Uma Seleção de Canções

  • Somente Nela (2012)
  • Tá? (2018)
  • Tá? (2009)
  • Tá? (2011)
  • Tenho um Xodó Por Ti (I´ve Got a Crush on You) (2008)
  • Todas Elas Juntas Num Só Ser  (2011)
  • Todas Elas Juntas Num Só Ser (2004)
  • Todas Elas Juntas Num Só Ser (2017)
  • Todas Elas Juntas Num Só Ser (2018)
  • Do Guarani ao Guaraná (2021)
  • Força Que Vem do Vento

    Força que tem, que tá no ar
    em movimento natural
    Força que vem do vento que dá
    na torre alta vertical
    E faz a hélice girar
    no ar qual um anel
    E a pá que é tríplice rodar
    no alto contra o céu

    Força que produz e que traduz
    uma nova força e luz
    Força que evolui e não polui
    terra, mar e céu azuis
    Que deixa pura a mãe natura salva e sã
    e que nos lança uma esperança de amanhã

    Força nova que é gerada
    em qualquer lugar enfim
    e que sempre se renova
    e que nunca tem fim

    As Viajantes

    As Viajantes

    As Viajantes,
    Gêmeas errantes,
    Originais visitantes
    Dos gigantes do Sistema Solar –
    Lá…

    As Viajantes
    Vão mais distantes
    Do que jamais outra antes
    Pôde ir daqui ao céu estelar –
    Lá…

    (Vai na viagem
    Uma mensagem
    Na garrafa a vagar
    No oceano da imensidão.)

    Que viajante
    Assim distante
    Daqui da Terra e do Sol
    Há de evocar o Além, o Longe a rolar,
    Lá…?

    (Vão na mensagem
    Sons e imagens
    Do planeta, nosso lar;
    Da nossa civilização.)

    As Viajantes,
    Sem navegantes,
    Bilhões de anos ao léu
    Hão de vagar no espaço interestelar…
    Lá…

    Do Álbum “Miscelânea” de 2018

    Ficou pra trás,
    E nada traz
    De volta mais
    Aquilo, ó!
    No tempo jaz,
    E tempo faz
    Que virou gás
    Ou virou pó.

    Se já não há,
    Por que será,
    Em mim, que ‘tá,
    E dói que só?
    Aonde eu vá,
    Aquilo lá
    Saudade dá
    E dá um nó.

    Saudade, quando mais se adensa,
    E traz a presença
    Do que não está,
    E que ressurge para nós
    Do tempo, dos seus cafundós;

    O tempo, com sua matéria
    Dura, seu mistério
    Puro, sem parar,
    Resumindo a nada,
    Reduzindo a pó
    Pedra, vida, estrada,
    Com a sua mó –

    A sua máquina,
    Que o mundo mói
    E fundo rói,
    Sem pena, nem dó,
    Quem pena, tão só.

    Saudade dói
    Do que vivi,
    Do que morreu
    E virou pó;
    Do que se foi,
    Do que eu vi,
    Do que fui eu,
    Da minha vó.

    Outros Sons


    Do Álbum “Poesia” de 2018

    Num ritmo, num signo
    Ígneo
    De erres e orras
    De esses e zorras
    Num rito em urros
    Risos, sussurros
    Retecnizada
    A tribo
    Se desencerra
    Na Terra

    Rataplãs retumbantes, tantãs, tumbadoras, tambores
    Sacra, sã sangração, sagra o clã em clamantes louvores

    Em danças, transas, transes
    Felizes e velozes
    Vorazes e ferozes

    Oh yeahvoé shazam!

    bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerronntuonnthunntrovarrnawnskawn […] !

    Outros fins e outros trons
    Outros timbres, outros tons
    Outrossim outros a-tons
    Outros sins e outros sons

    Nus


    Do “Álbum” Poesia de 2018

    Nos miramos nos admiramos
    Nos sentimos nos consentimos
    Nos colamos nos descolamos
    Nos pegamos nos apegamos
    Nos laçamos nos enlaçamos
    Nos tentamos nos contentamos
    Nos velamos nos revelamos
    Nus
    Nos cedemos nos excedemos

    Nos deitamos nos deleitamos
    Nos manchamos nos desmanchamos
    Nos provamos nos aprovamos
    Nos gostamos nos degustamos
    Nos comemos nos comovemos
    Nos amamos nos amarramos
    Nos prendemos nos surpreendemos
    Nus
    Nos ilhamos nos maravilhamos
    Nus

    Luzia Luzia


    Do Álbum “Miscelânea” de 2018

    Luzia um raio de sol
    Um pôr-de-sol em Trancoso
    Um sinal um girassol
    Um anúncio luminoso
    Luzia uma nuvem rosa
    Uma neve cintilante
    Uma pedra preciosa
    Um verdadeiro brilhante
    Luzia um feixe de gêiser
    Uma taça de cristal
    Um poema em raio laser
    Uma aurora boreal
    Luzia uma mina de ouro
    Uma aura um tesouro
    Uma tela de TV
    Luzia você

    Luzia a pétala fina
    Luzia a pérola clara
    Luzia a gema da mina
    Luzia a jóia mais rara
    Luzia o fogo mais lindo
    Do Rio no réveillon
    Copacabana explodindo
    E o seu nome em neon
    Luzia a gota de orvalho
    Numa pétala de flor
    Uma camélia no galho
    Uma lágrima de amor
    Luzia o grão da alegria
    A fonte da fantasia
    Luzia a flor do querer
    Luzia
    Luzia você

    Luzia a chuva de prata
    Do meu luar do sertão
    Luzia o facho na mata
    Da serra na cerração
    Luzia o farol de Olinda
    O pingo de mel na boca
    Mistério que se deslinda
    E o botão da rosa louca
    Luzia a cálida chama
    Dessa flor desabrochando
    Luzia a pálida flama
    Do olhar da santa gozando
    Luzia um brinco um farol
    Um anel um videowall
    Luzia um véu um buquê
    Luzia
    Luzia você

    Luzia uma lantejoula
    Do rural maracatu
    Luzia a flor da papoula
    De um ipê no Pacaembu
    Luzia o fogo do afago
    O claro brilho do olhar
    Luzia a lua no lago
    No qual eu fui me afogar
    Luzia a estrela no véu
    Da minha noite sem fim
    Luzia o espelho do céu
    Luzia o céu para mim
    Luzia tudo que eu via
    Tudo que eu vejo e veria
    Tudo que eu desejo ver
    Luzia
    Luzia você

    Tá?

    do álbum “Poesia”de 2018

    Tá?

    Pra bom entendedor meia palavra bas-
    Eu vou denunciar a sua ação nefas-
    Você amarga o mar, desflora a flores-
    Por onde você passa, o ar você empes-
    Não tem medida a sua sanha imediatis-
    Não tem limite o seu sonho consumis-
    Você deixou na mata uma ferida expos-
    Você descora as cores dos corais na cos-
    Você aquece a terra e enriquece à cus-
    Do roubo do futuro e da beleza augus-
    Mas de que vale tal riqueza, grande bos-
    Parece que de neto seu você não gos-
    Você decreta morte à vida ainda em vis-
    Você declara guerra à paz por mais benquis-
    Não há em toda a fauna um animal tão bes-
    Mas já tem gente vendo que você não pres-
    Não vou dizer seu nome porque me desgas-
    Pra bom entendedor meia palavra bas-

    Tá?

    O Momento


    Do Álbum “Poesia” 2018

    Tem um momento (que de todos é diverso)
    Em que você se une ao todo, ao universo

    O tempo então congela (feito lá no pólo)
    Seu ego some, seu eu ergue-se do solo

    E sai voando entre as estrelas na amplidão
    Você se torna uma delas na explosão

    Dentro de si você vê uma grande luz
    Rompem-se todas as amarras e tabus

    Você mergulha e chega à raiz da vida
    Bebe na fonte do seu jorro sem medida

    Enquanto escuta a doce música distante
    Que toca fundo, ao fundo, infinda, nesse instante

    A eternidade então num lapso encapsula
    E a divisão entre você e o outro é nula

    Esse estado não é nenhum sonho impossível
    Algo irreal ou ideal, ou desse nível

    Nem tá vedado à multidão de abandonados
    E reservado só a alguns iluminados

    Mas ao alcance de nós todos, qualquer um
    De qualquer homem ou qualquer mulher comum

    Você não chega lá por uma fé num deus
    Cê chega lá porque então cê é um deus

    Já cega por um raio de um clarão tremendo
    A carne do seu ser põe-se a vibrar, tremendo

    Esse é o momento, enfim, de sol e nebulosa
    Em que você, meu caro, minha cara, …

    – Go-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-za!… –

    … goza

    Signs of Life on Mars

     

    do álbum “Miscelânea” de 2018

    Late at night, here we are
    Under the moon and the stars
    And while we wonder, although so far
    We search for signs of life on Mars

    In a Martian dust storm, we´ll find a trace
    A trace of life in distant, ancient days
    Hoping to find hope in another place
    Far away from here, in space

    There in space life´s rare
    Here there is life ev´rywhere
    But we destroy it, don´t even care
    As we go seek for life elsewhere

    In a Martian dust storm, we´ll find a trace
    A trace of life in distant, ancient days
    Hoping to find hope in another place
    Far away from here, in space

    Black hole and dark matter:
    Who´ll shed light on that matter?
    Galaxies spreading more and more…
    Universe in expansion
    Is like a big big dance or
    A question without answer:
    What´s beyond and what was there
    Before the Cosmos big-banged?
    Did it need a god to plan it?
    What if life came from the red planet?
    We are the cosmic conscience
    Of the world known.
    Looking for life.
    Got lots of water,
    Methane, nitrogen, ozone.
    We are nothing and we´re everything
    Before the great unknown.

    After we know what there is
    In the Martian subsurface
    There will be other mysteries
    Newer and bigger than this

    Will we see the world at its birth
    As a time machine in reverse?
    Are there other planets like the Earth
    Or are we alone in the universe?

    Composta em 2010

    Solidão Cósmica

    do álbum “Miscelânea” de 2018

    Mais de cem bilhões de estrelas
    De planetas, um trilhão
    (Na galáxia)
    Viajando com o bando
    De galáxias no além-céu

    Numa profusão silvestre
    De centenas de bilhões
    (No universo)
    Cada uma com um mundo
    Sim, de mundos, um sem-fim

    Amplidão
    Cósmica
    Solidão

    E um frio
    (Quase um pavor)
    Um silêncio
    Um império
    (Que não têm igual)

    Entrevendo entre elas
    Uma nuvem de algodão
    (Na galáxia)
    Penso em outro ser pensando
    Noutros seres como eu

    Numa Terra extraterrestre
    De longínquas regiões
    (Do universo)
    Cada vez mais longe e fundo
    Estendendo seu confim:

    Expansão
    Cósmica
    Solidão

    Um vazio
    (Cada vez maior)
    Um silêncio
    Um mistério
    (Que não têm final…)

    Canção Pra Ti


    do álbum “Poesia” de 2018

    Canção pra Ti

    Música de Ana Carolina e Moreno Veloso

    Por te querer de cara e coração
    Preciso te fazer uma canção

    Que seja bela, que se possa amar
    Como um golaço, um passe de Neymar
    Como um passo no ar do Grupo Corpo
    O cello de Jaques Morelenbaum
    A rima e o ritmo de Mano Brown
    Em cada frase, estrofe e no refrão
    Será que eu sou capaz de tal canção?

    Que tenha algo em excesso ou algo excelso
    Como uma peça, um ato de Zé Celso
    Como um poema de Augusto de Campos
    Como uma letra de Arnaldo Antunes
    Como uma estampa de Alberto Pitta
    A mim não falte empenho e arte, não
    Será que eu sou capaz de tal canção?

    Que valha o investimento de neurônios
    Qual pensamento de Antonio Cicero
    Qual um ensaio de Risério, Antonio,
    Qual uma ideia de Rogério Duarte
    Qual um cenário de Helio Eichbauer
    De pau ereto (power) de tesão
    Será que eu sou capaz de tal canção?

    Que revele um requinte em mots et son
    Como um desfile de Gisele Bundchen
    Como uma foto de Bob Wolfenson
    Como a visão de Eduardo Viveiros
    E como a voz de Sonia Guajajara
    Com rima rara e aliteração
    Preciso te fazer essa canção

    Que luza qual poema em raio laser
    Como a ciência de Marcelo Gleiser
    O axé de Mãe Carmen do Gantois
    O fôlego e a yoga de Iyengar
    E a palavra-chave de Kikuchi
    Que um outro escute com muita atenção
    Será que eu sou capaz de tal canção?

    Que alegre e que comova no seu auge
    Como o cinema de Pedro Almodóvar
    Como o Tanztheater de Pina Bausch
    Como a chegada da Estação Primeira
    Como a saída do Ilê Aiyê
    Que dê ideia da minha afeição
    Será que eu sou capaz de tal canção?

    Na qual não haja nada fosco ou tosco
    Qual um artigo de Francisco Bosco
    Qual uma tradução de Boris Schnaiderman
    Qual realização de Yael Steiner
    Qual um menu da chef Bela Gil
    Por seres uma em mil se faz então
    Preciso te fazer essa canção

    Que seja foda, aguda, fina, chique
    Qual livro de José Miguel Wisnik
    E a moda na São Paulo Fashion Week
    E fique no YouTube e se remixe
    E no teu coração enfim se fixe
    Te quero tanto, com tanta paixão
    Que é capaz de eu ser capaz de tal canção

    Com Você, Sem Você

    Com Você, Sem Você

    Eu com você
    Baião com acordeão
    Samba com bamba
    Futebol com gol
    Bahia com alegria
    Arpoador com o pôr
    Com você, meu amor
    Que é a rima melhor pra mim

    Eu sem você
    Pelé sem pé
    Pássaro sem asa
    Orgasmo sem órgão
    Kama Sutra sem cama
    Pornô sem pôr
    Sem você, meu amor
    Que é a parte melhor de mim

    Você, meu amor
    É a parte melhor de mim!

    Eu com você
    Passarinho com ninho
    Candomblé com axé
    Jesus com luz
    Sexo com nexo
    Amor com humor
    Com você, meu amor
    Que é a rima melhor pra mim

    Eu sem você
    Caminhão sem caminho
    Floresta sem flora
    Cinema sem cena
    Teatro sem ato
    Arco-íris sem cor
    Sem você, meu amor
    Que é a parte melhor de mim

    Você, meu amor
    É a parte melhor de mim!

    Eu com você
    Arquiteto com projeto
    Viagem com bagagem
    Abraço com amasso
    Nordeste com o Agreste
    Salvador com o Pelô
    Com você, meu amor
    Que é a rima melhor pra mim

    Você, meu amor
    É a rima melhor pra mim!

    Doce Loucura

    Doce Loucura

    Não quero cuca nem cocada,
    Não quero trufa nem pudim nem strudel,
    Não quero bomba nem bom-bom em celofane.

    Quero ficar me lambuzando
    Em longos beijos, lânguidas lambidas,
    Entre seus lábios, suas pernas, baby-honey.

    Doçura é o seu amor, amor:
    Não há bom-bom tão bom, com tal sabor.
    Eis o mel melhor, o mel dos méis:
    Amor da cuca até os pés.

    Não quero ácido nem álcool,
    Não quero êxtase nem pó nem crack,
    Não quero cânhamo (maconha), só um “beize”…

    Quero pirar com seu sorriso
    E por seu corpo perder o juízo,
    Transando sexo com você; you drive me crazy.

    Loucura é o seu amor, amor:
    Nenhum barato pode ser maior.
    Eis o coquetel dos coquetéis:
    Amor do coco até os pés.

    Não quero doce,
    Não quero bala,
    Não quero coca nem tampouco chocolate.

    Loucura, eu quero seu amor – amor:
    Nenhum barato pode ser maior.
    Eis o coquetel dos coquetéis:
    Eu fico louco,
    Você, maluca,
    Da cuca-coco até os pés.

    Não quero cookie nem cocada,

    Caterina

    Caterina

    Gata Catê, catita Cá, bonita Cate,
    Colírio pra visão, perfume pra narina.
    Feliz de quem te toque e pela mão te cate,
    Em Nova York, Sampa ou Santa Catarina.
    Tudo iluminas, tudo luz, quando tu vens, com cate-
    Goria, num vestido lindo de vitrina.
    Meu intelecto dança se de lá pra cá te
    Vendo passando, leve como dançarina.

    Meu coração amante manda que eu acate
    A lei do teu desejo, minha csarina,
    E pede que teu corpo em flor não se recate,
    Nesse meu peito que pandeira e tamborina.
    Teus seios vitaminam mais do que abacate.
    Teus lábios deliciam mais que nectarina.
    Não há quem mais cative, quem mais desacate,
    Enquanto eu me encanto, e quanto, Caterina.

    The Tragedy of Angelica

    The Tragedy of Angelica

    The Tragedy of Angelica

    The tragedy of Angelica – Act One

    Here is my canticle
    Unsystematical
    Which is so typical
    When one is not physical
    My epic poetry
    Rhymed with absurdity
    Done with rapidity
    And with insanity

    I loved Angelica
    She was so colorless
    Had no salubrity
    Only timidity
    She was malignant
    And her rapacity
    Made my esophagus
    Laugh very heavily

    In a cold evening
    In the big theater
    We heard the notable
    Virtuoso pianist
    Outside was Zephyrus
    Spoiling the spectacle
    Therefore Angelica
    Became asthmatical

    The tragedy of Angelica – Act Two

    I took Angelica
    To a good hospital
    And found a specialist
    With prices moderate
    Upon examining
    It was so terrible
    She had the cholera
    And also syphilis

    I ran immedi´tely
    To buy some medicine
    And also strychnine
    To help her agony
    A stupid pharmacist
    Was irresponsible
    Confused the formula
    Made it illegible

    He wasn´t scrupulous
    He was ridiculous
    Changing the elements
    In all recipients
    I hurried back speedily
    Thirteen kilometers
    Riding my bicycle
    Faster than lightening

    The tragedy of Angelica – Act Three

    In a hot afternoon
    As she was shivering
    I gave Angelica
    That drug or medicine
    Such an experiment
    Brought her no merriment
    She drank two chalices
    And got paralysis

    What a fatality
    What a calamity
    It was an overdose
    To her esophagus
    The thing I gave to ´er
    Would bring a grave to ´er
    She cri-ed terribly
    And di-ed instantly

    Her dad got serious
    Found it mysterious
    A man so curious
    Became so furious
    Got many manias
    A miscellanea
    Of neurasthenia
    And schizophrenia

    The tragedy of Angelica – Fourth and Last Act

    So died Angelica
    And in her tumulus
    She was lugubrious
    And quite inanimate
    After the autopsy
    The doctors diagnosed
    That my Angelica´s
    Ill was inveterate

    But in her memory
    Made a sarcophagus
    Black like the ebony
    Near the asparagus
    In the green botany
    She lives in harmony
    In the monotony
    Of immortality

    And as an epitaph
    Poetic dolorous
    I wrote an epigraph
    Pathetic amorous:
    “Here lies Angelica
    Who lived in palaces
    A girl so glamorous
    Died in paralysis”

    *

    O Drama de Angélica

    O Drama de Angélica – Primeiro Ato

    Ouve meu cântico
    Quase sem ritmo
    Que a voz de um tísico
    Magro esquelético
    Poesia épica
    Em forma esdrúxula
    Feita sem métrica
    Com rima rápida

    Amei Angélica
    Mulher anêmica
    De cores pálidas
    E gestos tímidos
    Era maligna
    E tinha ímpetos
    De fazer cócegas
    No meu esôfago

    Em noite frígida
    Fomos ao lírico
    Ouvir o músico
    Pianista célebre
    Soprava o zéfiro
    Ventinho úmido
    Então Angélica
    Ficou asmática

    O Drama de Angélica – Segundo Ato

    Fomos ao médico
    De muita clínica
    Com muita prática
    E preço módico
    Depois do inquérito
    Descobre o clínico
    O mal atávico
    Mal sifilítico

    Mandou-me o célere
    Comprar noz vômica
    E ácido cítrico
    Para o seu fígado
    O farmacêutico
    Mocinho estúpido
    Errou na fórmula
    Fez despropósito

    Não tendo escrúpulo
    Deu-me sem rótulo
    Ácido fênico
    E ácido prússico
    Corri mui lépido
    Mais de um quilômetro
    Num bonde elétrico
    De força múltipla

    O Drama de Angélica – Terceiro Ato

    O dia cálido
    Deixou-me tépido
    Achei Angélica
    Já toda trêmula
    A terapêutica
    Dose alopática
    Lhe dei em xícara
    De ferro ágate

    Tomou num fôlego
    Triste e bucólica
    Esta estrambólica
    Droga fatídica
    Caiu no esôfago
    Deixou-a lívida
    Dando-lhe cólica
    E morte trágica

    O pai de Angélica
    Chefe do tráfego
    Homem carnívoro
    Ficou perplexo
    Por ser estrábico
    Usava óculos
    Um vidro côncavo
    Outro convexo

    O Drama de Angélica – Quarto e Último Ato

    Morreu Angélica
    De um modo lúgubre
    Moléstia crônica
    Levou-a ao túmulo
    Foi feita a autópsia
    Todos os médicos
    Foram unânimes
    No diagnóstico

    Fiz-lhe um sarcófago
    Assaz artístico
    Todo de mármore
    Da cor do ébano
    E sobre o túmulo
    Uma estatística
    Coisa metódica
    Como “Os Lusíadas”

    E numa lápide
    Paralelepípedo
    Pus esse dístico
    Terno e simbólico:
    “Cá jaz Angélica,
    Moça hiperbólica,
    Beleza helênica,
    Morreu de cólica!”

    Música e letra de Alvarenga e M.G. Barreto
    1943

    Star-Filled Night

    Star-Filled Night

    Late at night and stars all beaming;
    Oh the stillness seems like dreaming
    Of a flowing forest river
    Like a pouring rain of silver
    Splendid moonlight from above.

    Though you’re sleeping, it is you who
    I´m singing of,
    While the moon in all its glory
    Can’t but hear the tearful story
    Of this love.

    Moonlight,
    With your silver sheen above me,
    Wake this woman oh so lovely.
    Oh what longing, ardent yearning,
    As my lips for hers keep burning.

    Can’t you
    Hear me singing as she’s sleeping?
    She won’t hear my heart is leaping.
    Oh can’t you see?
    No, the moon is not sorry for me;
    Just because on calling you I insist,
    She hides behind the mystic mist.

    Now the moon shines with disdain there,
    And she´s so pensive and so vain there,
    And the stars that seem so calm rise
    Like a dizzy flood of fire-flies
    O’er the glossy silver moon.

    All the starry sky fell silent
    To hear the tune,
    With your name in the refrain
    In complaints so full of pain
    To the moon.

    Late at night and stars all beaming;
    Oh the stillness seems like dreaming
    Of a flowing forest river
    Like a pouring rain of silver
    Splendid moonlight from above.

    Though you’re sleeping, it is you who
    I´m singing of,
    While the moon in all its glory
    Can’t but hear the tearful story
    Of this love.

    Moonlight,
    With your silver sheen above me,
    Wake this woman oh so lovely.
    Oh what longing, ardent yearning,
    As my lips for hers keep burning.

    Can’t you
    Hear me singing as she’s sleeping?
    She won’t hear my heart is leaping.
    Oh can’t you see?
    No, the moon is not sorry for me;
    Just because on calling you I insist,
    She hides behind the mystic mist.

    Now the moon shines with disdain there,
    And she´s so pensive and so vain there,
    And the stars that seem so calm rise
    Like a dizzy flood of fire-flies
    O’er the glossy silver moon.

    All the starry sky fell silent
    To hear the tune,
    With your name in the refrain
    In complaints so full of pain
    To the moon.

    Noite Cheia de Estrelas

    Noite alta, céu risonho;
    A quietude é quase um sonho.
    O luar cai sobre a mata
    Qual uma chuva de prata
    De raríssimo esplendor.

    Só tu dormes, não escutas
    O teu cantor,
    Revelando à lua airosa
    A história dolorosa
    Deste amor.

    Lua,
    Manda a tua luz prateada
    Despertar a minha amada.
    Quero matar os meus desejos,
    Sufocá-la com meus beijos.

    Canto,
    E a mulher que eu amo tanto
    Não me escuta, está dormindo.
    Canto e por fim
    Nem a lua tem pena de mim,
    Pois ao ver que quem te chama sou eu
    Entre a neblina se escondeu.

    Lá no alto a lua esquiva
    Está no céu tão pensativa.
    As estrelas tão serenas
    Qual dilúvio de falenas
    Andam tontas ao luar.

    Todo o astral ficou silente,
    Para escutar
    O teu nome entre as endechas,
    Tuas dolorosas queixas
    Ao luar.

    Música e letra de Cândido das Neves (Índio)
    1928

    *

    Quede Água, Quede?


    do álbum “Miscelânea” de 2018

    Quede Água, Quede?

    Quede água, quede?
    A gente pede água,
    O tempo pede água, pede.
    O que te impede, água?

    Quede água, quede?
    A terra pede água.
    O homem pede água, pede.
    Quem por nós intercede, água?

    Quede água, quede?
    A fome pede água,
    A sede pede água, pede.
    Quem nos concede água?

    Água, por que te escafedes?
    Por que tu cheiras e fedes,
    Água?

    Quede água, quede?
    A seca pede água,
    O rio pede água, pede.
    Mata essa sede, água.

    Quede água, quede?
    O bicho pede água.
    A planta pede água, pede
    Uma queda, um pé de água.

    Quede água, quede?
    A vida pede água,
    O mundo pede água, pede
    Um igarapé de água.

    Água, por que te escafedes?
    Por que tu cheiras e fedes,
    Água?

    Para Onde Vamos?


    Do álbum “Miscelânea” de 2018

    Para Onde Vamos

    Para onde vamos? Ah, onde vamos parar?
    Nessa encruzilhada, que estrada vamos pegar?
    Que perigo de mau tempo, temporal,
    De temperatura em alta e de desastre existe pra todos nós afinal?

    Que deslizamento de monte, que inundação
    Nossos olhos tristes ainda inundarão?
    Que geleira tem que ainda derreter,
    Pra quebrar a pedra de gelo que tem no peito quem tem um podre e alto poder? (*)

    Quanto tempo mais alguns vão fingir que não veem
    O que eles veem porém fingir lhes convém?
    Quantos homens, aos milhares, aos milhões,
    Vão morrer de fome e de sede, vítimas de ações de outros homens de outras nações?

    Que será do mundo que vemos, que mundo nós
    Deixaremos às gerações que virão após?
    Que futuro desenhamos, que manhã?
    Nosso tino ou desatino hoje define nosso destino aqui amanhã.

    (*) Variante

    Que desmate tem que ainda ocorrer,
    Pra quebrar a pedra que tem no peito de quem depreda do alto e podre poder? (*)