu grande guardião, Em comunhão com ela há milênios, Nos últimos e trágicos decênios Vem vendo a mata sendo ameaçada E cada terra deles atacada Por levas de peões de poderosos Com planos de riqueza horrorosos.
É invasão!, destruição!, ódio a quem são seus empecilhos! Eles não pensam no amanhã nem do planeta nem dos próprios filhos!
Amazônia! Abaixo o madeireiro que detone a Amazônia! Abaixo o garimpeiro que infeccione a Amazônia! Abaixo o grileiro que fraciona a Amazônia!
Mais valiosa que qualquer minério, Tragada pela mata que transpira, A água que evapora sobe e vira De veio subterrâneo a rio aéreo. Mais volumosos do que o Amazonas, Os rios voadores distribuem Seus límpidos vapores que afluem Ao Centro-Sul, chegando noutras zonas.
Então como é que na floresta mais chuvosa o fogo avança, E ardendo em chamas nela queima de futuro uma esperança?
Amazônia! Não mais um mandatário que intencione a Amazônia, Nem mais um empresário que ambicione a Amazônia Pra mais um ciclo de nação-colônia. Amazônia!
Visão monumental que maravilha Obra da natureza que exubera De cores, seres, cheiros, som, de vida Tão pródiga, tão pura, tão diversa A fábrica de chuva mais prolixa A máquina do mundo mais complexa O doceanoverdeparaíso O coração pulsante do planeta
Quinze mil árvores contudo agora estão indo pro chão. Quinze mil vidas derrubadas só durante o tempo desta canção!…
… Amazônia… Que nem desmatamento desmorone a Amazônia! E nem desmandamento deixe insone a Amazônia! E nem o aquecimento desfuncione a Amazônia!
O que o índio viu, previu, falou, Também o cientista comprovou. Desmate aumenta, o clima seco aquece A mata, o céu e a Terra, que estarrece. Esse é o recado deles, lá no fundo: Salve-se a selva ou não se salva o mundo! Pra não torná-los um inferno, um forno, Salve a Amazônia do ponto sem retorno!
Será que ainda tá em tempo ou o timing disso já perdemos? Pois, evitemos pelo menos os eventos mais extremos.
Amazônia… Quando afinal o homem dimensione a Amazônia, Que venha a ter valido a nossa insônia – Amazônia –, Enquanto nos encante e emocione a… Amazônia!
Salve a Amazônia! Salve-se a selva ou não se salva o mundo!
Aqui ´stamos na avenida, Pelas ruas, pela vida, Marchando com o cortejo Que flui horizontalmente, Manifestando o desejo De uma cidade includente E uma nação cidadã tra- Duzido numa canção, Numa sentença, num mantra, Num grito ou numa oração…
… Por todo jovem negro que é caçado Pela polícia na periferia; Por todo pobre criminalizado Só por ser pobre, por pobrefobia; Por todo povo índio que é expulso Da sua terra por um ruralista; Pela mulher que é vítima do impulso Covarde e violento de um machista;
Por todo irmão do Senegal, de Angola E lá do Congo aqui refugiado; Pelo menor de idade sem escola, A se formar no crime condenado; Por todo professor da rede pública Mal-pago e maltratado pelo Estado; Pelo mendigo roto em cada súplica; Por todo casal gay discriminado.
E proclamamos que não Se exclua ninguém senão A exclusão.
Aqui ´stamos nós de volta, Sob o signo da revolta, Por uma vida mais digna E por um mundo mais justo, Com quem já não se resigna E se opõe sem nenhum susto A uma classe dominante Hostil à população, Numa ação dignificante Que nasce da indignação…
… Por todo homem algemado ao poste, Tal qual seu ancestral posto no tronco; E o jovem que protesta até que o prostre O tiro besta de um PM bronco; Por todo morador de rua, sem saída, Tratado como lixo sob a ponte; Por toda a vida que foi destruída Em Mariana ou no Xingu, por Belo Monte;
Por toda vítima de cada enchente, De cada seca dura e duradoura; Por todo escravo ou seu equivalente; Pela criança que labuta na lavoura; Por todo pai ou mãe de santo atacada Por quem exclui quem crê num outro deus; Por toda mãe guerreira, abandonada, Que cria sem o pai os filhos seus.
E proclamamos que não se exclua ninguém Senão a Exclusão.
Eis aqui a face escrota De um modelo que se esgota. Policiais não defendem; Políticos não contentam; Uns nos agridem ou prendem; Outros não nos representam. E aquele que não é títere, E é rebelde coração, Vai no Face, no zapp e Twitter e Combina um ato ou ação…
… Por todo defensor da natureza E todo ambientalista ameaçado; E cada vítima de bullying indefesa; E cada transexual crucificado; E cada puta, cada travesti; E cada louco, e cada craqueiro; E cada imigrante do Haiti; E cada quilombola e beiradeiro;
Pelo trabalhador sem moradia, Pelo sem-terra e pelo sem-trabalho; Pelos que passam séculos ao dia Em conduções que cansam pra caralho; Pela empregada que batalha, e como, Tal como no Sudeste o nordestino; E a órfã sem pais hetero nem homo, E a morta num aborto clandestino.
Impelidos pelos ventos Dos acontecimentos, Louvamos os mais diversos Movimentos libertários Numa cascata de versos Sociais e solidários Duma canção de protesto Qual “Canção de Redenção”, Uma canção-manifesto, Canção “Manifestação”…
… Por todo ser humano ou animal Tratado com desumanimaldade; Por todo ser da mata ou vegetal Que já foi abatido ou inda há-de; Por toda pobre mãe de um inocente Executado em noite de chacina; Por todo preso preso injustamente, Ou onde preso e preso se assassina;
Pelo ativista de direitos perseguido E o policial fodido igual quem ele algema; Pelo neguinho da favela inibido De frequentar a praia de Ipanema; E pelo pobre que na dor padece De amor, de solidão ou de doença; E as presas da opressão de toda espécie, E todo aquele em quem ninguém mais pensa…
E proclamamos que não se exclua ninguém Nem nada senão a Exclusão.
Dando à vida e à alma grande Um sentido que as expande, Cantamos em consonância Com os que sofrem ofensa, Violência, intolerância, Racismo, indiferença; As Cláudias e Marielles, Rafaeis e Amarildos Da imensa legião De excluídos do Brasil, do S- Ul ao norte da nação.
E proclamamos que não se exclua Ninguém senão a Exclusão.
Já que depois de mais de cinco séculos E de ene ciclos de etnogenocídio, O índio vive, em meio a mil flagelos, Já tendo sido morto e renascido,
Tal como o povo kadiwéu e o panará –
Demarcação já! Demarcação já!
Já que diversos povos vêm sendo atacados, Sem vir a ver a terra demarcada, A começar pela primeira no Brasil Que o branco invadiu já na chegada:
A do tupinambá –
Demarcação já! Demarcação já!
Já que, tal qual as obras da Transamazônica, Quando os milicos os chamavam de silvícolas, Hoje um projeto de outras obras faraônicas, Correndo junto da expansão agrícola,
Induz a um indicídio, vide o povo kaiowá,
Demarcação já! Demarcação já!
Já que tem bem mais latifúndio em desmesura Que terra indígena pelo país afora; E já que o latifúndio é só monocultura, Mas a T.I. é polifauna e pluriflora,
Ah!,
Demarcação já! Demarcação já!
E um tratoriza, motosserra, transgeniza, E o outro endeusa e diviniza a natureza: O índio a ama por sagrada que ela é, E o ruralista, pela grana que ela dá;
Hum… Bah!
Demarcação já! Demarcação já!
Já que por retrospecto só o autóc- Tone mantém compacta e muito intacta, E não impacta, e não infecta, e se Conecta e tem um pacto com a mata
–Sem a qual a água acabará –,
Demarcação já! Demarcação já!
Pra que não deixem nem terras indígenas Nem unidades de conservação Abertas como chagas cancerígenas Pelos efeitos da mineração
E de hidrelétricas no ventre da Amazônia, em Rondônia, no Pará…
Demarcação já! Demarcação já!
Já que “tal qual o negro e o homossexual, O índio é ´tudo que não presta´”, como quer Quem quer tomar-lhe tudo que lhe resta, Seu território, herança do ancestral,
E já que o que ele quer é o que é dele já,
Demarcação, “tá”? Demarcação já!
Pro índio ter a aplicação do Estatuto Que linde o seu rincão qual um reduto, E blinde-o contra o branco mau e bruto Que lhe roubou aquilo que era seu,
Tal como aconteceu, do pampa ao Amapá,
Demarcação lá! Demarcação já!
Já que é assim que certos brancos agem: Chamando-os de selvagens, se reagem, E de não índios, se nem fingem reação À violência e à violação
De seus direitos, de Humaitá ao Jaraguá;
Demarcação já! Demarcação já!
Pois índio pode ter Ipad, freezer, TV, caminhonete, “voadeira”, Que nem por isso deixa de ser índio Nem de querer e ter na sua aldeia
Cuia, canoa, cocar, arco, maracá.
Demarcação já! Demarcação já!
Pra que o indígena não seja um indigente, Um alcoólatra, um escravo ou exilado, Ou acampado à beira duma estrada, Ou confinado e no final um suicida,
Já velho ou jovem ou – pior – piá.
Demarcação já! Demarcação já!
Por nós não vermos como natural A sua morte sociocultural; Em outros termos, por nos condoermos – E termos como belo e absoluto
Seu contributo do tupi ao tucupi, do guarani ao guaraná.
Demarcação já! Demarcação já!
Pois guaranis e makuxis e pataxós Estão em nós, e somos nós, pois índio é nós; É quem dentro de nós a gente traz, aliás, De kaiapós e kaiowás somos xarás,
Xará.
Demarcação já! Demarcação já!
Pra não perdermos com quem aprender A comover-nos ao olhar e ver As árvores, os pássaros e rios, A chuva, a rocha, a noite, o sol, a arara
E a flor de maracujá,
Demarcação já! Demarcação já!
Pelo respeito e pelo direito À diferença e à diversidade De cada etnia, cada minoria, De cada espécie da comunidade
De seres vivos que na Terra ainda há,
Demarcação já! Demarcação já!
Por um mundo melhor ou, pelo menos, Algum mundo por vir; por um futuro Melhor ou, oxalá, algum futuro; Por eles e por nós, por todo mundo,
Que nessa barca junto todo mundo “tá”,
Demarcação já! Demarcação já!
Já que depois que o enxame de Ibirapueras E de Maracanãs de mata for pro chão, Os yanomami morrerão deveras, Mas seus xamãs seu povo vingarão,
E sobre a humanidade o céu cairá,
Demarcação já! Demarcação já!
Já que, por isso, o plano do krenak encerra Cantar, dançar, pra suspender o céu; E indígena sem terra é todos sem a Terra, É toda a civilização ao léu
Ao deus-dará.
Demarcação já! Demarcação já!
Sem mais embromação na mesa do Palácio, Nem mais embaço na gaveta da Justiça, Nem mais demora nem delonga no processo, Nem retrocesso nem pendenga no Congresso,
Nem lengalenga, nenhenhém nem blablablá!
Demarcação já! Demarcação já!
Pra que nas terras finalmente demarcadas, Ou autodemarcadas pelos índios, Nem madeireiros, garimpeiros, fazendeiros, Mandantes nem capangas nem jagunços,
Milícias nem polícias os afrontem.
Vrá!
Demarcação ontem! Demarcação já!
E deixa o índio, deixa o índio, deixa os índios lá.
Ó donos do agrobiz, ó reis do agronegócio,
Ó produtores de alimento com veneno,
Vocês que aumentam todo ano sua posse,
E que poluem cada palmo de terreno,
E que possuem cada qual um latifúndio,
E que destratam e destroem o ambiente,
De cada mente de vocês olhei no fundo
E vi o quanto cada um, no fundo, mente.
Vocês desterram povaréus ao léu que erram,
E não empregam tanta gente como pregam.
Vocês não matam nem a fome que há na Terra,
Nem alimentam tanto a gente como alegam.
É o pequeno produtor que nos provê e os
Seus deputados não protegem, como dizem:
Outra mentira de vocês, Pinóquios véios.
Vocês já viram como tá o seu nariz, hem?
Vocês me dizem que o Brasil não desenvolve
Sem o agrebiz feroz, desenvolvimentista.
Mas até hoje na verdade nunca houve
Um desenvolvimento tão destrutivista.
É o que diz aquele que vocês não ouvem,
O cientista, essa voz, a da ciência.
Tampouco a voz da consciência os comove.
Vocês só ouvem algo por conveniência.
Para vocês, que emitem montes de dióxido,
Para vocês, que têm um gênio neurastênico,
Pobre tem mais é que comer com agrotóxico,
Povo tem mais é que comer, se tem transgênico.
É o que acha, é o que disse um certo dia
Miss Motosserrainha do Desmatamento.
Já o que acho é que vocês é que deviam
Diariamente só comer seu “alimento”.
Vocês se elegem e legislam, feito cínicos,
Em causa própria ou de empresa coligada:
O frigo, a múlti de transgene e agentes químicos,
Que bancam cada deputado da bancada.
Té comunista cai no lobby antiecológico
Do ruralista cujo clã é um grande clube.
Inclui até quem é racista e homofóbico.
Vocês abafam mas tá tudo no YouTube.
Vocês que enxotam o que luta por justiça;
Vocês que oprimem quem produz e que preserva;
Vocês que pilham, assediam e cobiçam
A terra indígena, o quilombo e a reserva;
Vocês que podam e que fodem e que ferram
Quem represente pela frente uma barreira,
Seja o posseiro, o seringueiro ou o sem-terra,
O extrativista, o ambientalista ou a freira;
Vocês que criam, matam cruelmente bois,
Cujas carcaças formam um enorme lixo;
Vocês que exterminam peixes, caracóis,
Sapos e pássaros e abelhas do seu nicho;
E que rebaixam planta, bicho e outros entes,
E acham pobre, preto e índio “tudo” chucro:
Por que dispensam tal desprezo a um vivente?
Por que só prezam e só pensam no seu lucro?
Eu vejo a liberdade dada aos que se põem
Além da lei, na lista do trabalho escravo,
E a anistia concedida aos que destroem
O verde, a vida, sem morrer com um centavo.
Com dor eu vejo cenas de horror tão fortes,
Tal como eu vejo com amor a fonte linda –
E além do monte o pôr-do-sol porque por sorte
Vocês não destruíram o horizonte… Ainda.
Seu avião derrama a chuva de veneno
Na plantação e causa a náusea violenta
E a intoxicação “ne” adultos e pequenos –
Na mãe que contamina o filho que amamenta.
Provoca aborto e suicídio o inseticida,
Mas na mansão o fato não sensibiliza.
Vocês já não ´tão nem aí co´aquelas vidas.
Vejam como é que o Ogrobiz desumaniza…:
Desmata Minas, a Amazônia, Mato Grosso…;
Infecta solo, rio, ar, lençol freático;
Consome, mais do que qualquer outro negócio,
Um quatrilhão de litros d´água, o que é dramático.
Por tanto mal, do qual vocês não se redimem;
Por tal excesso que só leva à escassez –
Por essa seca, essa crise, esse crime,
Não há maiores responsáveis que vocês.
Eu vejo o campo de vocês ficar infértil,
Num tempo um tanto longe ainda, mas não muito;
E eu vejo a terra de vocês restar estéril,
Num tempo cada vez mais perto, e lhes pergunto:
O que será que os seus filhos acharão de
Vocês diante de um legado tão nefasto,
Vocês que fazem das fazendas hoje um grande
Deserto verde só de soja, cana ou pasto?
Pelos milhares que ontem foram e amanhã ser-
Ão mortos pelo grão-negócio de vocês;
Pelos milhares dessas vítimas de câncer,
De fome e sede, e fogo e bala, e de AVCs;
Saibam vocês, que ganham com um negócio desse
Muitos milhões, enquanto perdem sua alma,
Que eu me alegraria se afinal morresse
Esse sistema que nos causa tanto trauma.
Passa da uma, tudo emudeceu.
A lua é um CD de luz no céu
E aqui o meu apê é um deserto.
Agora cada um está na sua.
Você sumiu, você que é de lua,
E eu a queria tanto aqui por perto.
Meu bem, meu doce bem, minha senhora,
Eu poderia declarar agora
Meu grande amor, minha paixão ardente.
Em minha mente insone, só seu nome
Ecoa, só não soa o telefone;
E a sua ausência se faz mais presente.
Passa das duas na cidade nua;
Ao longe carros rugem para a lua
E alguma coisa fica mais distante.
Eu sinto a sua falta no meu quarto;
Será que você volta antes das quatro?
É tudo que eu queria nesse instante.
de “Respeitem meus Cabelos Brancos”, de Chico César
Era uma luz, um clarão Era uma luz, um clarãoum insight num blecaute. Éramos nós sem ação, Éramos nós sem ação,como quem vai a nocaute. Era uma revelação Era uma revelaçãoe era também um segredo; Era sem explicação, Era sem explicação,sem palavras e sem medo.
Era uma contemplação Era uma contemplaçãocomo com lente que aumenta; Era o espaço em expansão Era o espaço em expansãoe o tempo em câmara lenta. Era uma tal comunhão Era uma tal comunhãocom o um e tudo à solta; Era uma outra visão Era uma outra visãodas coisas à nossa volta.
E as coisas eram as coisas: E as coisas eram as coisas:a folha, a flor e o grão, O sol no azul e depois as O sol no azul e depois asestrelas no preto vão. E as coisas eram as coisas E as coisas eram as coisascom intensificação, Que as coisas eram as coisas Que as coisas eram as coisasporém em ampliação.
Era como se as víssemos, Era como se as víssemos,entrando nelas então, Com sentidos agudíssimos Com sentidos agudíssimosdesvelando seu desvão, Indo por entre, por dentro, Indo por entre, por dentro,aprendendo a apreensão De tudo bem dês do centro, De tudo bem dês do centro,do fundo, do coração.
Era qual uma lição Era qual uma liçãodel viejo brujo don Juan; Uma complexa questão Uma complexa questãosem nexo qual um koan; Um signo sem tradução Um signo sem traduçãono plano léxico-semântico; Enigma, contradição Enigma, contradiçãono nível de um campo quântico.
Era qual uma visão Era qual uma visãode um milagre microscópico, Do infinito num botão, Do infinito num botão,e em ritmo caleidoscópico Ciclos de aniquilação Ciclos de aniquilaçãoe criação sucessiva, Átomos em mutação, Átomos em mutação,cósmica dança de Shiva.
E as coisas ao nosso ver E as coisas ao nosso verdavam no fundo a impressão De ser de ser e não-ser De ser de ser e não-sera sua composição; Como a onda tão etérea Como a onda tão etéreae a partícula não tão Num ponto tal da matéria Num ponto tal da matériatanto ‘tão quanto não ‘tão.
Até que ponto resistem Até que ponto resistema lógica e a razão, Já que nas coisas existem Já que nas coisas existemcoisas que existem e não? O que dizer do indizível, O que dizer do indizível,se é preciso precisão, Pra quem crê no que é incrível Pra quem crê no que é incrívelnão devanear em vão?
Era uma vez num verão, Era uma vez num verão,num dia claro de luz, Há muito tempo, um tempão, Há muito tempo, um tempão,ao som das ondas azuis.
E as coisas aquela vez E as coisas aquela vezeram qual foram e são, Só que tínhamos os pés Só que tínhamos os pésum tanto fora do chão.
Passa da uma, tudo emudeceu. A lua é um CD de luz no céu E aqui o meu apê é um deserto. Agora cada um está na sua. Você sumiu, você que é de lua, E eu a queria tanto aqui por perto.
Meu bem, meu doce bem, minha senhora, Eu poderia declarar agora Meu grande amor, minha paixão ardente. Em minha mente insone, só seu nome Ecoa, só não soa o telefone; E a sua ausência se faz mais presente.
Passa das duas na cidade nua; Ao longe carros rugem para a lua E alguma coisa fica mais distante. Eu sinto a sua falta no meu quarto; Será que você volta antes das quatro? É tudo que eu queria nesse instante.